segunda-feira, 13 de junho de 2011

Energia não tem idade



Não vou mentir que, mesmo com todas as adversidades, eu curti o show de Amy Winehouse, em janeiro passado. Mas foi só assistir ao vulcão Sharon Jones e sua banda The Dap Kings, no último sábado, durante o BMW Jazz Festival, para eu avaliar o show de Amy com um olhar mais crítico. A comparação entre as duas divas do soul tem seus motivos. Foi a própria Amy que colocou os holofotes em cima de Sharon Jones, quando convocou a banda de apoio dela para gravar o disco "Back to Black". A jovem inglesa ficou tão fascinada que se inspirou declaradamente na sonoridade deles para elaborar seu disco de maior sucesso.

Ao ver as duas cantoras no palco, num intervalo de menos de seis meses, definitivamente fico com a menos famosa. Carregando 55 anos nas costas, Sharon Jones cantou como se fosse a última vez, dançou, urrou e fez o público sisudo do Auditório Ibirapuera se levantar para balançar junto com ela. No contraponto, a inglesinha Amy pouco se movimentou no palco, cambaleou um tanto e fez apenas o básico - o que já é bem bom, afinal o vozeirão dela não deixa a peteca cair. Mas não encantou, não impressionou e deixou um gostinho levemente amargo na boca do público.

Já o gosto que deixou Sharon Jones na boca de seus fãs foi de quero mais. Foram duas horas de um show intenso e divertido, da mais alta qualidade. Soul music de raiz, com pitadas do funk de James Brown e da boa música africana. Dava orgulho ver no palco uma cantora dando tudo de si, fazendo valer cada minuto dispensado pelo público. A interação com a platéia era constante e do alto dos seus (se muitos) 1,50m de altura, Sharon parecia uma gigante. E que voz!

Mesmo injusto por muito tempo, o mundo dá suas voltas e compensa mesmo que tardiamente. Esnobada quando jovem por ser negra, baixinha e feia, Sharon Jones só estreou como cantora aos 40 anos de idade. Antes disso, continuou emprestando sua garra a outros ofícios, como o de carcereira. Ao abraçar a música, realizou seu sonho e caminhou lentamente para o estrelato. Foram dois discos menos conhecidos e um terceiro que se aproveitou da fama alcançada pelos Dap Kings após a gravação deles com Amy. "100 Days, 100 Nights" levou Sharon Jones & The Dap Kings ao posto de sensação do soul, posição confirmada pelo também ótimo "I Learned The Hard Way". Agora, no auge tardio de sua carreira, esta talentosa norte-americana mostra que tem gás para muitos anos, amparada por seus fiéis escudeiros. Afinal, não é qualquer uma que faz quatro shows na sequência (sábado e domingo em São Paulo, hoje em Salvador e amanhã no Rio de Janeiro) e nem parece cansar.

sábado, 4 de junho de 2011

A volta dos mutantes



Não há história em quadrinhos (de super-herói) com a profundidade do X-Men. Quando se imaginava que a série estava desgastada no cinema, após um terceiro filme inferior e um pouco elogiado capÍtulo dedicado a Wolverine, o estúdio Fox reinventou a saga em grande estilo. Para isso, convocou o diretor dos dois primeiros e excelentes X-Men, Bryan Singer, para colaborar com o roteiro. E contratou o não tão experiente diretor Matthew Vaughn para dar frescor a um filme que narra como surgiu o grupo dos mutantes, "X-Men: Primeira Classe".

E tudo funciona perfeitamente bem, perigando ser esse o melhor exemplar destes fantásticos heróis da Marvel. Costurando o enredo fictício com momentos dramáticos da História mundial, como a 2a Guerra Mundial e a Crise dos Mísseis de Cuba, o filme é inventivo e divertido. Como é comum quando se trata do grupo mais atormentado dos quadrinhos, é discutido, com relativa profundidade, temas como preconceito, raiva e vingança. É possível substituir os mutantes por qualquer grupo que sofre preconceito, como os negros, os judeus, os gays. A essência é a mesma e a intolerância salta latente aos olhos.

Neste primeiro filme de uma possível nova trilogia, entendemos o que motivou Magneto a se tornar um violento combatente dos humanos; percebemos como surgiu a amizade entre Magneto e Professor Xavier - e como ela ficou abalada; observamos a criação dos X-Men e a relação do grupo com a CIA; e vemos alguns dos mutantes no início da trajetória, aprendendo a controlar seus poderes. Nem sempre com extrema fidelidade às HQs, mas sempre com muita coerência com o próprio filme. Não há pontas soltas. Para os fanáticos por ação, esse é um filme mais pautado pelos diálogos e roteiros, mas ainda assim há cenas eletrizantes. O elenco jovem dá o gás que a série pedia, com destaque para James McAvoy, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence.

Em "X-Men: Primeira Classe" fica ainda mais claro que a linha que separa os heróis dos vilões é muito tênue. Como não entender as motivações de Magneto? Serão mesmo tão menos nobres que o discurso pacifista de Xavier? Como Malcom X e Martin Luther King, eles duelam com as armas que lhe cabem, sempre em busca da aceitação pela sociedade. Darão pano para manga para mais capítulos. E que venham, pois, as próximas etapas dessa história atemporal.

domingo, 1 de maio de 2011

Um grata surpresa



É praticamente um clichê falar que o ideal é não criar expectativa, pois assim dá para diminuir a possibilidade de decepção. Tudo que vier é lucro. Bom, para mim, não funciona bem assim. Geralmente, minhas expectativas são altas, potencializadas pela ansiedade para que aconteça logo ou então por amplas pesquisas sobre o tema. Acontece comigo quando se trata de programas culturais e gastronômicos, os meus favoritos. E também com o outro componente da tríade ideal: as viagens. Quando uma se anuncia no horizonte, inicio as longas pesquisas, armo roteiros e penso nos detalhes. Confesso que tenho dado sorte, com as viagens alcançando justamente a alta expectativa criada. A exceção ficou por conta da mais recente, na Semana Santa. Destino? Bogotá, capital da ainda pouco conhecida Colômbia (ao menos no Brasil). A diferença? Bem, Bogotá superou (e muito) as minhas expectativas, desta vez não tão altas. Explico: mesmo ouvindo os mais diversos elogios dos poucos amigos que já conheciam a Colômbia, não estava tão seguro do que encontrar pela frente. Na minha cabeça estava algo entre a pouco apetitosa Caracas e a interessantíssima Havana. As pesquisas na Internet, que muito me ajudaram a montar o roteiro, não eram tão precisas e as fotos que vi nem sempre eram da melhor qualidade. Reinava, então, o ponto de interrogação, que só aguçava a minha curiosidade.

Pois então, parti de coração aberto rumo a Bogotá, numa quinta-feira santa. Não precisei de mais de 20 minutos (o caminho do aeroporto para o hotel) para me entregar a capital colombiana. Do táxi, vi uma cidade arrumada desde os arredores do aeroporto, região que geralmente não é digna de muito elogio nas grandes capitais. A cada quarteirão, a metrópole me impressionava com setores modernos, alguns outros bem tradicionais e outros chiques, com "cara de primeiro mundo". Tudo limpo, civilizado, rodeado de árvores e deixando uma certeira sensação de segurança. Numa pergunta rápida para aqueles que não conhecem a Colômbia, a avaliação provavelmente seria contrária. Falariam que a cidade é perigosa por conta do tráfico de drogas, caótica como muitas cidades latino-americanas e suja. Pois Bogotá é exemplo entre as capitais do nosso continente, agora tenho segurança para falar.

A arquitetura de Bogotá é um destaque à parte. As casas e edifícios baixos de tijolinhos, com aquela cor característica mezzo alaranjada, só ajudam a criar o clima sofisticado, especialmente em áreas como o Parque da 93 e a Zona Rosa. A temperatura sempre amena - quase o ano todo entre 13 e 18 graus - é a ideal para esse baiano que vos fala. Sim, sou baiano, mas não gosto mesmo de calor. Os vários parques distribuídos pela cidade são bem cuidados e frequentados. Caminhar é uma opção indicadíssima. Mesmo de noite (ao menos na região mais turística), andar nas ruas não é perigoso. Não me senti ameaçado em nenhum momento. Muito pelo contrário, me senti acolhido pelo orgulhoso povo colombiano.

Aliás, essa foi uma das coisas que mais me impressionou: a educação e boa vontade dos bogotanos. Todos são muito solícitos e quase lhe pegam pelo braço para ajudar. Gostam da noite, frequentam bares e valorizam muito a cultura. Parecem ter muito orgulho da Colômbia, num esforço conjunto para mudar a imagem do país. E estão fazendo isso aos poucos, mas com consistência, se preparando bem para receber os visitantes. Se Bogotá já é um destino interessantíssimo, em conjunto com outras localidades, como Cartagena e San Andrés, pode formar uma viagem inesquecível. E se você gosta de comer bem, a capital colombiana é também uma excelente opção. Pensando na América do Sul, não chega ao patamar da imbatível Lima, mas até nisso eles dão um jeitinho. A quantidade de restaurantes peruanos - inclusive Astrid y Gastón e La Mar, ambos do superchef Gastón Acúrio - surpreende. Mas claro que há destacados restaurantes típicos, além de internacionais de qualidade superior. E o melhor: com ótimos preços. Para uma refeição do mesmo nível dos principais restaurantes de São Paulo, paga-se a metade. Só não é mais barato que táxi. Para atravessar Bogotá de ponta a ponta, basta desembolsar entre 15 e 20 reais. Não raro, a conta dava entre 5 e 8 reais. Uma pechincha.

Pois então, se você quer fazer uma viagem dentro do continente, quer gastar pouco e receber muito de volta, escolha Bogotá sem medo. Os passeios são muitos e a diversão é garantida. Seguro que sí!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Rock na veia



A safra das biografias musicais é das melhores. Claro, ainda teremos que conviver com bombas como o livro sobre a vida de Justin Bieber - cujo resumo caberia numa (medíocre) redação do Ensino Médio, mas há opções interessantíssimas para quem gosta da boa música. No Brasil, o destaque é o verborragico Lobão, que em alguns momentos é o chato de plantão, mas certamente tem muita história para contar. No exterior, tem Keith Richards, Ozzy Osbourne e Patti Smith. Todos sobreviventes do rock, verdadeiras lendas. O primeiro da fila de leitura foi Keith Richards. A autobiografia "Vida", elaborada com o apoio do escritor James Fox, é um divertido extrato de uma das trajetórias mais loucas do rock. Ao contrário do que se imagina, Keith lembra sim de muita coisa. Quando não se lembra, põe amigos e parentes para falar por ele, num recurso que dá dinâmica à narrativa.

Keith é a figura mais interessante dos Stones. É um daqueles rockstars que personifica o rock'n'roll como deve ser: sujo, sacana e intenso. Não dava para esperar uma biografia limpinha desse rockstar. "Vida" é verdadeira e recheada de drogas, mulheres e de opiniões pouco convencionais. Carregada de ironia, tem passagens hilárias, observações inéditas sobre alguns dos astros que transitaram ao redor do guitarrista e trechos sobre a música dos Stones e a maneira de Keith tocar. Algumas (poucas) passagens exageram no tom técnico, nada que atrapalhe a narrativa fluída e envolvente.

Como não poderia deixar de ser, a louca ciranda das drogas está no centro das atenções. Ele narra o seu movimento inicial, o mergulho no mundo dos ácidos e cocaína até chegar na temida heroína. Mesmo não fazendo apologia às drogas, Keith desenvolve quase um manual de uso, classificando o melhor tipo de heroína, o que se deve evitar ao tomar a droga e qual a sensação ao experimentá-la. Não tem receio de contar os detalhes mais tenebrosos, o que incluir a agoniante descrição das crises de absistência. Em uma passagem, ele chega a dizer que é melhor ter a perna explodida numa trincheira ou morrer de fome do que passar por uma crise desse tipo. E assusta ao dizer que sua ex-mulher Anita Pallenberg conseguia ser pior que ele - o que, diga-se de passagem, levou a separação dos dois. Ele chega a dizer que tinha medo de Anita e se escondia com o filho Marlon até ela se acalmar. "Anita era como Hitler, ela queria que tudo desmoronasse junto com ela. Por mim eu ainda estaria com ela! Mas Anita jogou tudo fora. Ela agora esta bem, Tornou-se uma avó maravilhosa", completa Keith.

Mesmo não sendo nenhum santinho, Keith largou a heroína há mais de 30 anos. Não sem antes colocar a vida em risco nas mais diversas situações e ser preso durante algumas outras. Na pior fase, ficou nove dias sem dormir e levou o filho de sete anos para uma louca turnê dos Stones, colocando o menino para ser babá dele. Sempre na estrada, entupido de drogas e com os tiras no encalço. Mas não é só de loucuras que Keith fala. Em alguns momentos, ele deixa aflorar uma rara sensibilidade. Defende o amor mais responsável e diz que nunca gostou das transas loucas com groupies. Ele gostava mesmo era das "groupies enfermeiras", aquelas que só tomavam conta dele. Não dá para negar que essa figura romântica não combina tanto com Keith, mas ele até que convence o leitor no discurso.

Em um dos momentos mais emocionantes do livro, Keith fala da morte do filho, Tara, de 2 meses. Ele não se perdoa por ter saído em turnê e deixado o filho recém-nascido para trás. Foi um mal súbito, mas Keith afirma que "agora existe um espaço permanentemente gelado dentro de mim (...) Hoje em dia isso me atinge aproximadamente uma vez por semana". Morte, aliás, é um assunto recorrente no livro. Muitos amigos de Keith se foram, boa parte deles por conta das drogas. Ele fala com carinho de Gram Parsons, James Belushi (segundo ele, uma experiência extrema até para os padrões dele) e Ian Stewart. A morte deste último, que recebe de Keith o crédito como o cara que fez os Stones de fato surgir, foi o maior golpe para Keith, só perdendo para a morte do seu próprio filho.

Quando fala de amizade, Keith faz questão de dar crédito aos que mais o influenciaram, conta histórias divertidas de seus amigos menos conhecidos e foca naqueles que foram os companheiros dos Stones. Além do já citado Ian Stewart, ele tece os mais justos elogios a Charlie Watts, Ron Wood (que foi levado aos Stones por Keith) e Mick Taylor. Brian Jones aparece mais como uma figura asquerosa, que maltratava os amigos e a namorada Anita Pallenberg. Ela mesma, que depois foi roubada por Keith, num gesto pouco nobre. Claro que Keith relativiza os defeitos de Brian e mostra alguma afetividade, mas a imagem final não é nem um pouco favorável. Quando se trata de Mick Jagger, o buraco é mais embaixo. Num típico morde e assopra, Keith coloca o amigo-irmão nos céus, para em seguida derrubá-lo com os mais terríveis xingamentos. A relação dos dois piorou drasticamente quando Keith largou as drogas e resolveu se envolver mais detalhadamente nos negócios da banda. Nesse ponto, Jagger já se achava o dono dos Stones e estava cada vez mais distante. Vestindo a carapuça de superstar, o vocalista se envolveu com a alta sociedade, passou a exigir algo mais que os outros integrantes e deixou as amizades em segundo plano. Aborrecido, Keith afirma: "Deve ter uns 20 anos que não vou no camarim dele. Às vezes sinto falta do meu amigo. Onde diabos ele foi? Se a merda voar no ventilador, ele estara lá. Mas Mick com o passar dos anos foi se isolando mais e mais". Os piores momentos ocorreram quando Mick Jagger resolveu se dedicar a carreira solo, culminando com a decisão de não sair em turnê com os Stones em 1985. Bradando por todos os cantos que os Stones era uma pedra amarrada ao pescoço dele, Jagger se indispôs com toda a banda.

"Vida" é, pois, um livro humano, longe do politicamente correto, que conta com sagacidade a trajetória dos Rolling Stones, em particular desse inusitado rockstar, desde o nascimento até os dias de hoje. Obrigatório para quem curte o bom e velho rock´n´roll e mais ainda para quem é fã desta que é uma das maiores bandas da história. Ao final da leitura, uma das impressões que fica é que todos os roqueiros da atualidade são animadores de festinha de criança. E que poucos podem com o velho Keith Richards.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os vários estágios do rock


Quem lê esse blog com certa assiduidade, já entendeu que eu sou viciado em shows. Assim como 2010, 2011 caminha em passos largos para ser preenchido com pelo menos três dezenas de shows internacionais para o currículo. São Paulo ferve e a cada semana alguma atração gringa bate por aqui. Já me arrependi de ter perdido alguns dos shows, com maior destaque para Ozzy Osbourne. Dormi no ponto, perdi a chance. Já tive a oportunidade de assistir esse ano a shows de artistas nos mais diversos estágios de carreira. Primeiro foi Amy Winehouse, que ainda não conseguiu sair do inferno astral, lambe os beiços da decadência, mas ainda oferece lampejos de genialidade. Na mesma noite, Mayer Hawthorne, sem qualquer obrigação de estrela, fez show leve e divertido. No meio das duas atrações, a jovem Janelle Monáe se desdobrou no palco para agradar a todos. Mas como estreante ansiosa, foi muito boa em alguns momentos e meio "over" em outros. A impressão clara é que após lançar o segundo disco, ela poderá equilibrar com mais clareza o seu repertório. Talento, ela tem de sobra.

Há os shows que surpreendem. Nesse quesito, esse ano, quem brilhou foi Kate Nash. Ganhar ingresso para show já lhe deixa com a maior boa vontade em relação ao artista, mas Kate foi além. Deu nova vida às suas já ótimas músicas, colocando sujeira nos arranjos e portando-se como uma rock star. Em alguns momentos, tive a nítica sensação de estar assistindo ao Breeders ou Sonic Youth. Grata surpresa. Infelizmente, também existem os shows de despedida. E algumas despedidas acontecem no auge da carreira, como foi o caso do LCD Soundsystem. Com a casa lotada, James Murphy e sua trupe mostraram porque sempre estão na lista dos mais criativos da música atual. Rock com generosas pinceladas de eletrônica, numa música que não lhe deixa parado e tem mensagem relevante. Mas antes que a banda começasse a se repetir, eles resolveram encerrar as atividades. Bom, pelo menos passaram no Brasil antes disso!

Nos últimos sete dias, pude assistir a dois shows de bandas praticamente opostas, pelo menos quando analisamos o momento da carreira. Primeiro foi o The Drums, com seus garotões no palco e sua música urgente e imperfeita. Jovens, ainda inexperientes e com apenas um disco nas costas, fizeram um show vibrante, acompanhados pelo público também jovem e cheio de estilo. O som igualmente imperfeito do Estúdio Emme prejudicou um pouco a performance, mas só colaborou para a sensação de estar assistindo a uma banda no seu desabrochar. O lugar pequeno e apertado fechavam o cenário. Era como estar numa pequena casa de show norte-americana, vendo a estréia de uma futura (quem sabe?) grande banda do rock. Exatos cinco dias depois, o clima era outro. Um público mais velho e menos afeito às tendências da moda, assitiu ao rock adulto do The National (foto). Plenamente cientes da qualidade da sua música, os americanos fizeram um show maduro, carregando na bagagem os bem mais pesados (e complexos) cinco discos. E não se engane: não é rock cabeça ou chato. É rock direto, sem firulas, com alguma melancolia e instrumentistas da melhor qualidade, que nem por isso exageram nos arroubos virtuosos. O público teoricamente mais quadradinho, se entregou de bandeja para a banda, numa troca de energia que dá sentido a qualquer show de rock. Para prosseguir nessa maratona musical, já aguardo ansioso o próximo sábado (09/04). Vem aí U2, junto a luxuosa companhia do Muse. E olhe que ainda estamos em abril...

sábado, 26 de março de 2011

Quem quer dinheiro?



Só quem passou as últimas semanas em Plutão ou vive uma vida completamente offline não ouviu falar da grande confusão em que Maria Bethânia, possivelmente a melhor cantora viva do Brasil, se meteu. Ela pediu autorização do Ministério da Cultura (Minc) para captar R$ 1,3 milhão, via Lei Rouanet, para um blog de vídeos de poesia, gravados pelo cineasta Andrucha Waddington. Com a autorização, sua equipe pode bater na porta das empresas em busca da verba, que sai como isenção fiscal para os patrocinadores. Em última instância, é sim dinheiro público. O burburinho no Twitter, Facebook e outras redes sociais foi imenso. Imagino que a artista de Santo Amaro nem circula pelas redes sociais, mas certamente foi informada por seus assessores de toda a repercussão. Aliás, as grandes divas da música da Bahia não estão indo muito bem com a tecnologia, vide a discussão sem fim que Gal Costa teve com fãs (ou não) pelo Twitter. Ela foi inventar de fazer gozação com a preguiça de seu povo e acabou ouvindo poucas e boas. Porque é aquela história, a gente pode falar mal de nós mesmos, mas somente entre nós. Não pode divulgar por aí para todo mundo ver! Resultado: Gal fechou a conta no Twitter.

Voltando a irmã de Caê, não há como negar que o pedido de Bethânia foi legítimo. Ela utilizou artifícios que estão acessíveis a todos para um projeto. Não burlou a lei, nem se utilizou de brechas duvidosas para conseguir autorização do Minc. Mas, como disse anteriormente, em última instância é dinheiro que deixa de ir aos cofres públicos. Só que se alguém quer reclamar disso, que discuta a lei. Ao que me consta, não foi Bethânia que criou! O projeto, importante dizer, é bem mais que um blog: é um site de vídeos produzidos por um dos principais cineastas brasileiros. É caro? Creio que sim, mas também não poderia ser baratíssimo como alguns alegam. Afirmações bobas como "eu faço um blog de graça" não ajudam em nada na discussão.

O que precisamos analisar é o que tem aí de correto e de justo. Ok, está correto, mas é justo Bethânia dispor de todo esse dinheiro quando artistas menos conhecidos e influentes nada conseguem? Será que Bethânia não conseguiria patrocínios sem precisar recorrer às leis de incentivos fiscais? Muitas empresas fazem isso. Ao que parece, Bethânia está mal assessorada. Ela já foi bastante criticada tempos atrás por usar artifício semelhante. Acabou recuando. Agora, volta e tenta emplacar um projeto ainda mais polêmico. Se quem cuida da imagem dela fosse um pouco mais profissional, ia ver que uma condução desastrosa desse jeito colocaria Bethânia na berlinda. E também constataria que os estragos para a imagem da cantora custam bem mais que esse 1,3 milhão. Hoje em dia, qualquer polêmica vira fagulha na Internet e os nossos grandes artistas ficam a mercê da gozação e execração coletiva. Por sinal, bom esclarecer, adoro Bethânia. Mas nessa aí, ela pisou na bola.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O lamento do fim



Enquanto temos que ficar ouvindo baboseiras sem tamanho sobre a nova banda de Liam Gallagher (who cares?) e histeria só porque o Strokes lancou disco novo, algumas das bandas mais bacanas do planeta encerram as atividades. Primeiro foi a White Stripes, cuja música marcou um bom tempo da minha juventude. Amparada no talento genial de Jack White e trazendo uma baterista que mais fazia charminho que qualquer coisa, o White Stripes só lançou discos bons e fez shows marcantes no Brasil. Só tive oportunidade de ir a um, no Tim Festival de 2003. O consolo é que Jack White ainda está envolvido com dois ótimos projetos, o Racounters e o Dead Weather. Virtuoso e sujo na sua guitarra, já está na hora de Jack voltar ao Brasil. E não será surpreendente se ele montar um terceiro projeto para substituir o White Stripes. Workaholic por natureza, tem criatividade suficiente para administrar três projetos com propostas e sonoridades distintas.

Uma outra grande perda foi o encerramento das atividades do LCD Soundsystem. Anunciada desde que o terceiro disco foi lançado, ainda existia uma ponta de esperança que fosse apenas lorota de seu líder, James Murphy. Esperto, ele termina um projeto na auge da forma, provavelmente pensando em montar uma outra banda. Acaba o LCD sem resquícios de brigas, sem indício de perda de qualidade e com a certeza que deixará saudade em muitos fãs. Com seu rock encharcado de eletrônica, o LCD Soundsystem foi um dos grupos mais criativos dos anos 2000 e liderou um movimento que tem ainda outros expoentes como Hot Chip e Caribou. Para este que vos fala, ficou o privilégio de vê-los pela segunda vez ao vivo (a primeira foi no Skol Beats, em 2006), em São Paulo. Um dos últimos shows da banda, que agora faz uma temporada de despedida em Nova Iorque. Amparado por uma banda da melhor qualidade, James Murphy fez a platéia da Warehouse se balançar por todo o tempo, com uma música vibrante, performance matadora e repertório equilibrado - um greatest hits dos três discos. Com uma cara de nerd que tenta em vão esconder a sua genialidade como músico, James Murphy é a cara da música contemporânea. Só espero que não passe muito tempo nas suas merecidas férias.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A arte de servir bem



Eu já gostava muito de comer em restaurantes, mas a minha mudança para São Paulo só potencializou esse costume. Aqui não tenho a comidinha caseira da mamãe e a oferta é tentadora demais. Mantenho uma lista com dezenas de restaurantes a visitar, na realidade apenas um extrato de todos que queria conhecer. Afinal, é impossível visitarr tudo: primeiro porque é caro, segundo porque toda semana aparecem novidades. Isso fora o fato de que algumas ótimas casas não chegam à fama; só garimpando mesmo para descobrir. Parcimônia nesse caso é ótimo para o bolso e para o peso. Todo cuidado é pouco para não engordar e empobrecer nesse mundo de delícias.

Se aqui em São Paulo eu descobri alguns dos meus restaurantes favoritos, também tive algumas experiências maravilhosas no exterior. No topo da lista está o Peru, país com culinária cheia de personalidade e invariavelmente boa. Tem que pesquisar muito para comer mal em Lima. Portugal, Espanha, New Orleans... Comi bem em todos esses lugares e em muitos outros. Mas foi em um restaurante de Buenos Aires que tive uma das melhores experiências gastronômicas. Situado em um dos bairros mais turísticos da cidade, Puerto Madero, o restaurante Chila é um exemplo de programa completo. Serviço impecável, recheado de gentilezas; ótima comida; ambiente refinado, com bela vista; e preço justíssimo, quando comparado aos valores exagerados praticados em São Paulo. Não à toa, foi escolhido como o melhor restaurante argentino de 2008 e sua chef, Maria Soledad Nardelli, conquistou em 2010 o prêmio "Chef del Futuro", entregue em Paris.

O que faz do Chila um restaurante tão especial? Para começar, parece que você é atendido não por um garçom comum, mas sim por um dos donos da casa. A sensação é que fecharam o restaurante para você e o dono se dispõe a explicar detalhadamente tudo que você quer saber, dando 100% de atenção. A segurança, fluidez e simpatia dos atendentes parecem inspirados em um três estrelas do Michelin (não, nunca fui a um mega estrelado do Michelin, isso é tudo suposição). O tratamento é tão vip que todos os clientes recebem "brindes" especiais da chef. Na minha vez, recebi uma entrada, um espumante gentilmente oferecido para acompanhar as ostras que pedi como aperitivo e uma sobremesa. Isso fora a bandeja com vários chocolates espetaculares que vêm junto com o café. Tudo elaborado com esmero, assim como os pães feitos no próprio restaurante e os pratos muito bem apresentados e deliciosos. Comida contemporânea da melhor qualidade. E melhor: bem servido. Não estou falando de prato de peão, não me entendam mal, mas simplesmente não admito pagar caro e sair com fome. Isso para mim não é elegância, mas sim metidez ao extremo. Comer bem e ficar satisfeito, quer algo melhor? Outro ponto a favor do Chila é que os garçons têm opinião para tudo. Não se metem se não são chamados, mas aconselham os clientes com precisão se indagados. Está em dúvida entre dois pratos? O seu chef particular vai opinar com argumentos diretos, quase técnicos, que você interpreta de acordo com os seus desejos. Feito na medida para parecer exclusivo. Não tenho dúvida que na minha próxima ida a Buenos Aires, o Chila será parada obrigatória!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Casarão de memórias


Morar fora da cidade natal, faz com que a pessoa precise se desgarrar mais das coisas materiais e não deixar a melancolia bater. Sei que isso vale para todos, em maior ou menor intensidade, mas creio que morando longe de casa, soma-se a isso a sensação de impotência. Por todos os anos de minha infância e adolescência, Portão foi a minha referência de refúgio, de casa para curtir a família e de festas inesquecíveis. Sinônimo de lazer, junto com a Praia do Forte (que jé foi motivo de post por aqui). Agora o sítio (antes fazenda) está com os dias contados. Acabando o mês de março, não pertence mais a Família Bala. A quantidade exorbitante de condomínios que surgiram na região tiraram a paz de Portão, local que íamos para descansar ou para celebrar sem correr riscos. Virou cidade, acabou a privacidade e até mesmo a segurança. A modernidade chegou; não houve escolha. Assim vai embora uma das minhas últimas referências palpáveis da infância. Um dos últimos locais onde podia ir e lembrar de situações da minha mais tenra idade. Cada pequeno espaço daquela casa centenária é recordação de um momento. Ali cresci e aprendi a valorizar o que há de mais importante na vida: a família.

Casa agregadora, com nove grandes quartos, próxima de Salvador, Portão era a sede de uma fazenda que eu não conheci. Não há dúvida que marcou todos os Balas, além de muitos dos amigos que ali estiveram. Casa que viu muitos casamentos (de tios queridos, primos e meu irmão), minha formatura, despedidas e boas-vindas dos meus intercâmbios, inúmeros aniversários, festas de São João e uma festa aberta ao público que deixou marca na história de Salvador. Sem exagero. A Festinha em Quadrinhos durou uma década, reuniu até 2 mil pessoas por noite e ainda hoje é lembrada. Para mim, era ainda mais especial, pois lá chegava bem antes da festa oficial começar e só ia embora muitas horas depois, tendo o privilégio de dormir no casarão.

Mas morando em outra cidade, tenho mesmo é que me conformar. Afinal, nas minhas idas a Salvador, o tempo é curto e as idas a Portão se tornaram praticamente impraticáveis. Acabariam se tornando esporádicas, de qualquer modo. Porém seria bom saber que Portão está logo ali, não? Vão restar as lembranças boas. A saudade dos parentes que se foram e que aproveitaram longas temporadas no casarão; os lautos almoços precedidos por intermináveis tira-gostos e sucedidos pela soneca de muitos; os empilhados engradados de cerveja, que marcaram minha entrada no mundo etílico; as dormidas nos quartos das crianças; os longos banhos de piscina; a sala de televisão recheada de conversas e mais alguns cochilos. Fica tudo isso guardado na memória e registrado em inúmeras fotos que certamente verão algumas lágrimas caírem.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A errante Amy


Amy Winehouse passou como um furacão pelo Brasil. Um furacão de grau não tão destruidor na escala Ritcher, pois metade dos escândalos esperados não ocorreu. A garota inglesa fez todos os shows, atrasou pouco e não foi recolhida bêbada na sarjeta. Ávida por um tropeço mais sério da cantora, a imprensa brasileira acompanhou cada passo. No hotel, conseguiu imagens de Amy pagando peitinho, cambaleando na beira da piscina e notícias sobre um suposto quebra-quebra na suíte do Hotel Santa Tereza, além de uma briga com um fã que a importunava há dias na porta do seu retiro (Amy pouco saiu do hotel, sábia decisão para fugir de confusão). Show a show, até o último realizado no sábado passado, os jornalistas dos jornais e sites de notícias brasileiros mais criticaram do que elogiaram a moça. E as manchetes se repetiam: "Amy esqueçe as letras", "Amy cai no chão", "Amy sai do palco e deixa público apreensivo", e por aí vai.

Será que foi tão desastroso assim? Acompanhei a cobertura, em geral, pouco criativa da imprensa e vi vídeos de todos os shows pelo Brasil. Em São Paulo, estive lá, firme e forte, na frente do palco do Summer Soul Festival. Meu veredicto: se não foi genial, Amy Winehouse ainda assim superou minhas expectativas e mostrou que é de fato uma ótima cantora. Não é animada, não traz o dom de comandar um público de 30 mil pessoas e é nitidamente tímida e desajeitada. Mas tem uma linda e original voz, além de boa canções. Cantou por pouco mais de 1 hora e deu espaço para um dos vocalistas de apoio tomar a dianteira em duas músicas, dois assuntos que estavam no cerne de muitas críticas. Só esqueceram de pesquisar um pouco e perceber que os shows dela sempre tiveram esses dois artifícios, ninguém foi enganado. Se alguém queria ver um show de três horas, com pirotecnia e seguidos "I love you Brazil", deveria ter escolhido algum outro artista. Essa não foi - e arrisco, nunca será - uma caracterítica de Amy. Ela entregou o suficiente para uma noite de boa música, completada por duas outras boas atrações internacionais: Mayer Hawthorne e Janelle Monae. A experiência de vê-los ao vivo, é bem verdade, foi prejudicada por alguns fatores. Se fosse num teatro, certamente seria melhor aproveitado; se a produção prestasse, as pessoas não teriam problemas com bebida, estacionamento, telões e comida.

Após todos os problemas que Amy Winehouse teve, colocando em dúvida inclusive se ela ia sobreviver por muito tempo com comportamento tão autodestrutivo, não posso deixar de dizer que fiquei feliz em ver Amy tentando superar seus traumas. Ela já está bem melhor do que esteve e a tendência é que melhore gradativamente. O fato dos brasileiros terem tido a oportunidade de acompanhar a volta de uma artista que é uma das mais admiradas do mundo em primeira mão, é um privilégio. Triste mesmo é ver parte do público agindo como se tivessem num circo. Muitos queriam era vê-la caindo de bêbada, trocando as letras e abandonando o show no meio. Pouco preocupados com a música, observavam mesmo era cada gesto suspeito, vibrando a cada gole - seja lá o que Amy estivesse bebendo. Talvez esse público tenha ficado decepcionado ao vê-la feliz. Bom, da próxima vez, vão alimentar os macacos e deixe o show para quem gosta da boa música.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Prazeres de viajante



Quem lê esse blog com alguma assiduidade ou me conhece de outros Carnavais, sabe que entre as coisas que mais gosto estão a música e o cinema. Não à toa, trabalhei por quatro anos com cultura, entrevistando alguns dos meus ídolos, abrindo a cabeça para coisas diferentes, vendo filme e lendo livros com um olhar mais crítico. Tempos bons, mas que hoje equivalem mais a hobby que labuta. Mas se tem outra coisa que adoro fazer - e esse blog é testemunho disso - é viajar. Seja a trabalho ou a lazer, viajar é uma das coisas mais prazerosas que existem. Conhecer novos lugares, retornar a cidades e países que gostamos. Na minha vida profissional, tive a oportunidade de conhecer países bem diferentes, desde Cuba a Angola, passando pela Líbia, Peru, República Dominicana e muitos outros. Nos dois intercâmbios que fiz - o primeiro nos Estados Unidos e o segundo dividido entre Espanha e Portugal - pude mergulhar nessas culturas e viver como nativo em cidades bem distintas - Saint Joseph (Missouri), Santiago de Compostela e Coimbra. Cresci muito em cada uma dessas experiências e se fosse psicólogo receitaria esse artifício para qualquer crise: viaje, seja sozinho ou acompanhado.

Dentro dessa experiência completa que é viajar, duas questões que muitas vezes são os calcanhares de Aquiles de quem não gosta tanto de viajar, estão entre as minhas favoritas: avião e hotel. Adoro voar, me sinto completamente à vontade dentro de uma aeronave. Com ou sem turbulência (claro, das mais leves), aproveito o tempo teoricamente ocioso para fazer algumas das coisas que mais gosto: ler um bom livro, adiantar a pilha de revistas, ver um filme, escutar música e até mesmo dormir. Agradeço por não ter qualquer medo de avião, afinal viajar se tornou uma rotina no meu trabalho. Se tem uma parte ruim nessa história toda é aeroporto. Não é prazer chegar muito tempo antes, pegar longas filas, trocas de portão e atrasos. Pelo menos no Brasil, essa é a tônica.

Já o hotel é apontado como culpado por muitas pessoas que não gostam de dormir em lugares novos e que culpam a impessoalidade de um quarto pelo desprazer de visitar outras regiões. Para mim é justamente o contrário. Dormir em lugares diferentes pode trazer novas sensações e, como eu durmo bem em qualquer canto, uma noite em hotel pode ser bem prazerosa. Podem me chamar de louco, mas adoro a sensação de abrir a porta de um hotel e conhecer um novo quarto. Mexer em cada canto e descobrir pequenas bobagens que não agregam tanto a estadia, mas, bem, são novidades. Por isso, quando posso escolher, o hotel vira sim prioridade. Não acredito na teoria "só vou ao hotel para dormir e tomar banho", até porque dormir com prazer é parte imprescindível numa viagem. E por mais que se passe pouco tempo no hotel, cada minuto agrega positivamente (ou não, afinal nem sempre nos deparamos com a melhor estadia). Quem pode reclamar de uma boa cama, ar condicionado no ponto certo, banheiro confortável e serviço de quarto? Gosto de ser paparicado, ora pois.

Um outro ponto não é exclusivo de viagem, mas agrega bastante em cada uma delas: restaurantes. Um bom almoço ou jantar é também uma experiência completa, inclusive para desbravar uma cultura diferente. Só que em São Paulo isso também entra no meu hall de programas prediletos. Aliás, com a oferta que a Paulicéia oferece, tenho que manter listas e mais listas de restaurantes a visitar. Pena que o Brasil seja um dos países mais caros em termos de bons restaurantes. Por incrível que pareça, jantar em um excelente restaurante europeu sai mais em conta que nos tops de São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente. Sendo assim, em uma viagem, seja para uma praia vizinha, seja para a Argentina, a visita a um bom restaurante tem o seu lugar. Bon appétit e boa viagem!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Um ano de saudade


No dia 31, minha avó materna completa um ano de falecida. Deu um jeito de ir embora justamente no último dia do ano, quando todos os filhos e muitos dos netos estavam em Salvador. Até hoje não sai de minha cabeça uma das cenas mais tristes - porém de uma beleza indescritível - que presenciei: pelo menos uns 30 dos seus descendentes, ao seu redor, ouvindo seu último suspiro. Do jeito que ela queria, em casa, com a família unida. Fechou assim um ano triste em que dois dos seus genros já tinham ido embora.

Se a falta que ela faz é inestimável, não há como negar que viveu os seus 97 anos com intensidade única. Verdadeira matrona, quase uma Corleone de saias, minha avó sempre foi o eixo central de uma grande família - com 10 filhos, quase 30 netos e outro generoso punhado de bisnetos. São muitas as histórias protagonizados por ela, que carregava como marcas registradas a personalidade forte, a dedicação extrema aos seus entes queridos e o poder de hipnotizar todos a sua volta. Com voz forte até seus derradeiros anos, queria saber de tudo e de todos, vibrava com as conquistas e sabia dar as broncas necessárias.

Casou tarde e teve o primeiro filho apenas aos 27 anos, numa época em que com essa idade ficava-se era para a titia. E era solteira por escolha, costumava dizer que meu avô muito insistiu para que ela casasse. Com os primeiros dois filhos, uma garota e um garoto, deu por encerrada a conta, sem imaginar que outros oito viriam pela frente. O destino fez com que ela aceitasse a posição de líder de uma grande família, o seu verdadeiro dom.

Só uma coisa era capaz de tirar minha avó do sério. Uma história da juventude, que fugiu ao seu controle e era assunto tabu. Ela foi escolhida como a primeira Miss Bahia, em uma eleição que antigamente era feita pelo maior jornal da cidade, sem candidatura prévia. Sem saída, foi praticamente obrigada a aceitar o posto e ainda teve que desfilar em carro aberto no Rio de Janeiro, no concurso de Miss Brasil. A beleza se manteve até os seus últimos dias, assim como a má vontade em falar do assunto.

Guardo na memória felizes encontros de domingo em sua casa, quando os filhos e netos se reuniam para homenageá-la. Dia de muita conversa, comes e bebes, a confusão básica de uma família que sempre soube viver bem. Ao menor atraso de algum dos seus filhos, lá estava ela puxando a orelha. Os eventuais almoços nos dias de semana, com a sopa de massinha, a comida italiana e o sorvete caseiro para encerrar, deixam saudade. E as temporadas no sítio Portão, casarão antigo que muitas festas presenciou e que perdeu muito do sentido com a passagem de minha avó. Entre as muitas cenas em Portão, uma era clássica: ao pedir uma caipiroska para relaxar, tinha a sua bebida favorita intercedida pelas filhas, que pediam para colocarem um pouco menos de álcool. Não se dava por vencida, e devolvia a bebida dizendo: "Essa está muito inocente, façam o favor de me trazer outra!"

Nesse final de ano, minha avó já fez muita falta no Natal, quando seus netos - marmanjos ou não - se reuniam para cantar no clássico coral. Certamente, estava de olho na festa de onde quer que ela esteja. E feliz, por ver a família reunida, como ela sempre quis.

domingo, 5 de dezembro de 2010

"A Rede Social": pode apertar o botão "curtir"!


David Fincher é um dos meus diretores favoritos. "Seven - Os Sete Pecados Capitais", "O Clube da Luta", "Zodíaco", "O Curioso Caso de Benjamin Button"... Todos ótimos filmes que trazem a marca indiscutível do seu diretor. Difícil apontar um filme de Fincher que ao menos não mexa com seu público. O mais recente deles é "A Rede Social", que chegou aos cinemas brasileiros com status de favorito a várias indicações ao Oscar. Tendo a criação e trajetória do Facebook, rede social mais popular do planeta, como mote, o filme poderia ter usado recursos tecnológicos para contar a história. Mas não, preferiu se amparar na história incrível e na força de seus atores. Decisão acertada, pois é o drama humano que vale aqui. Fincher, muito esperto, optou por uma direção mais contida, sem os arroubos (justificados) de seus filmes anteriores. Mostrou que é de fato um ótimo diretor que sabe trabalhar a serviço do resultado final. E também provou que é um eficiente diretor de atores. Aqui, todos estão bem, desde o protagonista até o extenso elenco de apoio. Para completar, fez uso de uma eficiente e nervosa trilha sonora composta por Trent Reznor, homem por trás do rock industrial do Nine Inch Nails.

Se nao fez uso de truques tecnológicos, o filme pega emprestado algo que é essencial na linguagem da Internet: a rapidez dos diálogos, determinantes para o sucesso da história. É preciso concentração para não se perder nos diálogos cortantes, a maior parte deles - naturalmente - com participação do protagonista Mark Zuckenberg, dono do Facebook muito bem representado por Jesse Eisenberg (desde já apontado como escolha certa entre os indicados a melhor ator, no Oscar). Outro que manda muito bem é Andrew Garfield (futuro Homem-Aranha), que faz o brasileiro Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook que é passado para traz pelo "amigo". Também rápido nos diálogos, porém um degrau abaixo em qualidade na interpretação, aparece o rosto mais conhecido do elenco: Justin Timberlake. Na pele de Sean Parker, o cara que criou o Napster, ele tem papel primordial na história e é o personagem que mais traços de vilania carrega.

Ao sair do filme, entrei numa discussão sobre se o filme prejudica a imagem do Facebook. Creio que não, pois o site virou um sucesso por conta dos internautas que o abraçaram quase que instantaneamente, espalhando-o pelo mundo. E esses internautas não vão abandonar a rede social só porque ela foi construída por cima de passos imorais. Mas não há como negar que seu fundador sai com a imagem arranhada. Tomando decisões antiéticas e sempre com um rei na barriga, Mark pode não ser um vilão clássico, mas passa longe de ser o herói que poderia. Criador da mais bacana rede social que existe e bilionário mais jovem do mundo, ele mostra ser um fraco nos princípios mais básicos. Além de antiético, é vingativo, seco e desleal. Algumas das suas escolhas mais duvidosas poderiam ser justificadas pelos maus-bocados que sempre passou. Ok, nem tão maus assim, é bem verdade: ele é apenas um nerd, que mesmo genial, nunca foi completamente aceito e passou longe de ser popular. Um esquizóide que não tem jeito nenhum com as mulheres e tem poucos amigos. Um desses que num cenário mais trágico entra numa High School e mata vários colegas e professores. Mas ele é genial. Então decide canalizar suas frustrações em uma rede social inovadora. Mesmo que para isso tenha que passar por cima de tudo e de todos.

sábado, 20 de novembro de 2010

BBMP!*



Não posso me considerar o mais fanático dos torcedores, até porque no estado onde eu nasci, a concorrência é muito grande. Mas desde que me conheço por gente, acompanho assiduamente a trajetória do Esporte Clube Bahia, meu time do coração. O Esquadrão de Aço, um dos vários apelidos do Bahia, é uma verdadeira novela mexicana. Tudo é drama, sofrido, com eventuais explosões de alegria e algumas decepções. Estamos, ainda bem, em um momento de euforia, pois após sete anos, retornamos à Série A. Nunca na história, a torcida tricolor sofreu tanto: cinco anos de série B e mais dois vergonhosos anos na Série C maltrataram a mais fiel das torcidas brasileiras. Por isso que digo que não sou fanático. Como me comparar com os torcedores que mal ganham um salário mínimo e praticamente deixam de comer para assistir a todos os jogos do Bahia? Não é exagero, vide o exemplo do campeonato de 2007, na Série C, quando o Bahia teve média de público maior que TODOS os outros times, inclusive os da Série A e Série B. Como se não bastasse, esses fãs inseparáveis ainda tiveram que sofrer com a queda de um pedaço da arquibancada da Fonte Nova nesse mesmo ano, que resultou em mortes e no fechamento do estádio. Nada porém que abatesse completamente a torcida, que agora enche o Pituaçu em todas as rodadas. Não cabe espaço para quem quer e todos esperam ansiosamente pela reabertura da Arena Fonte Nova.

Lembro com carinho de alguns momentos incríveis que passei na Fonte Nova. Primeiro, com meu pai - também torcedor fiel - que primeiro me levou ao estádio. Naquela época, ver uma partida do Bahia era um programa familiar, a violência praticamente inexistia. Entre todos os jogos que vi nessa fase, um marcou pelo inusitado e não tanto pela importância do jogo. Foi um 10 a 0 (ou 10 a 1? Já não lembro) contra o Fliuminense de Feira. Na minha inocência de criança, fiquei embasbacado com a performance do time, desconsiderando a fraqueza do adversário. Com o tempo, passei a frequentar a Fonte Nova com os amigos do colégio. Foram diversos jogos memoráveis e muitos outros decepcionantes, no início da derrocada do Bahia. Um dos mais marcantes foi o 4 x 1 em cima do Flamengo, com três belos gols de Jajá. Corria o ano de 2000 e a torcida empolgada e como sempe exagerada, já vislumbrava o Bahia em Tóquio. Outro jogo inesquecível foi a final do Campeonato do Nordeste de 2001, contra o Sport. Os quase 70 mil pagantes viram o Tricolor meter 3 a 1 no rubro-negro pernambucano. A festa da torcida era tão bonita que um amigo do colégio, torcedor do Vitória que resolveu ir ao jogo só pela farra, não desgrudava os olhos da vizinha Bamor, a mais bonita torcida organizada do time. O chão balançava e a torcida não parava de gritar e cantar. Um momento que não sai da minha cabeça até hoje.

Menos tolerante do que os outros torcedores do Bahia, passei a ir bem menos ao estádio após a queda para a Segunda Divisão, em 2003. Menos ainda após o acidente da Fonte Nova, quando o time quase chegou ao fundo do poço. Não deixei de acompanhar os jogos, entretanto, pela televisão, rádio e internet. Desde que vim morar em São Paulo, assisti a um Bahia e Portuguesa no Canindé, reencontrado o Esquadrão de Aço. Impressionante ver a torcida do Bahia ainda maior que a da Portuguesa, jogando na casa do adversário. Afinal, o que não falta é torcedor do tricolor baiano na Paulicéia. E são esses torcedores que prometem compor um grande público no próximo sábado, dia 27/11, no Morumbi. Partida festiva contra o Bragantino, encerrando a boa campanha que coloca o Bahia novamente na elite do futebol brasileiro. Como o baiano gosta, terá direito a show musical, exclusivo para as caravanas de torcidas organizadas e torcedores saudosos que vivem em São Paulo. Festa digna de um campeonato mundial, típica do torcedor fanático que se contenta com uma mínima alegria. Para 2011, resta rezar e torcer para o Bahia enfim entrar nos eixos. A fiel torcida merece.

*BBMP é a sigla da singela expressão "Bora Bahêa Minha Porra", expressão mais baiana impossível, que antes já era usada, mas com a multiplicação das redes sociais, virou febre.

sábado, 6 de novembro de 2010

Uma continuação arrebatadora



Confesso que fiquei um tanto cético quando soube que Tropa de Elite teria uma continuação. Quando um filme já nasce como uma série, geralmente as continuações têm razão de existir. Quando elas são forjadas em cima do sucesso do primeiro filme, a chance de se tornarem bombas é grande. Um dos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos foi Matrix, que impressionou na primeira parte e só foi piorando nas duas seguintes. Tropa de Elite veio como um soco no estômago, apresentou um dos personagens mais fortes da cinematografia nacional - o Capitão Nascimento de Wagner Moura - e colocou o país inteiro em debate. A expectativa para a continuação era imensa, portanto. Confiando no discurso coerente do diretor José Padilha, comecei a imaginar que ao menos um filme à altura poderia sair dali. Qual não foi a minha surpresa quando constatei que Tropa de Elite 2 é na realidade superior ao seu antecessor. Corajoso e ousado, é um filme que convida à reflexão e prende do início ao fim.

A primeira sacada de Padilha foi tirar o Bope do centro das atenções. Um filme de pura ação mostrando a atuação dos caveiras seria a solução mais fácil em busca do sucesso, porém a mais preguiçosa também. Não que o Bope não tenha um papel importante nessa sequência, porém ele aparece como parte da narrativa e é desconstruído como apenas mais uma peça do complexo esquema de corrupção que toma conta do Rio de Janeiro. Padilha, entretanto, não é bobo nem nada e fortalece ainda mais o Capitão (agora Coronel) Nascimento. Uma escolha certeira, afinal má coisa não poderia vir do excelente Wagner Moura. Elaborar um Nascimento bem mais maduro, um tanto amargurado e cansado, porém não menos implacável, deu o gás que o filme precisava. Se na primeira parte, ele dividia as atenções com o aspira interpretado por André Ramiro, aqui ele reina com maior destaque. Não deixa de ter alguns antagonistas, o mais complexo deles interpretado pelo ótimo Irhandir Santos. Ele faz o Fraga, militante dos direitos dos presos e que começa a perceber como a engenhoca dos favorecimentos rola no Rio. O interessante é que Fraga não é um vilão, está mais perto de um herói errante, mas sempre se coloca no caminho de Nascimento - na vida profissional e pessoal.

Os grandes vilões dessa segunda parte não são os traficantes do Rio, mas sim as milícias que os substituem em muitas das favelas cariocas. A polícia corrupta e os políticos sem caráter se aproveitam da fragilidades dos que moram nesses rincões desfavorecidos e fazem a festa. Dinheiro fácil rola solto, currais eleitorais são formados e o banditismo muda de lado. Nascimento demora um pouco para perceber como funciona esse esquema, mas quando descobre o bicho pega. E o envolvimento direto de sua família na história o deixa ainda mais louco. Se os bordões da primeira parte não aparecem com vigor nessa continuação (ainda bem), o Tropa 2 deixa como herança uma série de cenas memoráveis como a luta de judô entre Nascimento e o filho, a saraivada de balas que o carro do Coronel recebe logo no início do filme, a surra que ele dá em um dos políticos mais asquerosos da história e um fortíssimo discurso despejado em pleno Congresso Nacional. O público, naturalmente, vem respondendo ao filme com cinemas cheios. Tropa de Elite 2 caminha para se tornar o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, alcançando a "Dona Flor e Seus Dois Maridos", que levou 10,2 milhões de pessoas às salas na década de 70. Já é o filme mais visto desde a Retomada, tomando o lugar do apenas engraçadinho "Se Eu Fosse Você 2". Um orgulho e tanto ver o cinema nacional em tão bons lençóis.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fragmentos de outros tempos


Um dia desses uma prima me disse que eu tenho uma alma velha. Não falou no mal sentido, ao contrário, deu um tom carinhoso à questão de que as coisas que mais gosto são de outros tempos que não o atual. Lembrei então que houve um período na minha adolescência que eu me angustiava por um tempo que não tinha vivido. Achava que teria sido melhor viver a flor da idade nos anos 70, chegando próximo dos 30 na década de 80. Obviamente, era só um surto bobo de teenager.

Não tenho a alma tão velha assim, pensando melhor. A questão é que uma parte relevante da minha personalidade é formada por fragmentos de décadas passadas. Ainda assim, eu também sou da era da informática, acho o fenômeno das mídias sociais algo genial e adoro as facilidades da vida moderna. No jornal onde trabalhei até três anos atrás, um amigo me chamava de "menino pop". Ou seja, a depender do ponto de vista, pareço ter nascido na era certa sim. Nesta faceta de alma velha está principalmente o lado musical. As bandas que mais gosto são da década de 60 e 70. E geralmente as bandas mais novas que mais me atraem emulam sons das antigas. Sempre curti cinema antigo e, mesmo que não seja exatamente disciplinado, tenho uma série de clássicos na lista para ver. Os restaurantes, bares e afins que adotam decoração dos anos 50, 60 ou até mesmo 70, me ganham de cara, na chegada. O glamour e a estética pop dessas décadas são incomparáveis. Por fim, não me envergonho de participar dos movimentos nostálgicos que são comuns atualmente. Claro, tudo com bom gosto.

Nesta história toda entra também a questão de que amadureci mais cedo. Não falo com um orgulho bobo, mas como uma constatação da minha maneira de ser. Acho que nunca fui um adolescente frívolo, posso ter até agido como tal, para me encaixar nas galeras, mas nunca quis ser isso. Sempre me irritou - como ainda me irrita - os adolescentes barulhentos, arruaçeiros e que fazem de tudo para chamar atenção. E não achem que eu era o garoto chato da turma, que sentava isolado na sala de aula. Sempre tive muitos amigos, que por vezes me achavam um pouco sério, mas que reconheciam em mim um bom companheiro. Nunca fui o mais popular, porém isso não me deixava mais ou menos feliz. E olhem que eu sempre fui um farrista de marca maior. A vontade de sair todos os dias só era aplacada pela necessidade de guardar dinheiro. Sou rueiro, como dizem por aí. Outro indício desse amadurecimento precoce influenciou diretamente na escolha da minha profissão. Desde muito novo, logo depois de aprender a ler, eu já me interessava por jornais. Estar por dentro de tudo era (e ainda é) uma marca da minha personalidade curiosa.

Sabem do que mais? Talvez essa história de ter uma pitada de nostalgia, carregando traços do passado com o que há de melhor no presente, é o que me faz mais feliz. Velho ou novo, sou o que sou. Cheio de dúvidas, porém seguindo em frente.

domingo, 17 de outubro de 2010

Os altos e baixos do SWU



Trazendo de volta a tradição dos grandes festivais, o SWU reuniu cerca de 150 mil pessoas nos três dias de evento. Participei dos últimos dois, perdendo os bons shows de Mutantes, Mars Volta e Rage Against the Machine. Precisei colocar em prática a difícil arte da escolha, afinal na sexta fui ao excelente show do Rush no Morumbi e nos dias posteriores ao SWU já estavam marcados Cranberries, Natura Us e Green Day. Não dá para querer tudo. Antes de partir para o que interessa - os shows - alguns comentários. Primeiro, mesmo o dono do festival, Eduardo Fischer, insistindo na história de que o SWu era mais que música, envolvia outros temas, no frigir dos ovos, só a música que importou mesmo, o resto foi balela. A segunda questão é que a dita sustentabilidade do festival passou ao largo. De boas intenções o mundo está cheio, mas o SWU pouco se diferenciou de outros eventos: muita energia consumida, muitos carros no estacionamento, estrutura menor do que a necessária para atender um público tão grande e muitas latinhas e garrafinhas espalhados pelo chão. Por fim, dentro do tema da desorganização, o SWU leva uma carta de confiança por ser o ano de estréia, mas precisa organizar o acesso ao evento (estacionamento longe, poeira que não acabava mais e filas homéricas para passar pela revista e entrega de ingressos), precisa disponibilizar maiores stands de comida (o aperto para pegar um simples sanduíche era grande), espalhar mais os banheiros (andar até eles era um sacrifício, por isso muitos faziam no primeiro matinho que encontravam) e repensar a idéia do camping (eu não fui lá, mas as histórias de sujeira, dificuldade de banho, escassez de comida e de água assustavam). Entretanto, nem tudo foi problema. O equilibrado line-up foi a primeira sacada do evento, seguido pelos palcos idênticos que se alternavam em intervalos curtíssimos de até oito minutos, pelos bons palcos alternativos (Oi Novo Som e Tenda Heineken) e pelo pouco transtorno para quem estava chegando de carro - e quase não pegou os temidos congestionamentos.

Enfim, problemas que podem ser resolvidos, originando um festival ainda melhor em 2011. Mas vamos à música. No (meu) primeiro dia do evento, as expectativas estavam todas voltadas para o Kings of Leon. Uma das minhas bandas favoritas dos anos 2000, prometiam fechar a noite em grande estilo. Antes deles, atrações mais sossegadas, no dia de fato mais tranquilo do SWU. A primeira que vi foi Regina Spektor. A russa - que reclamou do frio de 10 graus e da sensação térmica ainda menor - fez um bom show, prejudicado em parte pelo tamanho do festival. Com uma sonoridade intimista, grande talento no piano e voz original, Regina Spektor fez o possível, mas a verdade é que passou um pouco desapercebida. Ficou claro que o show dela em um lugar fechado e menor ia ser arrasador. Em seguida, Joss Stone trouxe uma ótima banda e teve o público nas mãos. Bem bonita e simpática, a garota investiu no vozeirão e fez a festa dos fãs. Admiro o trabalho da cantora inglesa, mas não me considero um fã de fato, então curti o show com alguma curiosidade. Hora do Dave Matthews Band, preterido em prol de uma voltinha pela fazenda Maeda. Já vi o americano no Rock in Rio 3 e não sou lá grande fã de sua música. Mas ao retornar, ainda peguei três músicas, culminando com um cover de "All Along the Watchtower". Um leve arrependimento surgiu, pois a azeitada banda dá um upgrade danado ao insosso Dave Matthews. Nesse pequeno intervalo que tirei dos palcos principais, conferi o excelente DJ Roger Sanchez. na tenda Heineken pegando fogo. Era a hora então do Kings of Leon. Curti o show? Curti. Adorei? Longe disso. Ao vivo, a banda se mostrou um tanto quanto preguiçosa e fez um show apenas correto. O palco, com grandes holofotes ao fundo e um telão que movia de acordo com as luzes, deu um clima bacana, mas o pouco empenho dos reis de Leon e o som baixo tirou um pouco do impacto. Apenas bom.

E assim chega o dia 11, último dia do evento e o mais esperado. É bem verdade que fui mesmo ver Queens of the Stone Age e Pixies, o restante era apenas complemento. Na confusão da entrada, acabei perdendo o Yo La Tengo, já chegando no início de Cavalera Conspiracy. Já vi dois bons shows do Sepultura, mas dessa vez preferi acompanhar apenas de longe. Para os fãs, deve ter sido ótimo ver Max e Iggor Cavalera juntos. Para mim, indiferente. Ao final, ao invés de ver o engodo Avenged Sevenfold, fui conferir a performance do mesmo Iggor cavalera e esposa no duo Mixhell. Música eletrônica com alguns momentos de bateria live. Certamente um dos momentos mais interessantes da Tenda Heineken. Antecedido por um show ok do Incubus, o Queens of The Stone Age subiu ao palco com quase 1 hora de atraso. Primeira falha da impecável alternância de palcos, provocada por problemas no som. Quando Josh Homme e cia subiram no palco, todo o atraso pareceu insignificante. Porrada sucedida de porrada, o QOTSA fez o melhor show do SWU. Som no talo, repertório com os melhores hits e performance matadora dos instrumentistas - com destaque para o assustador baterista. Um excelente show, que infelizmente durou pouco mais de uma hora. Dando sequência a melhor dobradinha dos últimos tempos, o Pixies teve a difícil tarefa de superar o QOTSA. Um pouco menos empolgados que em Curitiba, seis anos atrás, Frank Black, Kim Deal, Joey Santiago e David Lovering tocaram praticamente todo o "Dollitle", salpicando sucessos dos outros discos. No bis, um final digno de nota, com "Where's My Mind" e "Gigantic". Um ótimo show, porém não espetacular como prometia. Na memória, perde para o ineditismo e empolgação do anterior Curitiba Pop Festival. Depois desta dobradinha, restava apenas o cansaço forte, que provocou uma saída prematura do festival. Não foi desta vez que Linkin Park e Tiesto entraram no meu currículo. Algo me dizia quer era melhor guardar na mente a dobradinha inesquecível do Queens of The Stone Age e Pixies... Creio que eu estava certo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Mais uma rodada do Pixies


Quando o Pixies subiu ao palco da belíssima Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, parecia a realização de um sonho. Corria o ano de 2004 e poucos meses tinham passado desde que o grupo liderado por Frank Black retornou à ativa de forma surpreendente. Mais impressionante foi a vinda a jato para Brasil, para a improvável Curitiba. Numa noite fria, porém com céu limpo, vi uma das bandas mais interessantes do mundo, com uma empolgação indescritível. O som cru, que praticamente criou as bases do indie rock, as letras fortes (que tratam de assuntos como incesto e mutilação com naturalidade notável) e a simbiose do jeito rude de Black com a delicadeza da baixista Kim Deal colocaram o Pixies na lista dos grupos mais influentes do rock. E ali eles mostraram que estavam de volta com toda a força.

Explico essa minha animação: as duas bandas que mais admirava na música (e que permanecem até hoje como favoritas) já não existiam quando meu interesse floresceu. Em primeiro lugar, o Led Zeppelin, que acabou em 1980, quando morreu o baterista John Bonham. Cético que fico com uma volta, já ensaiada algumas vezes com o filho de Bonham (Jason), nas baquetas, eu ficaria satisfeito em ver Robert Plant e Jimmy Page juntos. Mas essa turnê, que passou pelo Brasil em 1996, provavelmente não ocorrerá novamente.

Portanto, quando Frank Black e Kim Deal colocaram um ponto final na briga e convocaram o guitarrista Joey Santiago e o baterista David Lovering para a reuniao do Pixies, meus olhos não acreditavam no que estava acontecendo. Eu poderia testemunhar a minha segunda banda favorita, a medalha de prata, o Pixies ao vivo no Brasil. Com envergonhadas lágrimas nos olhos, conferi um repertório perfeito, distribuído em uma hora e meia de apresentação. O Pixies praticamente vomitou 29 canções, sem grandes intervalos e conversas com a platéia, num exemplo de show intenso e impactante. Clássicos como "Hey", "Where's My Mind", "Here Comes Your Man" e "Monkey is Gone to Heaven" marcaram presença.

Não é com menos expectativa que aguardo o segundo show do Pixies no país, no dia 11 de outubro, no festival SWU. Em cenário que também promete beleza natural, na Fazenda Maeda da interiorana Itu (SP), o Pixies traz o show do disco "Doolitle", maior sucesso e (na minha opinião) melhor disco deles. Será uma apresentação de apenas 1 hora, por conta do formato do SWU, mas sucedido por uma apresentação do espetacular Queens of The Stone Age. Desde já promessa da melhor dobradinha que vi na minha história musical. Aguardemos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dez anos depois


Vem aí o Rock in Rio 4, com edição prometida para setembro de 2011, em uma nova Cidade do Rock. Chega dez anos depois da terceira versão do festival, que trouxe bons nomes para o Brasil no verão de 2001. Desde então, o festival criado por Roberto Medina passou por Lisboa e Madri, deixando seu país natal de lado. O dinheiro é do empresário, claro, e ele investe como quer, mas utilizar o nome "Rock in Rio" no exterior sempre me pareceu no mínimo esquizofrênico. Agora, pegando carona na moda Brasil, com Copa do Mundo e Olimpíadas chegando, ele resolve reviver o festival na cidade que lhe deu fama. Mas será que ainda precisamos do Rock in Rio?

Bom, a enxurrada de shows internacionais este ano é uma amostra de que o Rock in Rio não é mais essencial como antes. Se em 2001, Brasil ainda não era destino certo para muitos artistas, em 2010, a história é outra. Além dos festivais - como SWU, Planeta Terra, Natura About Us - diversos artistas vieram para shows solo, transformando a dúvida cruel de "quando será que eles vêm?" para "será que terei dinheiro para ver tantos shows?".

Não há como negar, entretanto, que o Rock in Rio apresentou alguns dos shows antológicos da nossa história, como Queen e AC/DC na primeira edição de 1985, Guns N´Roses e Prince na segunda de 1991, e Neil Young e R.E.M em 2001. Nesta derradeira edição, o Rock in Rio 3, eu estava presente e lembro como se fosse hoje da emoção de participar de uma festa daquela extensão, com 250 mil pessoas juntas pela música. Até hoje me impressiono com o tamanho daquele Rock in Rio, ainda mais quando comparo com o tamanho dos eventos hoje. Fui a cinco dos sete dias, ficando de fora apenas do dia teen (Britney Spears e cia) e da abertura pouco atraente (Sting, James Taylor etc). A organização do evento (que foi o meu primeiro de grande porte) e os bons shows de Foo Figthers, Oasis, Silverchair, Guns N´Roses Iron Maiden, além dos citados R.E.M. e Neil Young, me marcaram e fizeram minha paixão pela música aumentar. É claro que houve também decepções, como o morno show de Red Hot Chili Peppers, mas no geral o resultado foi bem positivo.

Espera-se que o novo Rock in Rio faça valer essa história anterior de sucesso. Que coloque no palco velhas cobras do rock com revelações e que espalhe nomes consagrados em todos os seus dias. O receio é que a organização se perca nas escolhas, como ocorreu em algumas das edições européias do festival, misturando alhos e bugalhos. Levando em consideração os anúncios recentes - dois dias para pop, uma dia para o reggae e mais uma volta do Guns N´Roses - os riscos são grandes. Afinal, por que diabos um festival que carrega rock no nome vai dedicar um dia completo ao reggae? Decisão esquisita, mas não surpreendente frente ao já citado uso do "in Rio" para um evento realizado em Portugal e na Espanha...

sábado, 7 de agosto de 2010

No mundo dos sonhos


Quem nunca mergulhou num sonho e teve a nítida impressão que tudo aquilo é real? Por que lembramos de alguns sonhos nos mínimos detalhes e outros passam desapercebidos? É bem verdade que algumas pessoas têm a capacidade de lembrar de até três sonhos por noite e eu os invejo tremendamente. Já pensei, inclusive, em deixar um bloquinho ao lado da cama, quem sabe não tenho um sonho genial, um mote para um romance policial, por exemplo? Dizem que se não anotamos imediatamente, as lembranças escapam gradativamente. Ainda assim, todo mundo tem um sonho que nunca sai da cabeça, por que este é assim tão especial?

Um universo tão rico como esse já inspirou um grande número de filmes, o mais recente deles "A Origem", do sempre competente Cristopher Nolan. Depois de dirigir com precisão os dois filmes mais recentes de Batman, Nolan embarcou numa proposta ousada que vem dando o que falar. Com um excelente elenco formado por Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy e Michael Caine, "A Origem" é um daqueles filmes que lhe deixa grudado na cadeira e cuja longa duração (2h30) nao é nem percebida.

No filme, DiCaprio faz um ladrão pouco convencional, que entra nos sonhos dos outros para roubar fortunas. Ele trabalha numa empresa pouco ética e durante um dos seus trabalhos, acaba topando com um desafio diferente: ele precisa fazer uma inserção (inception, do mais adequado título original), ou seja, plantar uma idéia na cabeça do herdeiro de uma grande fortuna.

Daí em diante, o filme, que é recheado de belas imagens, vai revelando muitos dos seus segredos e entra num ritmo frenético. Ainda que pareça surrupiar algumas idéias do revolucionario "Matrix" e não trate o sonho como uma esquisitice aos moldes do genial David Lynch, Nolan consegue um resultado excepcional. "A Origem" é um daqueles filmes que ficam na cabeça e que merece ser visto e revisto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A abominável Pista VIP



Isso só pode ser idéia de algum capitalista elitista... Inventaram um troço chamado Pista VIP, que até pouco tempo atrás só dava as caras em alguns eventos específicos, mas agora resolveu se espalhar por praticamente todos os shows. Não importa, seja numa casa relativamente pequena como a Via Funchal, seja num espaço maior como o Morumbi, sempre há um naco de chão para os mais abastados. Com o absurdo que hoje é cobrado por cada show - o que coloca o Brasil no topo entre os países que mais cobram no mundo por uma boa apresentação musical - a tal área VIP custa muita grana, coisa que devemos pagar somente para ver a nossa banda favorita. Pois bem, como a maior parte dos fãs do rock não tem dindin para ficar na frente do palco, eles têm que se contentar em assistir à distância. E nem adianta virar a noite na porta, se seu ingresso for da pista comum, isso só lhe dará alguns poucos metros à frente da ralé. Quer um exemplo? É só olhar a ilustração deste post, que identifica a grande área VIP Premium do SWU, festival que acontece em outubro, em Itu (SP). Absurdo.

Situações como essa leva a cenas vexaminosas. Em muitos shows, é possível enxergar um clarão na frente do palco e um amontoado de gente atrás de uma segregadora grade. Afinal, pelo preço que se paga, nem sempre dá para encher a área do povo importante. Lembro de uma situação um tanto quanto diferente, mas que acabou se tornando exemplar pela atitude do público. Aconteceu em 2004, no Curitiba Pop Festival, evento que trouxe o Pixies pela primeira vez ao Brasil. Na ocasião, o festival estava marcado para a bela Ópera do Arame. A procura de ingressos foi tão grande que os organizadores resolveram mudar para a Pedreira, logo ao lado, com muito mais espaço. Para compensar aqueles que compraram ingresso para um espaço bem mais aconchegante, resolveram dizer que os ingressos da Ópera do Arame davam direito a uma área VIP na frente do palco da Pedreira. Os retardatários que só conseguiram entradas quando o evento aumentou de tamanho, teriam que ficar na pista comum. Isso com todo mundo pagando igual. Bom, logo no primeiro dia, quando tocou o Teenage Funclub, já trataram de derrubar a grade que separava uma pista da outra. Aos gritos de "fim do apartheid" que gritava o cantor de uma banda de punk que não me lembro o nome, o público tirou aquela divisão sem sentido do caminho. Não houve qualquer resistência.

O que ocorreu em Curitiba provavelmente não se repetirá em nenhum dos shows que infestam o segundo semestre no Brasil, afinal quem pagou muito mais não aceitará pacificamente uma invasão da sua área VIP. Resta torcer para que os organizadores escutem as reclamações e acabem com esse artifício pouco democrático. Afinal, a frente do palco é dos fãs mais ardorosos e não dos mais abastados!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O vazio da Copa que se foi



O fim da Copa do Mundo dá um vazio danado. Ainda mais em casos graves como o meu, que torço para o Bahia e não vejo cheiro de título há anos. Ver meu time do coração passando por percalços na Segunda Divisão é demais para um amante do bom futebol. Então quando acaba essa maratona de grandes jogos em um curto mês, os quatro anos de espera para a batalha seguinte parecem eternos. Uns vão dizer que em dois anos já tem Olimpíadas, mas não tem jeito, não dá para comparar.

Copa do Mundo é uma das festas mais bonitas e absorventes que existem, difícil não mergulhar com tudo no universo futebolístico. No Brasil então, a coisa fica mais difícil, e até um jogo entre Eslovênia e Argélia reúne curiosos ao redor da tevê. Imagine em 2014, quando o torneio (aparentemente) acontecerá no Brasil. Aliás, esse será um dos motivos para que os tais quatro anos de jejum passem ainda mais devagar. A ansiedade é maior e o Brasil não participará das Eliminatórias, imaginem só que angústia? Até lá, vamos nos cansar de tantas notícias sobre os problemas do Comitê Organizador e teremos que ficar bem atentos à venda de ingressos. O temor de não conseguir ingressos para os jogos do Brasil em 2014 vai perseguir a muitos.

Desta Copa sul-africana que passou fica a decepção com o futebol apático dos comandados de Dunga, que perdeu para um time apenas razoável, a Holanda, e só teve pequenos lampejos de genialidade (especialmente no jogo contra o Chile). Numa Copa em que somente Alemanha e Espanha tiveram vários momentos de fato inspirados, ficou registrado também o paradoxo da Laranja Mecânica. No ano em que a Holanda enfim retornou às finais, depois de dois vices em 1974 e 1978, sua Seleção conseguiu a proeza de cair em desprestígio em todo o mundo. Longe de encantar, ficou marcada pela violência, catimba e pragmatismo. Anos-luz da equipe liderada por Johan Cruyff na década de 70, esse time da Holanda também se mostrou bem inferior àquele da geração de Gullit, Rijkaard e Van Basten, que jogou nos anos 90, mas nada levou. Na África do Sul, a Holanda colocou-se no segundo lugar do pódio, mas sem dar exemplo.

Pois então, já se foram as vuvuzelas e as jabulanis, não adianta lamentar. Agora é torcer para que o Brasil não faça feio, frente ao bom trabalho feito pelos sul-africanos, e aproveite a Copa do Mundo para arrumar essa bagunça em que nós vivemos. O país precisa de infraestrutura e as duas competições esportivas que estão por vir (somando aí as Olimpíadas) são boas desculpas para ajeitar as principais capitais do país. Temos que torcer - com dedos bem cruzados - para que o Comitê Organizador de 2014 preze pelo bom gosto e não transforme tudo em um verdadeiro folclore tupiniquim. Nós não precisamos de mais estereótipos...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O encanto catalão



Barcelona tem uma aura especial. É difícil de explicar, mas de todas as cidades da Espanha que conheci, ela é a mais mágica e encantadora. Tive a oportunidade de retornar na semana passada, para uma curta viagem de dois dias e tive uma nova degustação da cidade catalã. A vontade de ficar era grande, mas não há como ficar longe do Brasil nesse clima de Copa do Mundo. Ver Brasil e Portugal em terras estrangeiras não me soava muito bem. Vai que dá azar...

O que mais impressiona em Barcelona é a sua inusitada arquitetura. Para além dos prédios antigos e imponentes que também dominam as suas ruas, sãs as obras únicas, para não dizer bizarras, de Gaudí, que realmente fascinam. A começar pela Sagrada Família, templo católico dos mais misteriosos, ainda inacabado, símbolo gótico de Barcelona. Talvez seja esse equilíbrio do gótico – que tem um bairro que leva seu nome – com a alegria que transborda nas suas ruas, que faz a cidade ser tão especial. A animada e movimentada Rambla, o renovado Porto Olímpico (exemplo vivo de como uma competição esportiva pode beneficiar uma cidade – fica de olho, Rio de Janeiro!), o belíssimo Parc Güell, as coloridas fontes de Montjuïc são alguns dos destaques da cidade. Lá também é a casa de um dos times de futebol mais simpáticos do mundo, o Barcelona, onde muitos brasileiros fizeram (e fazem) história. Entre os grandes destinos turísticos da Europa, Barcelona tem um quê especial por também ser uma cidade costeira, oferecendo uma praia que é bem freqüentada por turistas e moradores.

A comida mediterrânea, com destaque para a inconfundível paella acompanhada pelos bons vinhos espanhóis, completam o prazer de uma viagem a Barcelona. O esquisito catalão, falado nas ruas com alguma frequência é outro charme inconfudível da cidade. E não há o que se preocupar, afinal o cidadão de Barcelona é simpático e responde em espanhol se assim for solicitado. Na posição de cidade mais animada da Espanha - e possivelmente uma das mais animadas do mundo -, Barcelona oferece diversas opções noturnas para os jovens. Mas é uma cidade completa para pessoas das mais diferentes idades, é bom dizer. Se coloca provavelmente como carro-chefe da Espanha que, na minha opinião, é o país europeu com mais opções para o turista. Ok, Londres e Paris são insuperáveis, mas como país, a Espanha oferece uma diversidade ímpar. O sul com Sevilla, Córdoba e Málaga; o norte com Bilbao, San Sebastian e Santander; a região de Madrid com Toledo, Segóvia e Ávila; a Galícia com Santiago de Compostela e La Coruña; Valência nas proximidades de Barcelona, e por aí vai. Cidades e regiões muito distintas dentro de um mesmo país, que é hospitaleiro e culturalmente rico.

sábado, 5 de junho de 2010

Buscas incessantes



Alguns filmes têm o poder de lhe paralisar por alguns minutos pós-projeção. Levam à reflexão e certamente cumprem seu papel de passar uma mensagem. Aconteceu comigo em filmes como "Cidade dos Sonhos", "Dançando no Escuro" e "Central do Brasil" - só para ficar em exemplos bem diversificados. Alguns deles deixam um ponto de interrogação e uma pertubação característica, como é o caso de "Cidade dos Sonhos", não por acaso uma obra de David Lynch; outros batem forte e revoltam, deixando um tremendo vazio, como "Dançando no Escuro", que apresenta uma performance incômoda de uma surpreendente Björk; por fim há aqueles que emocionam, mesmo trazendo uma mensagem simples e de fácil absorção, aqui representado pelo brasileiro "Central da Brasil" e seu choro sincero de uma Fernanda Montenegro estupenda.

Recentemente aconteceu com um filme dos nossos hermanos, "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella. Se no outro filme do cineasta portenho que vi, "O Filho da Noiva", ele já dava indicações do bom diretor que era, nesse ele vai um passo além. Com o mesmo (e novamente excelente) Ricardo Darín como seu protagonista, Campanella entrega um filme em que olhares, sinais e outros pequenos detalhes fazem a diferença. Tudo salpicado em um interessante roteiro que versa essencialmente sobre a busca, em diversas facetas. A busca obcecada do protagonista Benjamín Espósito (Darín) pelo assassino de uma jovem, casada com o dedicado Ricardo Morales (Pablo Rago), que atravessa anos. Um crime aparentemente solucionado, porém com arestas que se mantém soltas por mais de 20 anos. Mesmo tempo em que outra busca de Benjamín perdura, a do amor por Irene Hastings (Soledad Villamil), sua então chefe quando o crime ocorreu e quando eles eram responsáveis por solucioná-lo. Um amor nítido durante todo o tempo da projeção, mas que não é explicitado por Benjamín em nenhum momento. Duas buscas que consomem a vida de uma pessoa, interligadas e incompletas até praticamente o fim desta obra, certamente merecedora da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2010.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Uma relação de amor e ódio


Os norte-americanos são os reis da eficiência, nisso muitos concordam. Afinal aqueles que popularizaram o sistema do fast-food e os grande espetáculos de entretenimento não precisam provar muito. E eficiencia é sempre bom, não é mesmo? Mesmo se tratando por vezes de enlatados não tão geniais. Entendo perfeitamente aqueles que criticam o american way of life. Eu mesmo sou um desses críticos e posso dar minha opinião sem medo de ser leviano, pois vivi um ano em Missouri, estado mais ou menos no centro dos Estados Unidos. É uma região que abriga o americano típico. Não é o ianque moderninho de New York, o descolado da Califórnia, o latino de Miami ou o executivo eficiente de Chicago e Detroit. Estou falando do americano médio de uma pequena cidade chamada Saint Joseph, com apenas 80 mil habitantes. Aquele que tem um quê de red neck, conhece pouquíssimo para além das fronteiras da sua cidade e pode ser infantil como poucos. Estudei em uma high school e sempre me perguntava de onde saiam os americanos geniais, porque daquela escola certamente não era. Naturalmente, eles não faziam idéia de onde era o Brasil, não conseguiam entender o porquê de se estudar a história de outros países e não ansiavam visitar outro local que não fosse um outro estado norte-americano. Quem sabe no máximo Canadá ou alguma praia no Caribe, isso para os mais informados. Eles pouco entendiam da sua própria história, não à toa, eu e mais outro gringo (alemão) éramos os melhores alunos de Inglês e de História Americana. Believe it or not...

Pois bem, viver um ano neste ambiente foi deveras interessante e divertido. Mesmo que a eventual ignorância de alguns me irritasse, foi lá que aprendi o significado da palavra eficiência. As coisas de fato funcionavam, a qualidade de vida era nítida para praticamente todos e a valorização ao esporte era impressionante. E por mais que muitas coisas da cultura norte-americana me irrite, como o falso moralismo, o culto a personalidades duvidosas e as brincadeiras/farras abobalhadas, não posso negar que algumas das coisas que mais adoro vêm de lá.

A começar pela música. Rock, jazz, blues - todos nasceram lá. É nos Estados Unidos - e na Grã Bretanha, é bom ressaltar - que estão os meeus artistas favoritos. Os mega-concertos e shows em estádio também vieram de lá; e por mais que um show num local pequeno seja excepecional, grandes espetáculos têm lugar reservado entre as minhas preferências. Em seguida, vem o cinema. Por mais que a classificação "filme hollywoodiano" tenha hoje uma conotação não tão boa, ninguém faz filmes como eles. Não sou fã de boa parte dos blockbusters ianques, mas uma nação que nos deu Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Woody Allen, Quentin Tarantino, entre dezenas de outros, tem sim o melhor cinema do mundo. Para fechar a trilogia do que há de melhor nos States, volto ao já citado fast food. Ok, não faz bem pra saúde e não leva os ingredientes mais refinados. Mas é bom, ah se é. Mc Donald's, Burguer King, Taco Bell's, Wendy's, Hardees'... difícil resistir. Prefiro parar por aqui, mas poderia entrar na seara da tecnologia, computadores, Internet, quadrinhos, basquete... Não tenho porque esconder. Mesmo com um pé atrás, amo muito tudo isso.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Híbridos musicais



Existem determinados estilos musicais que não me agradam tanto. O principal deles é o rap. Respeito, não odeio como odeio o pagode e o funk carioca, mas simplesmente não tenho afinidade com a cultura hip hop. Entretanto, quando misturado com outros estilos, a coisa muda de figura. Os exemplos são os mais diversos, cito rapidamente a mescla com a música latina (os cubanos do Orishas) e com o reggae (Damien Marley, o mais interessante dos filhos de Bob).

No caso da música eletronica, as misturas são ainda mais comuns e bacanas. Vale ressaltar que gosto bem mais da e-music que do rap, mas não posso me considerar um autêntico clubber. Olhando em retrospectiva, porém, vejo que hoje conheço e admiro um número bem maior de DJs e tenho meus clubes favoritos. Coisa que não tinha quando morava em Salvador - onde a cena se concentra em guetos e se espalha por algumas poucas raves e festas temáticas.

Entre os estilos derivados de flertes da música eletronica, o trip hop é um dos mais interessantes, especialmente os expoentes Portishead e Massive Attack. Há outros grandes de primeira linha em estilos diversos, como Groove Armada, Daft Punk, Chemical Brothers e Prodigy - alguns deles bem mais eletrônicos e outros mais chegados ao rock. Das bandas mais recentes, destaco o Rapture e, principalmente, o LCD Soundsystem. Esse último, projeto do genial James Murphy, é o que existe de melhor entre os híbridos "e-music-rock".

Descobri na semana passada, entretanto, que quem melhor equilibra os dois estilos é o veterano Moby. Sempre gostei dele, especialmente quando o americano passou a abraçar o seu lado mais roqueiro. Atualmente, Moby é mais produtor e showman que DJ, vocalista ou instrumentista. No show realizado na ultima sexta-feira para um Credicard Hall lotado, ele deu uma aula de como elaborar um bom espetáculo. Provavelmente, foi o show que mais superou minhas expectativas; duas horas de equilíbrio ideal entre o rock e a e-music.

Dançante até o talo, o repertório trouxe pouquíssimas músicas novas e fez um salutar passeio pelos grandes sucessos da carreira de Moby. Adaptando todos os seus hits para serem executados por uma excelente banda - com destaque para a violinista e o baterista - Moby age como um maestro, alternando os papéis de vocalista, guitarrista e percussionista. Quem também dá um show e tanto é uma jovem cantora jamaicana que o acompanha. Se em turnês recentes, a loira Laura Dawn já se destacava, nesta a nova vocalista dá um banho. Com potência e arroubos vocais notáveis, ela impressiona desde a primeira intervenção. Se em alguns momentos, ela parece roubar a cena, logo lembramos que é Moby quem tem o controle da apresentação. Seguro de si, ele parece melhorar a cada turnê.