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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cinemania



Voltei ao cinema e não há melhor momento para fazer isso do que nas vésperas do Oscar. O prêmio da Academia pode não ter o mesmo glamour e qualidade de festivais como Cannes, Berlim e Veneza, porém é inegável que ainda consegue reunir alguns dos melhores filmes do ano. Quero ver todos e a agonia da impossibilidade de isso ocorrer na velocidade que quero, dá a eterna sensação de incompletude. Mesmo sabendo que as piadinhas vão me cansar e que no dia seguinte estarei com um sono danado, quero assistir à cerimônia do Oscar torcendo para os meus favoritos e não para aqueles que os críticos escolhem. Para cumprir essa tarefa, preciso comparecer ao cinema religiosamente.

Lá pelos idos de 2002, curti 10 dias dos sonhos. Trabalhava no portal iBahia.com, escrevendo sobre cultura. Eis que acontece o Panorama Coisa de Cinema, então a maior mostra de filmes de Salvador. Fui escalado para cobrir o evento, para minha felicidade. Três filmes por dia, entrando e saindo de salas de cinema, com um sorriso sempre estampado no rosto. Deveria escrever alguns parágrafos sobre cada um daqueles filmes e as idéias se multiplicavam na minha cabeça. Na escuridão da sala, rabiscava em um pedaço de papel garranchos que marcavam minhas impressões sobre os filmes. O medo de esquecer aquela frase dita com tanto vigor pelo protagonista era mais forte do que o relaxamento em usufruir a experiência cinematográfica. A cada filme, naturalmente, ia ficando melhor em guardar as sensações mais importantes na memória, sem grandes angústias.

Hoje vejo filmes somente por lazer, mas tenho vontade de escrever sobre cada um deles. Talvez não tenha mais a fluidez de outrora, possivelmente me desatualizei no ano que menos fui ao cinema, o ano passado. Porém já entrei em 2012 disposto a mudar isso. Três passos importantíssimos garantem a minha atualização frequente. O primeiro foi a mudança de casa, que me colocou ao lado de um bom shopping com ótimo cinema, o Unibanco do Bourbon. O segundo foi a compra de um aparelho de blu-ray com home theater, que me incentiva a querer ver um filme a toda noite. O terceiro, na verdade dois passos em um só, foi a assinatura do Netmovies, com entrega em casa, e o pacote de filmes que a Net HD deixa à minha disposição. O cardápio é extenso e está pronto para ser degustado, promovendo o meu reencontro com a Sétima Arte.

sábado, 4 de junho de 2011

A volta dos mutantes



Não há história em quadrinhos (de super-herói) com a profundidade do X-Men. Quando se imaginava que a série estava desgastada no cinema, após um terceiro filme inferior e um pouco elogiado capÍtulo dedicado a Wolverine, o estúdio Fox reinventou a saga em grande estilo. Para isso, convocou o diretor dos dois primeiros e excelentes X-Men, Bryan Singer, para colaborar com o roteiro. E contratou o não tão experiente diretor Matthew Vaughn para dar frescor a um filme que narra como surgiu o grupo dos mutantes, "X-Men: Primeira Classe".

E tudo funciona perfeitamente bem, perigando ser esse o melhor exemplar destes fantásticos heróis da Marvel. Costurando o enredo fictício com momentos dramáticos da História mundial, como a 2a Guerra Mundial e a Crise dos Mísseis de Cuba, o filme é inventivo e divertido. Como é comum quando se trata do grupo mais atormentado dos quadrinhos, é discutido, com relativa profundidade, temas como preconceito, raiva e vingança. É possível substituir os mutantes por qualquer grupo que sofre preconceito, como os negros, os judeus, os gays. A essência é a mesma e a intolerância salta latente aos olhos.

Neste primeiro filme de uma possível nova trilogia, entendemos o que motivou Magneto a se tornar um violento combatente dos humanos; percebemos como surgiu a amizade entre Magneto e Professor Xavier - e como ela ficou abalada; observamos a criação dos X-Men e a relação do grupo com a CIA; e vemos alguns dos mutantes no início da trajetória, aprendendo a controlar seus poderes. Nem sempre com extrema fidelidade às HQs, mas sempre com muita coerência com o próprio filme. Não há pontas soltas. Para os fanáticos por ação, esse é um filme mais pautado pelos diálogos e roteiros, mas ainda assim há cenas eletrizantes. O elenco jovem dá o gás que a série pedia, com destaque para James McAvoy, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence.

Em "X-Men: Primeira Classe" fica ainda mais claro que a linha que separa os heróis dos vilões é muito tênue. Como não entender as motivações de Magneto? Serão mesmo tão menos nobres que o discurso pacifista de Xavier? Como Malcom X e Martin Luther King, eles duelam com as armas que lhe cabem, sempre em busca da aceitação pela sociedade. Darão pano para manga para mais capítulos. E que venham, pois, as próximas etapas dessa história atemporal.

domingo, 5 de dezembro de 2010

"A Rede Social": pode apertar o botão "curtir"!


David Fincher é um dos meus diretores favoritos. "Seven - Os Sete Pecados Capitais", "O Clube da Luta", "Zodíaco", "O Curioso Caso de Benjamin Button"... Todos ótimos filmes que trazem a marca indiscutível do seu diretor. Difícil apontar um filme de Fincher que ao menos não mexa com seu público. O mais recente deles é "A Rede Social", que chegou aos cinemas brasileiros com status de favorito a várias indicações ao Oscar. Tendo a criação e trajetória do Facebook, rede social mais popular do planeta, como mote, o filme poderia ter usado recursos tecnológicos para contar a história. Mas não, preferiu se amparar na história incrível e na força de seus atores. Decisão acertada, pois é o drama humano que vale aqui. Fincher, muito esperto, optou por uma direção mais contida, sem os arroubos (justificados) de seus filmes anteriores. Mostrou que é de fato um ótimo diretor que sabe trabalhar a serviço do resultado final. E também provou que é um eficiente diretor de atores. Aqui, todos estão bem, desde o protagonista até o extenso elenco de apoio. Para completar, fez uso de uma eficiente e nervosa trilha sonora composta por Trent Reznor, homem por trás do rock industrial do Nine Inch Nails.

Se nao fez uso de truques tecnológicos, o filme pega emprestado algo que é essencial na linguagem da Internet: a rapidez dos diálogos, determinantes para o sucesso da história. É preciso concentração para não se perder nos diálogos cortantes, a maior parte deles - naturalmente - com participação do protagonista Mark Zuckenberg, dono do Facebook muito bem representado por Jesse Eisenberg (desde já apontado como escolha certa entre os indicados a melhor ator, no Oscar). Outro que manda muito bem é Andrew Garfield (futuro Homem-Aranha), que faz o brasileiro Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook que é passado para traz pelo "amigo". Também rápido nos diálogos, porém um degrau abaixo em qualidade na interpretação, aparece o rosto mais conhecido do elenco: Justin Timberlake. Na pele de Sean Parker, o cara que criou o Napster, ele tem papel primordial na história e é o personagem que mais traços de vilania carrega.

Ao sair do filme, entrei numa discussão sobre se o filme prejudica a imagem do Facebook. Creio que não, pois o site virou um sucesso por conta dos internautas que o abraçaram quase que instantaneamente, espalhando-o pelo mundo. E esses internautas não vão abandonar a rede social só porque ela foi construída por cima de passos imorais. Mas não há como negar que seu fundador sai com a imagem arranhada. Tomando decisões antiéticas e sempre com um rei na barriga, Mark pode não ser um vilão clássico, mas passa longe de ser o herói que poderia. Criador da mais bacana rede social que existe e bilionário mais jovem do mundo, ele mostra ser um fraco nos princípios mais básicos. Além de antiético, é vingativo, seco e desleal. Algumas das suas escolhas mais duvidosas poderiam ser justificadas pelos maus-bocados que sempre passou. Ok, nem tão maus assim, é bem verdade: ele é apenas um nerd, que mesmo genial, nunca foi completamente aceito e passou longe de ser popular. Um esquizóide que não tem jeito nenhum com as mulheres e tem poucos amigos. Um desses que num cenário mais trágico entra numa High School e mata vários colegas e professores. Mas ele é genial. Então decide canalizar suas frustrações em uma rede social inovadora. Mesmo que para isso tenha que passar por cima de tudo e de todos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Uma continuação arrebatadora



Confesso que fiquei um tanto cético quando soube que Tropa de Elite teria uma continuação. Quando um filme já nasce como uma série, geralmente as continuações têm razão de existir. Quando elas são forjadas em cima do sucesso do primeiro filme, a chance de se tornarem bombas é grande. Um dos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos foi Matrix, que impressionou na primeira parte e só foi piorando nas duas seguintes. Tropa de Elite veio como um soco no estômago, apresentou um dos personagens mais fortes da cinematografia nacional - o Capitão Nascimento de Wagner Moura - e colocou o país inteiro em debate. A expectativa para a continuação era imensa, portanto. Confiando no discurso coerente do diretor José Padilha, comecei a imaginar que ao menos um filme à altura poderia sair dali. Qual não foi a minha surpresa quando constatei que Tropa de Elite 2 é na realidade superior ao seu antecessor. Corajoso e ousado, é um filme que convida à reflexão e prende do início ao fim.

A primeira sacada de Padilha foi tirar o Bope do centro das atenções. Um filme de pura ação mostrando a atuação dos caveiras seria a solução mais fácil em busca do sucesso, porém a mais preguiçosa também. Não que o Bope não tenha um papel importante nessa sequência, porém ele aparece como parte da narrativa e é desconstruído como apenas mais uma peça do complexo esquema de corrupção que toma conta do Rio de Janeiro. Padilha, entretanto, não é bobo nem nada e fortalece ainda mais o Capitão (agora Coronel) Nascimento. Uma escolha certeira, afinal má coisa não poderia vir do excelente Wagner Moura. Elaborar um Nascimento bem mais maduro, um tanto amargurado e cansado, porém não menos implacável, deu o gás que o filme precisava. Se na primeira parte, ele dividia as atenções com o aspira interpretado por André Ramiro, aqui ele reina com maior destaque. Não deixa de ter alguns antagonistas, o mais complexo deles interpretado pelo ótimo Irhandir Santos. Ele faz o Fraga, militante dos direitos dos presos e que começa a perceber como a engenhoca dos favorecimentos rola no Rio. O interessante é que Fraga não é um vilão, está mais perto de um herói errante, mas sempre se coloca no caminho de Nascimento - na vida profissional e pessoal.

Os grandes vilões dessa segunda parte não são os traficantes do Rio, mas sim as milícias que os substituem em muitas das favelas cariocas. A polícia corrupta e os políticos sem caráter se aproveitam da fragilidades dos que moram nesses rincões desfavorecidos e fazem a festa. Dinheiro fácil rola solto, currais eleitorais são formados e o banditismo muda de lado. Nascimento demora um pouco para perceber como funciona esse esquema, mas quando descobre o bicho pega. E o envolvimento direto de sua família na história o deixa ainda mais louco. Se os bordões da primeira parte não aparecem com vigor nessa continuação (ainda bem), o Tropa 2 deixa como herança uma série de cenas memoráveis como a luta de judô entre Nascimento e o filho, a saraivada de balas que o carro do Coronel recebe logo no início do filme, a surra que ele dá em um dos políticos mais asquerosos da história e um fortíssimo discurso despejado em pleno Congresso Nacional. O público, naturalmente, vem respondendo ao filme com cinemas cheios. Tropa de Elite 2 caminha para se tornar o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, alcançando a "Dona Flor e Seus Dois Maridos", que levou 10,2 milhões de pessoas às salas na década de 70. Já é o filme mais visto desde a Retomada, tomando o lugar do apenas engraçadinho "Se Eu Fosse Você 2". Um orgulho e tanto ver o cinema nacional em tão bons lençóis.

sábado, 7 de agosto de 2010

No mundo dos sonhos


Quem nunca mergulhou num sonho e teve a nítida impressão que tudo aquilo é real? Por que lembramos de alguns sonhos nos mínimos detalhes e outros passam desapercebidos? É bem verdade que algumas pessoas têm a capacidade de lembrar de até três sonhos por noite e eu os invejo tremendamente. Já pensei, inclusive, em deixar um bloquinho ao lado da cama, quem sabe não tenho um sonho genial, um mote para um romance policial, por exemplo? Dizem que se não anotamos imediatamente, as lembranças escapam gradativamente. Ainda assim, todo mundo tem um sonho que nunca sai da cabeça, por que este é assim tão especial?

Um universo tão rico como esse já inspirou um grande número de filmes, o mais recente deles "A Origem", do sempre competente Cristopher Nolan. Depois de dirigir com precisão os dois filmes mais recentes de Batman, Nolan embarcou numa proposta ousada que vem dando o que falar. Com um excelente elenco formado por Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy e Michael Caine, "A Origem" é um daqueles filmes que lhe deixa grudado na cadeira e cuja longa duração (2h30) nao é nem percebida.

No filme, DiCaprio faz um ladrão pouco convencional, que entra nos sonhos dos outros para roubar fortunas. Ele trabalha numa empresa pouco ética e durante um dos seus trabalhos, acaba topando com um desafio diferente: ele precisa fazer uma inserção (inception, do mais adequado título original), ou seja, plantar uma idéia na cabeça do herdeiro de uma grande fortuna.

Daí em diante, o filme, que é recheado de belas imagens, vai revelando muitos dos seus segredos e entra num ritmo frenético. Ainda que pareça surrupiar algumas idéias do revolucionario "Matrix" e não trate o sonho como uma esquisitice aos moldes do genial David Lynch, Nolan consegue um resultado excepcional. "A Origem" é um daqueles filmes que ficam na cabeça e que merece ser visto e revisto.

sábado, 5 de junho de 2010

Buscas incessantes



Alguns filmes têm o poder de lhe paralisar por alguns minutos pós-projeção. Levam à reflexão e certamente cumprem seu papel de passar uma mensagem. Aconteceu comigo em filmes como "Cidade dos Sonhos", "Dançando no Escuro" e "Central do Brasil" - só para ficar em exemplos bem diversificados. Alguns deles deixam um ponto de interrogação e uma pertubação característica, como é o caso de "Cidade dos Sonhos", não por acaso uma obra de David Lynch; outros batem forte e revoltam, deixando um tremendo vazio, como "Dançando no Escuro", que apresenta uma performance incômoda de uma surpreendente Björk; por fim há aqueles que emocionam, mesmo trazendo uma mensagem simples e de fácil absorção, aqui representado pelo brasileiro "Central da Brasil" e seu choro sincero de uma Fernanda Montenegro estupenda.

Recentemente aconteceu com um filme dos nossos hermanos, "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella. Se no outro filme do cineasta portenho que vi, "O Filho da Noiva", ele já dava indicações do bom diretor que era, nesse ele vai um passo além. Com o mesmo (e novamente excelente) Ricardo Darín como seu protagonista, Campanella entrega um filme em que olhares, sinais e outros pequenos detalhes fazem a diferença. Tudo salpicado em um interessante roteiro que versa essencialmente sobre a busca, em diversas facetas. A busca obcecada do protagonista Benjamín Espósito (Darín) pelo assassino de uma jovem, casada com o dedicado Ricardo Morales (Pablo Rago), que atravessa anos. Um crime aparentemente solucionado, porém com arestas que se mantém soltas por mais de 20 anos. Mesmo tempo em que outra busca de Benjamín perdura, a do amor por Irene Hastings (Soledad Villamil), sua então chefe quando o crime ocorreu e quando eles eram responsáveis por solucioná-lo. Um amor nítido durante todo o tempo da projeção, mas que não é explicitado por Benjamín em nenhum momento. Duas buscas que consomem a vida de uma pessoa, interligadas e incompletas até praticamente o fim desta obra, certamente merecedora da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2010.

sábado, 10 de abril de 2010

Animação para todos



Tenho que respeitar a opinião dos outros, eu sei, mas acho que aqueles que não curtem os filmes de animação são deveras preconceituosos. Não gostar de um específico, ok, mas simplesmente não suportar o gênero me parece má vontade. Longe dos desenhos que víamos no intervalo do Xou da Xuxa, as animações atuais são sofisticadas, trazem histórias por vezes maduras e por outras engraçadas e chegaram num nível técnico impressionante. Na ponta, a Pixar/Disney e a Dreamworks, que se tornaram mestres nesta arte. A qualidade atual e o preconceito que existe por parte de alguns encontra paralelo com o mundo dos quadrinhos. Ainda que nos segmentos dos heróis e dos comic books mais simples que encontramos nas bancas existam coisas bacanas, é no gênero das chamadas graphic novels que se encontram as verdadeiras pérolas. Literatura acompanhada de desenho da maior qualidade.

Voltando às animações, está em cartaz nos cinemas de todo o país o excelente "Como Treinar Seu Dragão", da Dreamworks (mesmo estúdio da série "Shrek" e de "Madagascar"). Trazendo a fantasia que é característica aos filmes do gênero, "Como Treinar Seu Dragão" tem uma dose extra de pimenta, com alguma maldade e até mesmo violência. Tudo dosado para agradar os adultos e não assustar demais as crianças. O herói é um garoto chamado Soluço, que passa longe de ser infalível e não sairá ileso das aventuras na ilha onde mora. A aldeia viking onde o pai de Soluço é o líder maior é frequentemente atacada por dragões e vive praticamente em função deles. Dragões dos mais diversos tipos, que fazem vôos razantes e cospem fogo por todos os lados. A obsessão é tanta que os mais novos (e aptos) passam por rigorosos testes para enfrentar os temidos animais. Não fazer parte do grupo dos caçadores é uma prova de fraqueza. Como é de se imaginar, Soluço não é o exemplo de guerreiro, mas acabará sendo o responsável por uma grande reviravolta. Ele, meio que por acaso, aprenderá a domar os dragões.

As cenas que ilustram essa descoberta estão, sem dúvida, entre as mais divertidas do filme. Mas são os vôos razantes que Soluço empreende em cima do temido dragão Fúria da Noite que representam os mais fantásticos momentos. Com o artifício do 3D, essas passagens ganham ainda mais em emoção. No IMAX de São Paulo, onde vi o filme, o resultado é ainda melhor. Tudo bem que pode se pensar que é mais um filme que embarca na onda da terceira dimensão, mas dá para dizer que essa é a animação que melhor soube utilizar o artifício até hoje. "Como Treinar Seu Dragão" entrega uma quase constatação: se ainda vai demorar um tanto para todos os filmes serem em 3D (até porque é uma técnica que não combina tanto com dramas e romances), vai ser difícil realizar animações que não adotem a tecnologia da moda.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Uma vida marginal


Dentro da farofada que virou a categoria de "Melhor Filme" do Oscar, com dez candidatos ao título, uma pequena pérola independente se destaca. Com atuações de tirar o fôlego, roteiro correto e direção segura para um cinesta praticamente estreante, "Preciosa" é um filme poderoso. A história da garota negra, pobre e obesa, que é maltratada pela mãe e abusada pelo pai, tendo dois filhos frutos deste incesto, tinha tudo para virar um dramalhão daqueles. Mas muito por conta da boa condução do diretor Lee Daniels, que segura um tom um pouco mais seco e encontrou soluções narrativas que dão algum fôlego a trágica vida de Precious, o filme passa longe de um escorregão sentimentalista. Ainda assim, não há como não sentir pena da personagem interpretada com brilho pela novata Gabourey Sidibe. Ela não percebe com precisão o absurdo que é sua vida e acaba levando tudo como parte de sua rotina. E é isso que causa mais comoção em quem assiste ao filme.

Se Gabourey Sidibe dá um show imprimindo verdade à uma Precious jogada à marginalidade, a apresentadora de tevê e atriz Mo´Nique não fica para trás. Como Mary, mãe da protagonista, ela encarna a principal vilã do filme, tratando a filha com violência e desprezo. Amarga e sem um pingo de afeição por qualquer pessoa que esteja ao seu redor, ela não tem chance alguma de sair do mundo asqueroso em que se meteu. Em uma das últimas cenas do filme, ao lado de Precious e da assistende social interpretada pela cantora Mariah Carey, a personagem tenta justificar todos os horreres que cometeu. Só esse momento já valeria o Oscar de atriz coadjuvante que vem sendo dado como certo para Mo´Nique. Por sinal, outra que não faz feio é a própria Mariah Carey. Se como cantora, a garota é um enjôo em pessoa, como atriz ela mostra talento, desprovida de toda a produção que geralmente a rodeia. Fica até difícil reconhecê-la. Do mundo da música, quem aparece também no filme é Lenny Kravitz, num papel pouco importante, mas sem comprometer.

Filme denso e que até passa uma ponta de esperança, "Preciosa" dificilmente levará as estatuetas de melhor filme e melhor diretor do Oscar. Pequeno demais para os padrões da Academia, ele já saiu ganhando pelas merecidas seis indicações ao prêmio. E deverá sair laureado pelo menos com o troféu de atriz coadjuvante. A torcida desse blog, entretanto, é para que o filme saia com pelo menos mais um prêmio: o de melhor atriz para Gabourey Sidibe, a simpática novata que se tornou uma estrela do cinema mesmo estando totalmente fora dos padrões hollywoodianos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Detetive repaginado


Que me perdoem os puristas, mas o novo "Sherlock Holmes" é uma das coisas mais bacanas entre os filmes de ação que estrearam nos últimos meses. Longe da naftalina, ele aparece no novo trabalho do diretor Guy Ritchie encarnado pelo sempre ótimo Robert Downey Jr. e na companhia de um esperto Dr. Watson, papel de Jude Law. Com a velocidade e edição recortada que é caractéristica nos filmes anteriores do ex-marido de Madonna, a exemplo de "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" e "Snatch", "Sherlock Holmes" não tem medo de modernizar o personagem, mantendo algumas caracteríticas que permitem a identificação do personagem clássico, mas inovando em outras tantas. O detetive inglês não impressiona apenas pelos seus atributos intelectuais, aqui ele é ágil, sai na porrada e também leva alguns socos e chutes. Sherlock é um tanto quanto paranóico e dependente de medicações, além de não ter muito talento para manter suas relações pessoais. Ao lado dele, mais que um Robin em versão vitoriana, Dr. Watson é uma grata surpresa, peça fundamental para o sucesso do seu parceiro mais famoso.

Os fãs mais antigos podem até reclamar do fato do filme se aproximar mais da ação do que de um suspense mais intelectual que o personagem também pode inspirar. Mas é inegável que "Sherlock Holmes"é um bom entretenimento, tem roteiro amarradinho, com boa reconstituição de época e atuações acima da média. quem se sobressai é de fato o ator principal Roberto Downey Jr. Depois de visitar o inferno e se manter por um bom tempo no purgatório, o novaiorquinho está de novo por cima da carne seca. Ele surgiu como uma grata revelação do cinema americano, mas durante a década de 90 passou das páginas de cultura para a seção de polícia dos jornais, num martírio entre as clínicas de reabilitação de drogas e as delegacias. Não por acaso, sua carreira foi entrando em decadência, com filmes ruins e atuações apagadas. Já na década de 2000, ele se recuperou e passou a colecionar uma série de atuações destacadas, como em "Zodíaco", "Trovão Tropical", "O Solista" e, principalmente, "Homem de Ferro". Longa vida, pois, ao renovado e talentoso Bob Downey.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os filmes da década

Mesmo com muitos gritos pela Internet, bradando que a década não acabou e só se encerra de fato quando findar o ano de 2010, pululam na rede as famigeradas listas de melhores da década. Sempre tive medo de cometer injustiças, mas esse ano vou arriscar. Para mim, o período vai mesmo de 2000 ao final de 2009, vou seguir o senso comum. Do mesmo modo que nunca engoli o início da semana como domingo. Início de semana é segunda-feira, ora bolas. E início de década é número redondo, ponto final.

Bom ressaltar que as três listas que apresentarei aos poucos por aqui não seguem ordem de preferência e sim a simplória ordem alfabética. Desculpem, mas "rankear" ia ser demais para o meu fígado. Outro detalhe: não pretendo dizer que tal filme e tal disco são superiores a outros que deixei de fora. Eles simplesmente me acompanharam de um modo mais próximo nesses dez anos, me tocaram mais. E o que importa é isso, o resto é balela. Até porque não vi metade dos filmes e não conheço todos os bons artistas da música.

Por fim, criei uma regra: não posso repetir o artista (no caso dos discos) ou o diretor (no caso dos filmes), cada um só pode ter um representante, com, no máximo, mais uma menção honrosa. Abaixo, pois, os meus 20 filmes preferidos da decada.

Avatar (2009)



Recém-chegado aos cinemas, o petardo de James Cameron impressiona pela técnica e populariza de vez o 3-D. A história em si é até banal, mas foi construída de tal modo que prende e não nos deixa sentir que se passaram quase três horas de projeção.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança (2004)



Filme que concedeu respeito a Jim Carrey como ator, "Brilho Eterno..." é uma sensível parceria dos inventivos Michel Gondry e Charlie Kaufman. Com um roteiro repleto de desconstruções e soluções narrativas interessantes, traz Carrey em perfeita harmonia com a sempre boa Kate Winslet.

Cidade de Deus (2002)



Melhor filme brasileiro da década, "Cidade de Deus" apresentou Fernando Meirelles para o mundo e mostrou que no Brasil também se faz filmes ágeis, com ótimos roteiros e preparação de elenco primorosa. A montagem e a fotografia indicadas ao Oscar são inesquecíveis.
** Menção honrosa do mesmo diretor: O Jardineiro Fiel (2005).

Cidade dos Sonhos (2001)



David Lynch é um dos caras mais loucos do cinema mundial e este seu filme é motivo de infindáveis discussões e interpretações. Não segue uma lógica, exige que o espectador preencha os espaços vazios e deixa você preso na poltrona por alguns minutos após a projeção.

Cidade Baixa (2005)



Além de ser o filme que melhor mostrou a Bahia contemporânea para o mundo, "Cidade Baixa" apresenta um triângulo amoroso dos mais inspirados, formado por Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga. Além disso, tem um sotaque no ponto certo e um folclore que foge do estereótipo.

Dançando no Escuro (2000)



Tristíssimo filme de Lars Von Trier, com a cantora Björk dando um show no papel principal. É um musical completamente fora dos padrões e tem algumas das sequências mais agoniantes da década. Esse é para chorar - mesmo.
** Menção Honrosa do mesmo diretor: Dogville (2003).

Fale com Ela (2002)



O universo colorido e exagerado de Almodóvar não poderia ficar de fora. Com diálogos inteligentes e o pertubador enfermeiro interpretado por Javier Cámara no centro da trama, "Fale com Ela" traz ainda a voz de Elis Regina numa belíssima cena e Caetano Veloso em carne e osso.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Volver (2006).

Kill Bill - Vol. 1 e Vol. 2 (2003 e 2004)



Mesmo não trazendo a verborragia de filmes como "Pulp Fiction", a série "Kill Bill" marca pela estética pop e por apresentar Uma Thurman em estado de graça. Se você mergulha de cabeça nesse universo, passa a entender perfeitamente a louca mente de Quentin Tarantino.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Bastardos Inglórios (2009).

Mar Adentro (2004)



O cineasta Alejandro Amenabár conta a história real do galego Ramón Sampredo com uma delicadeza ímpar. Javier Bardem, com esse papel, se colocou entre os maiores atores da atualidade. Um dos filmes mais tristes e belos da década.

Marcas da Violência (2005)



O diretor David Cronenberg sempre entregou filmes que mexem com o público, com imagens fortes e roteiros redondinhos. As ótimas interpretações de Viggo Mortensen, Ed Harris e William Hurt dão um caldo ainda mais saboroso a esta produção.

Menina de Ouro (2004)



Com o triunvirato Clint Eastwood, Hillary Swank e Morgan Freeman não podia sair algo menos que espetacular. Grande obra do melhor cineasta desta década, "Menina de Ouro" emociona na medida certa, fugindo da pieguice.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Gran Torino (2008)

O Cheiro do Ralo (2007)



Com um inspirado Selton Mello no papel principal, o filme de Heitor Dhalia é esquisito, engraçado e faz jus à louca obra de Lourenço Mutarelli. É cult, sem ser chato.

O Labirinto do Fauno (2006)



O mexicano Guillermo del Toro criou uma fábula com imagens espetaculares, mas também amparada em um roteiro consistente. Um filme talvez um pouco dark para as crianças, mas nem um pouco infantil para os adultos.

O Pianista (2002)



Um dos melhores filmes de guerra já feitos, a obra de Roman Polansky é emocionante e traz uma grande interpretação de Adrien Brody, premiado pelo Oscar. Bom ressaltar que não é fácil renovar o olhar sobre um tema tão batido como a 2a Guerra Mundial.

O Senhor dos Anéis - Trilogia (2001, 2002 e 2003)



Uma das melhores trilogias de todos os tempos, a saga dirigida por Peter Jackson conseguiu fazer jus aos ótimos livros de J.R.R. Tolkien. A reprodução deste mundo fantástico, com riqueza de detalhes, agradou aos fãs dos livros e conquistou muitos não-iniciados neste universo.

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)



Ótimas interpretações, história forte e violência a serviço da narrativa. O filme dos geniais Irmãos Coen surpreende também por não parecer tanto um filme dos Irmãos Coen. Prova de como esses americanos são versáteis.

Pequena Miss Sunshine (2006)



Filme mais fofo da década, "Pequena Miss Sunshine" é daquelas pequenas obras-primas que merecem ser vistas e revistas. O elenco dá um show e o roteiro é sagaz, com diálogos cortantes.

Sangue Negro (2007)



O filme já entraria na lista só pela interpretação hipnotizante de Daniel Day Lewis, mas tem outros méritos como uma trilha sonora pertubadora, uma narrativa épica e boa reconstituição de época.

Três Enterros (2005)



Possivelmente o filme menos conhecido desta lista, "Três Enterros" se destaca pela direção e interpretação de Tommy Lee Jones. Com um humor negro cortante, se ampara no ótimo roteiro de Guillermo Arriaga (o mesmo de "Babel" e "21 Gramas").

Vôo United 93 (2006)



Filme que apresenta de forma quase didática o que aconteceu no vôo que supostamente deveria atingir o Capitólio, no fatídico 11 de setembro de 2001, "Vôo United 93" é tensão pura. Mesmo quando exagera nos termos técnicos, o diretor Paul Greengrass não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A marca de Tarantino


Não canso de rever "Pulp Fiction", obra-prima pop do grande Quentin Tarantino. Foi com esse filme que eu - e boa parte dos seus fãs - mergulhei de vez na cinematografia do cineasta americano, retrocedendo, inclusive, para conhecer o ótimo "Cães de Aluguel". Dos seus filmes - sempre bons, mas nem sempre espetaculares - só não vi a parte que lhe pertence na parceria com Robert Rodriguez, o "Death Proof". Erro que pretendo corrigir logo, por sinal. Semana passada, fui ver "Bastardos Inglórios", novo petardo de Tarantino, que traz o galã (que hoje faz de tudo para se enfeiar) Brad Pitt entre os principais personagens.

Está tudo lá: violência desenfreada, diálogos cortantes, personagens bizarros, elenco afinado, trilha sonora cuidadosamente pincelada. A grife Tarantino é facilmente percebida e isso chegou a levantar algumas críticas de meios especializados. Chamam de mais do mesmo, falta de inovação e sugerem até mesmo uma limitação criativa deste que é um dos melhores diretores que surgiram nos anos 90. Bom, eu não sei quanto a estes críticos, mas o que eu espero ao ver um filme de Tarantino é justamente que traga o que o ele sabe fazer de melhor. Guardando as devidas proporções, é o que acontece com o genial Alfred Hitchcock. Em sua extensa filmografia, são poucos os filmes que não trazem o estilo hitchcockiano impresso em cada cena.

Sátira inteligente e propositadamente exagerada do período do nazismo - mais especificamente da França ocupada pelos seguidores de Hitler -, "Bastardos Inglórios" é uma obra divertida e movimentada, que carece talvez de um roteiro mais elaborado, para complementar os espertos diálogos. No ranking tarantiniano, eu colocaria este novo filme no nível de "Jackie Brown". Ainda bem bom, mas sem a excelência dos já citados "Cães de Aluguel"e "Pulp Ficton" e da série "Kill Bill". O que há de melhor no filme é a gangue dos Bastardos Inglórios que dá título à obra, com destaque para o Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) e o Sargento Donny Donowitz (Eli Roth, amigo de Tarantino, que também é diretor). Só quem se sobressai a todos é o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz, ganhador do prêmio de Melhor Ator em Cannes). Oficial alemão poliglota, Landa é implacável e carrega uma frieza notável. Prova disso é a primorosa sequência inicial, quando o oficial faz uma busca por judeus em um rancho no interior da França. Com uma lábia envolvente, o coronel acaba por realizar o seu "trabalho", fazendo jus a fama de caçador de judeus. É bem mais assustador que o caricato Hitler de "Bastardos Inglórios". Fato aliás, compreensível, afinal depois do Hitler de Bruno Ganz em "A Queda - As Últimas Horas de Hitler", todas as reencarnações do líder nazista vão parecer pouco convicentes.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O mistério do corpo


De um lado, o colorido extravagante e o absurdo nas palavras e ações dos filmes de Pedro Almodóvar. Do outro, a singeleza e os gestos contidos que povoam uma porção da cinematografia japonesa. Filmes distintos em quase tudo,"Fale com Ela" (2002), do fantástico diretor espanhol, e "A Partida" (2008), que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e é dirigido por Yojiro Takita, se cruzam no apuro em que seus personagens cuidam de corpos: mortos ou quase-mortos. Explico melhor: em "Fale com Ela", o esquisito enfermeiro Benigno Martín (Javier Cámara) zela pelo corpo em coma de uma bela bailarina e por ela se apaixona. Tudo, claro, com a carga dramática e o estoque de reviravoltas que se tem direito, quando se trata de Almodóvar. Em "A Partida", o jovem violoncelista Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), perdido na busca por respostas que não sabe onde estão, começa a encontrar algumas pistas ao trabalhar como agente de funerária. Em uma cultura que acha infame o trabalho de tocar corpos mortos, mesmo considerando o ato de preparar os mortos como um ritual, Kobayashi exprime uma delicadeza notável no seu ofício, em cenas belíssimas, mesmo que um tanto longas. Mesmo aqueles que o consideram um ser estranho com uma função pouco nobre, incluindo sua noiva, passam a entender a dignidade do trabalho de Kobayashi ao perceber o respeito e a dedicação que ele entrega aos entes queridos dos outros. As cenas ritualísticas e a maneira como o protagonista mergulha gradativamente no seu trabalho emocionam nos singelos detalhes. Se por vezes atua de um modo um tanto caricato, na maior parte das vezes o japonês Masahiro Motoki consegue transmitir muito nos gestos e olhares. Entendemos a angústia no seu peito desde o início do filme e esperamos pela inevitável redenção, que acaba acontecendo em uma cena diretamente ligada ao seu lidar diário com defuntos.

"Fale com Ela", que revi essa semana, tem uma história mais forte, muito por conta do talento nato de Almodóvar como roteirista. Os diálogos ferinos e a chocante relação do enfermeiro Benigno com a bailarina Alicia (Leonor Watling) se destacam em uma narrativa que tem cenas sublimes. Duas delas estão diretamente ligadas aos brasileiros: a da toureira Lydia Gonzáles (Rosario Flores) em ação, ao som de uma arrepiante canção de Elis Regina, e a de Caetano Veloso arrancando lágrimas do apaixonado Marco Zuluaga (Darío Grandinetti). Nas passagens de dança, protagonizadas pela recém-falecida Pina Bausch, Almodóvar consegue ainda transmitir muito da emoção de seus personagens. Um filme lírico e forte, daqueles ideiais para ver e rever.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Reencontro com a paz


A comparação de um salutar envelhecimento humano com um bom vinho cabe perfeitamente ao caso do grande Clint Eastwood. Na medida em que os anos passam, o veterano diretor, ator e produtor se supera, entregando filmes sensíveis e inventivos, numa regularidade invejável. Arrancando performances acima da média dos seus atores, como Hilary Swank e Morgan Freeman em "Menina de Ouro" e Sean Penn e Tim Robbins em "Sobre Meninos e Lobos" - somente para ficar nos recém-oscarizados -, Clint demonstra como hoje domina completamente o seu ofício. Filme novo deste americano de San Francisco é sinônimo de potencial indicado ao Oscar, garantem as bolsas de apostas.

De vez em quando, ele próprio se coloca à frente das câmeras, como em "Gran Torino". Revi pela terceira vez essa pequena obra-prima recentemente e mais uma vez me emocionei com a história do homem duro e pouco social, que não esquece as agruras da guerra em que lutou e guarda os mais terríveis preconceitos. Entretanto, por debaixo daquela camada aparentemente intransponível, existe um homem bom e justo. Mesmo que oculte na primeira metade do filme, é na sua interpretação contida que Clint dá a entender que há algo de humano ali. Com falas cortantes, de um humor ferino, porém refinado, o personagem Walt Kowalski conquista a improvável simpatia do espectador. Mérito de Clint, que injustamente não figurou entre os indicados ao Oscar de Melhor Ator de 2008.

Último remanescente da maioria em um bairro povoado pelas mais marginais minoriais, Kowalski resiste ao presente e ao futuro, se mantendo preso a um passado obscuro. Isso fica evidente desde o recorrente discurso sobre a Guerra da Coréia, que aparentemente o traumatizou, até a residência onde vive e que dividiu por anos com sua esposa recém-falecida, passando também pelo carrão antigo que dá nome ao filme. É na suas relação com a família de asiáticos que mora ao lado, especialmente com o garoto Thao, que o personagem de Eastwood vai reencontrar o seu quinhão humano que ficou perdido em algum chão da distante Coréia. Se já não reconhece entre seus fúteis filhos e netos a possibilidade da redenção, é na desprezada família de olhos puxados que está a saída. Uma lição para um senhor que já viu muitas coisas nos seus mais de 70 anos de vida, mas que ainda precisava de paz interior.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um artista incomum


Essa é uma escolha das mais difíceis, mas eu arriscaria dizer que Johnny Depp é o mais interessante dos atores em atividade. Quase que ouso mais e afirmo que ele é o melhor, mas lembrei de Philip Seymour Hoffman, Robert Downey Jr., Daniel Day Lewis, Javier Bardem e de monstros que mais nada tem para provar como Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman e Jack Nicholson e a dúvida se instaurou. Bom, não dá mesmo para escolher um só, quem sabe um top ten? Melhor mesmo é deixar o momento "Alta Fidelidade" para depois.

Desde as escolhas pouco óbvias até a sua capacidade de encarnar os tipos mais variados, passando pela parceria interessantíssima com o cineasta Tim Burton, Johnny Depp encanta pela estranheza. Seu olhar traz uma autenticidade que cria uma cumplicidade com o público, que torce pelo seu personagem, mesmo que ele não seja politicamente correto. Depp já colocou nas telas tipos memoráveis e esquisitos até o talo como Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, Sweeney Todd e, claro, o tresloucado Capitao Jack Sparrow, da trilogia "Piratas do Caribe", mas também soube imprimir uma marca pessoal a personagens mais comuns como Donnie Brasco, o Gene Watson de "Tempo Esgotado" e o mais recente John Dillinger, do novo filme de Michael Mann, "Inimigos Públicos".

Na produção baseada na história real de um mítico assaltante norte-americano, que varreu os bancos na época da Grande Depressão e acabou se tornando o estopim para a criação do FBI, Depp magnetiza com uma segurança única. A companhia da grande Marion Cotillard - que entregou uma das melhores performances deste novo século em "Piaf - Um Hino ao Amor" - e o pouco convicente antagonista vivido por Christian Bale, colaboraram ainda mais para Depp brilhar intensamente. Quando juntos em cena, Depp e Cotillard exalam paixão, numa química que é um dos grandes trunfos do filme. Se não é exatamente brilhante, "Inimigos Públicos" está acima da média. Cresce muito devido ao casal protagonista, mas exibe uma gordurinha de pelo menos 20 minutos na duração. Continua, mesmo assim, merecendo uma indicação aos cinéfilos de plantão, confirmando uma questão já notória: com raras exceções, Johnny Depp se mantém como chamariz para interessantes experiências cinematográficas.

sábado, 1 de agosto de 2009

Espelho de uma realidade


Essa semana revi, pela quarta vez, "Cidade Baixa", filme do baiano Sérgio Machado. Sempre gostei de rever filmes, já cheguei a assistir três vezes a mesma produção no cinema. Naturalmente, isso já levantou suspeitas quanto à minha sanidade. Para mim, assistir a um filme com pessoas diferentes é sempre uma experiência nova. Fora a questão de que, a cada projeção, vemos uma peça transformada, com novas nuances e detalhes antes imperceptíveis.

No caso de "Cidade Baixa", a experiência é ainda mais prazerosa. O triângulo amoroso formado por três atores em estado de graça - Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga - carrega muito significado e traz embutido uma Bahia verdadeira. Na cinematografia recente, nenhum outro filme reproduziu Salvador com tanta verdade, no seu linguajar urbano e nos seus becos e ruelas carregados de muita sacanagem. Se o vocabulário utilizado traduz o Dicionário Baianês com fidelidade, é no que não é dito que o filme se aproxima da excelência. Os olhares trocados, os gestos cheios de significado, o amor e o ódio que une e aparta os amigos Deco (Lázaro) e Naldinho (Wagner). Tudo confluindo para um final silencioso e aberto às mais diversas interpretações. Se você já viu esse pequeno grande filme, reveja. Se não viu, tire o atraso.