quarta-feira, 28 de julho de 2010

A abominável Pista VIP



Isso só pode ser idéia de algum capitalista elitista... Inventaram um troço chamado Pista VIP, que até pouco tempo atrás só dava as caras em alguns eventos específicos, mas agora resolveu se espalhar por praticamente todos os shows. Não importa, seja numa casa relativamente pequena como a Via Funchal, seja num espaço maior como o Morumbi, sempre há um naco de chão para os mais abastados. Com o absurdo que hoje é cobrado por cada show - o que coloca o Brasil no topo entre os países que mais cobram no mundo por uma boa apresentação musical - a tal área VIP custa muita grana, coisa que devemos pagar somente para ver a nossa banda favorita. Pois bem, como a maior parte dos fãs do rock não tem dindin para ficar na frente do palco, eles têm que se contentar em assistir à distância. E nem adianta virar a noite na porta, se seu ingresso for da pista comum, isso só lhe dará alguns poucos metros à frente da ralé. Quer um exemplo? É só olhar a ilustração deste post, que identifica a grande área VIP Premium do SWU, festival que acontece em outubro, em Itu (SP). Absurdo.

Situações como essa leva a cenas vexaminosas. Em muitos shows, é possível enxergar um clarão na frente do palco e um amontoado de gente atrás de uma segregadora grade. Afinal, pelo preço que se paga, nem sempre dá para encher a área do povo importante. Lembro de uma situação um tanto quanto diferente, mas que acabou se tornando exemplar pela atitude do público. Aconteceu em 2004, no Curitiba Pop Festival, evento que trouxe o Pixies pela primeira vez ao Brasil. Na ocasião, o festival estava marcado para a bela Ópera do Arame. A procura de ingressos foi tão grande que os organizadores resolveram mudar para a Pedreira, logo ao lado, com muito mais espaço. Para compensar aqueles que compraram ingresso para um espaço bem mais aconchegante, resolveram dizer que os ingressos da Ópera do Arame davam direito a uma área VIP na frente do palco da Pedreira. Os retardatários que só conseguiram entradas quando o evento aumentou de tamanho, teriam que ficar na pista comum. Isso com todo mundo pagando igual. Bom, logo no primeiro dia, quando tocou o Teenage Funclub, já trataram de derrubar a grade que separava uma pista da outra. Aos gritos de "fim do apartheid" que gritava o cantor de uma banda de punk que não me lembro o nome, o público tirou aquela divisão sem sentido do caminho. Não houve qualquer resistência.

O que ocorreu em Curitiba provavelmente não se repetirá em nenhum dos shows que infestam o segundo semestre no Brasil, afinal quem pagou muito mais não aceitará pacificamente uma invasão da sua área VIP. Resta torcer para que os organizadores escutem as reclamações e acabem com esse artifício pouco democrático. Afinal, a frente do palco é dos fãs mais ardorosos e não dos mais abastados!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O vazio da Copa que se foi



O fim da Copa do Mundo dá um vazio danado. Ainda mais em casos graves como o meu, que torço para o Bahia e não vejo cheiro de título há anos. Ver meu time do coração passando por percalços na Segunda Divisão é demais para um amante do bom futebol. Então quando acaba essa maratona de grandes jogos em um curto mês, os quatro anos de espera para a batalha seguinte parecem eternos. Uns vão dizer que em dois anos já tem Olimpíadas, mas não tem jeito, não dá para comparar.

Copa do Mundo é uma das festas mais bonitas e absorventes que existem, difícil não mergulhar com tudo no universo futebolístico. No Brasil então, a coisa fica mais difícil, e até um jogo entre Eslovênia e Argélia reúne curiosos ao redor da tevê. Imagine em 2014, quando o torneio (aparentemente) acontecerá no Brasil. Aliás, esse será um dos motivos para que os tais quatro anos de jejum passem ainda mais devagar. A ansiedade é maior e o Brasil não participará das Eliminatórias, imaginem só que angústia? Até lá, vamos nos cansar de tantas notícias sobre os problemas do Comitê Organizador e teremos que ficar bem atentos à venda de ingressos. O temor de não conseguir ingressos para os jogos do Brasil em 2014 vai perseguir a muitos.

Desta Copa sul-africana que passou fica a decepção com o futebol apático dos comandados de Dunga, que perdeu para um time apenas razoável, a Holanda, e só teve pequenos lampejos de genialidade (especialmente no jogo contra o Chile). Numa Copa em que somente Alemanha e Espanha tiveram vários momentos de fato inspirados, ficou registrado também o paradoxo da Laranja Mecânica. No ano em que a Holanda enfim retornou às finais, depois de dois vices em 1974 e 1978, sua Seleção conseguiu a proeza de cair em desprestígio em todo o mundo. Longe de encantar, ficou marcada pela violência, catimba e pragmatismo. Anos-luz da equipe liderada por Johan Cruyff na década de 70, esse time da Holanda também se mostrou bem inferior àquele da geração de Gullit, Rijkaard e Van Basten, que jogou nos anos 90, mas nada levou. Na África do Sul, a Holanda colocou-se no segundo lugar do pódio, mas sem dar exemplo.

Pois então, já se foram as vuvuzelas e as jabulanis, não adianta lamentar. Agora é torcer para que o Brasil não faça feio, frente ao bom trabalho feito pelos sul-africanos, e aproveite a Copa do Mundo para arrumar essa bagunça em que nós vivemos. O país precisa de infraestrutura e as duas competições esportivas que estão por vir (somando aí as Olimpíadas) são boas desculpas para ajeitar as principais capitais do país. Temos que torcer - com dedos bem cruzados - para que o Comitê Organizador de 2014 preze pelo bom gosto e não transforme tudo em um verdadeiro folclore tupiniquim. Nós não precisamos de mais estereótipos...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O encanto catalão



Barcelona tem uma aura especial. É difícil de explicar, mas de todas as cidades da Espanha que conheci, ela é a mais mágica e encantadora. Tive a oportunidade de retornar na semana passada, para uma curta viagem de dois dias e tive uma nova degustação da cidade catalã. A vontade de ficar era grande, mas não há como ficar longe do Brasil nesse clima de Copa do Mundo. Ver Brasil e Portugal em terras estrangeiras não me soava muito bem. Vai que dá azar...

O que mais impressiona em Barcelona é a sua inusitada arquitetura. Para além dos prédios antigos e imponentes que também dominam as suas ruas, sãs as obras únicas, para não dizer bizarras, de Gaudí, que realmente fascinam. A começar pela Sagrada Família, templo católico dos mais misteriosos, ainda inacabado, símbolo gótico de Barcelona. Talvez seja esse equilíbrio do gótico – que tem um bairro que leva seu nome – com a alegria que transborda nas suas ruas, que faz a cidade ser tão especial. A animada e movimentada Rambla, o renovado Porto Olímpico (exemplo vivo de como uma competição esportiva pode beneficiar uma cidade – fica de olho, Rio de Janeiro!), o belíssimo Parc Güell, as coloridas fontes de Montjuïc são alguns dos destaques da cidade. Lá também é a casa de um dos times de futebol mais simpáticos do mundo, o Barcelona, onde muitos brasileiros fizeram (e fazem) história. Entre os grandes destinos turísticos da Europa, Barcelona tem um quê especial por também ser uma cidade costeira, oferecendo uma praia que é bem freqüentada por turistas e moradores.

A comida mediterrânea, com destaque para a inconfundível paella acompanhada pelos bons vinhos espanhóis, completam o prazer de uma viagem a Barcelona. O esquisito catalão, falado nas ruas com alguma frequência é outro charme inconfudível da cidade. E não há o que se preocupar, afinal o cidadão de Barcelona é simpático e responde em espanhol se assim for solicitado. Na posição de cidade mais animada da Espanha - e possivelmente uma das mais animadas do mundo -, Barcelona oferece diversas opções noturnas para os jovens. Mas é uma cidade completa para pessoas das mais diferentes idades, é bom dizer. Se coloca provavelmente como carro-chefe da Espanha que, na minha opinião, é o país europeu com mais opções para o turista. Ok, Londres e Paris são insuperáveis, mas como país, a Espanha oferece uma diversidade ímpar. O sul com Sevilla, Córdoba e Málaga; o norte com Bilbao, San Sebastian e Santander; a região de Madrid com Toledo, Segóvia e Ávila; a Galícia com Santiago de Compostela e La Coruña; Valência nas proximidades de Barcelona, e por aí vai. Cidades e regiões muito distintas dentro de um mesmo país, que é hospitaleiro e culturalmente rico.

sábado, 5 de junho de 2010

Buscas incessantes



Alguns filmes têm o poder de lhe paralisar por alguns minutos pós-projeção. Levam à reflexão e certamente cumprem seu papel de passar uma mensagem. Aconteceu comigo em filmes como "Cidade dos Sonhos", "Dançando no Escuro" e "Central do Brasil" - só para ficar em exemplos bem diversificados. Alguns deles deixam um ponto de interrogação e uma pertubação característica, como é o caso de "Cidade dos Sonhos", não por acaso uma obra de David Lynch; outros batem forte e revoltam, deixando um tremendo vazio, como "Dançando no Escuro", que apresenta uma performance incômoda de uma surpreendente Björk; por fim há aqueles que emocionam, mesmo trazendo uma mensagem simples e de fácil absorção, aqui representado pelo brasileiro "Central da Brasil" e seu choro sincero de uma Fernanda Montenegro estupenda.

Recentemente aconteceu com um filme dos nossos hermanos, "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella. Se no outro filme do cineasta portenho que vi, "O Filho da Noiva", ele já dava indicações do bom diretor que era, nesse ele vai um passo além. Com o mesmo (e novamente excelente) Ricardo Darín como seu protagonista, Campanella entrega um filme em que olhares, sinais e outros pequenos detalhes fazem a diferença. Tudo salpicado em um interessante roteiro que versa essencialmente sobre a busca, em diversas facetas. A busca obcecada do protagonista Benjamín Espósito (Darín) pelo assassino de uma jovem, casada com o dedicado Ricardo Morales (Pablo Rago), que atravessa anos. Um crime aparentemente solucionado, porém com arestas que se mantém soltas por mais de 20 anos. Mesmo tempo em que outra busca de Benjamín perdura, a do amor por Irene Hastings (Soledad Villamil), sua então chefe quando o crime ocorreu e quando eles eram responsáveis por solucioná-lo. Um amor nítido durante todo o tempo da projeção, mas que não é explicitado por Benjamín em nenhum momento. Duas buscas que consomem a vida de uma pessoa, interligadas e incompletas até praticamente o fim desta obra, certamente merecedora da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2010.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Uma relação de amor e ódio


Os norte-americanos são os reis da eficiência, nisso muitos concordam. Afinal aqueles que popularizaram o sistema do fast-food e os grande espetáculos de entretenimento não precisam provar muito. E eficiencia é sempre bom, não é mesmo? Mesmo se tratando por vezes de enlatados não tão geniais. Entendo perfeitamente aqueles que criticam o american way of life. Eu mesmo sou um desses críticos e posso dar minha opinião sem medo de ser leviano, pois vivi um ano em Missouri, estado mais ou menos no centro dos Estados Unidos. É uma região que abriga o americano típico. Não é o ianque moderninho de New York, o descolado da Califórnia, o latino de Miami ou o executivo eficiente de Chicago e Detroit. Estou falando do americano médio de uma pequena cidade chamada Saint Joseph, com apenas 80 mil habitantes. Aquele que tem um quê de red neck, conhece pouquíssimo para além das fronteiras da sua cidade e pode ser infantil como poucos. Estudei em uma high school e sempre me perguntava de onde saiam os americanos geniais, porque daquela escola certamente não era. Naturalmente, eles não faziam idéia de onde era o Brasil, não conseguiam entender o porquê de se estudar a história de outros países e não ansiavam visitar outro local que não fosse um outro estado norte-americano. Quem sabe no máximo Canadá ou alguma praia no Caribe, isso para os mais informados. Eles pouco entendiam da sua própria história, não à toa, eu e mais outro gringo (alemão) éramos os melhores alunos de Inglês e de História Americana. Believe it or not...

Pois bem, viver um ano neste ambiente foi deveras interessante e divertido. Mesmo que a eventual ignorância de alguns me irritasse, foi lá que aprendi o significado da palavra eficiência. As coisas de fato funcionavam, a qualidade de vida era nítida para praticamente todos e a valorização ao esporte era impressionante. E por mais que muitas coisas da cultura norte-americana me irrite, como o falso moralismo, o culto a personalidades duvidosas e as brincadeiras/farras abobalhadas, não posso negar que algumas das coisas que mais adoro vêm de lá.

A começar pela música. Rock, jazz, blues - todos nasceram lá. É nos Estados Unidos - e na Grã Bretanha, é bom ressaltar - que estão os meeus artistas favoritos. Os mega-concertos e shows em estádio também vieram de lá; e por mais que um show num local pequeno seja excepecional, grandes espetáculos têm lugar reservado entre as minhas preferências. Em seguida, vem o cinema. Por mais que a classificação "filme hollywoodiano" tenha hoje uma conotação não tão boa, ninguém faz filmes como eles. Não sou fã de boa parte dos blockbusters ianques, mas uma nação que nos deu Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Woody Allen, Quentin Tarantino, entre dezenas de outros, tem sim o melhor cinema do mundo. Para fechar a trilogia do que há de melhor nos States, volto ao já citado fast food. Ok, não faz bem pra saúde e não leva os ingredientes mais refinados. Mas é bom, ah se é. Mc Donald's, Burguer King, Taco Bell's, Wendy's, Hardees'... difícil resistir. Prefiro parar por aqui, mas poderia entrar na seara da tecnologia, computadores, Internet, quadrinhos, basquete... Não tenho porque esconder. Mesmo com um pé atrás, amo muito tudo isso.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Híbridos musicais



Existem determinados estilos musicais que não me agradam tanto. O principal deles é o rap. Respeito, não odeio como odeio o pagode e o funk carioca, mas simplesmente não tenho afinidade com a cultura hip hop. Entretanto, quando misturado com outros estilos, a coisa muda de figura. Os exemplos são os mais diversos, cito rapidamente a mescla com a música latina (os cubanos do Orishas) e com o reggae (Damien Marley, o mais interessante dos filhos de Bob).

No caso da música eletronica, as misturas são ainda mais comuns e bacanas. Vale ressaltar que gosto bem mais da e-music que do rap, mas não posso me considerar um autêntico clubber. Olhando em retrospectiva, porém, vejo que hoje conheço e admiro um número bem maior de DJs e tenho meus clubes favoritos. Coisa que não tinha quando morava em Salvador - onde a cena se concentra em guetos e se espalha por algumas poucas raves e festas temáticas.

Entre os estilos derivados de flertes da música eletronica, o trip hop é um dos mais interessantes, especialmente os expoentes Portishead e Massive Attack. Há outros grandes de primeira linha em estilos diversos, como Groove Armada, Daft Punk, Chemical Brothers e Prodigy - alguns deles bem mais eletrônicos e outros mais chegados ao rock. Das bandas mais recentes, destaco o Rapture e, principalmente, o LCD Soundsystem. Esse último, projeto do genial James Murphy, é o que existe de melhor entre os híbridos "e-music-rock".

Descobri na semana passada, entretanto, que quem melhor equilibra os dois estilos é o veterano Moby. Sempre gostei dele, especialmente quando o americano passou a abraçar o seu lado mais roqueiro. Atualmente, Moby é mais produtor e showman que DJ, vocalista ou instrumentista. No show realizado na ultima sexta-feira para um Credicard Hall lotado, ele deu uma aula de como elaborar um bom espetáculo. Provavelmente, foi o show que mais superou minhas expectativas; duas horas de equilíbrio ideal entre o rock e a e-music.

Dançante até o talo, o repertório trouxe pouquíssimas músicas novas e fez um salutar passeio pelos grandes sucessos da carreira de Moby. Adaptando todos os seus hits para serem executados por uma excelente banda - com destaque para a violinista e o baterista - Moby age como um maestro, alternando os papéis de vocalista, guitarrista e percussionista. Quem também dá um show e tanto é uma jovem cantora jamaicana que o acompanha. Se em turnês recentes, a loira Laura Dawn já se destacava, nesta a nova vocalista dá um banho. Com potência e arroubos vocais notáveis, ela impressiona desde a primeira intervenção. Se em alguns momentos, ela parece roubar a cena, logo lembramos que é Moby quem tem o controle da apresentação. Seguro de si, ele parece melhorar a cada turnê.

sábado, 10 de abril de 2010

Animação para todos



Tenho que respeitar a opinião dos outros, eu sei, mas acho que aqueles que não curtem os filmes de animação são deveras preconceituosos. Não gostar de um específico, ok, mas simplesmente não suportar o gênero me parece má vontade. Longe dos desenhos que víamos no intervalo do Xou da Xuxa, as animações atuais são sofisticadas, trazem histórias por vezes maduras e por outras engraçadas e chegaram num nível técnico impressionante. Na ponta, a Pixar/Disney e a Dreamworks, que se tornaram mestres nesta arte. A qualidade atual e o preconceito que existe por parte de alguns encontra paralelo com o mundo dos quadrinhos. Ainda que nos segmentos dos heróis e dos comic books mais simples que encontramos nas bancas existam coisas bacanas, é no gênero das chamadas graphic novels que se encontram as verdadeiras pérolas. Literatura acompanhada de desenho da maior qualidade.

Voltando às animações, está em cartaz nos cinemas de todo o país o excelente "Como Treinar Seu Dragão", da Dreamworks (mesmo estúdio da série "Shrek" e de "Madagascar"). Trazendo a fantasia que é característica aos filmes do gênero, "Como Treinar Seu Dragão" tem uma dose extra de pimenta, com alguma maldade e até mesmo violência. Tudo dosado para agradar os adultos e não assustar demais as crianças. O herói é um garoto chamado Soluço, que passa longe de ser infalível e não sairá ileso das aventuras na ilha onde mora. A aldeia viking onde o pai de Soluço é o líder maior é frequentemente atacada por dragões e vive praticamente em função deles. Dragões dos mais diversos tipos, que fazem vôos razantes e cospem fogo por todos os lados. A obsessão é tanta que os mais novos (e aptos) passam por rigorosos testes para enfrentar os temidos animais. Não fazer parte do grupo dos caçadores é uma prova de fraqueza. Como é de se imaginar, Soluço não é o exemplo de guerreiro, mas acabará sendo o responsável por uma grande reviravolta. Ele, meio que por acaso, aprenderá a domar os dragões.

As cenas que ilustram essa descoberta estão, sem dúvida, entre as mais divertidas do filme. Mas são os vôos razantes que Soluço empreende em cima do temido dragão Fúria da Noite que representam os mais fantásticos momentos. Com o artifício do 3D, essas passagens ganham ainda mais em emoção. No IMAX de São Paulo, onde vi o filme, o resultado é ainda melhor. Tudo bem que pode se pensar que é mais um filme que embarca na onda da terceira dimensão, mas dá para dizer que essa é a animação que melhor soube utilizar o artifício até hoje. "Como Treinar Seu Dragão" entrega uma quase constatação: se ainda vai demorar um tanto para todos os filmes serem em 3D (até porque é uma técnica que não combina tanto com dramas e romances), vai ser difícil realizar animações que não adotem a tecnologia da moda.

domingo, 4 de abril de 2010

Big Brother Besta



Todo ano é a mesma história. Começam os anúncios de mais uma edição do Big Brother Brasil e eu prometo que não vou assistir. Que vou aproveitar o tempo para ler um livro, uma revista, ver um filme, jogar conversa fora. O mesmo acontece com as novelas das 8 (quer dizer, hoje em dia é novela de depois das 9...). Numa repetição sem graça, acabo cedendo lá pela terceira semana, quando já não aguento mais não participar das discussões cotidianas. Tenho esse problema, odeio ficar por fora. Deve ser coisa de jornalista, no meu caso potencializado. Sou capaz de pagar para ver um filme ruim, mesmo após inúmeros alertas, só para ter minha opinião própria. Por isso, mesmo sabendo que o BBB é um programa vazio, tendo consciência de que grande parte das pessoas lá são infantis e simplesmente não acreditando nos discursos patéticos de Pedro Bial, eu assisto. Mas calma: não sou daqueles que não saem de casa antes da dose diária do reality show, ainda bem. Se for o caso, confiro depois o resultado na Internet, sem dramas.

Bom, tudo isso para ressaltar - mais uma vez - que esse foi o último BBB que acompanhei! Também, um programa cujo diretor afirma que escolheu os piores candidatos para compor o elenco, só poderia ter como vencedor o pior de todos: o tal Marcelo Dourado. O ex-BBB conseguiu se impor à pretensa diversidade da casa e derrubou pelo menos dois dos gays sem qualquer esforço. Eliminou a patricinha, a alternativa, o fortão, o mauricinho, um por um. Dono de polêmicas declarações sobre AIDS, opção sexual, direito das mulheres, Dourado foi um verdadeiro desserviço à sociedade. Não bastasse as abobrinhas preconceituosas que soltava, o cara ainda era um porco de marca maior. Não há como negar, porém, que o troglodita soube agir como o tal "jogador" que tanto admiram no BBB e acabou conquistando grande parcela de fãs. Um mico para a Globo também, que inventou de colocar ex-participantes na casa. Como mensagem ficou a idéia de que essa edição estava fraca demais (afinal na primeira em que participou, Dourado nem na final chegou) ou que o fato de ele já conhecer a mecânica do jogo o ajudou - e muito.

Também entre os cinco finalistas, estava a tal da Lia, uma das participantes mais dissimuladas que já passaram pelo programa. Além de tudo, era uma verdadeira mala sem alça, colecionadora de intrigas e chorona de marca maior. Uma coisa é certa: a Globo ganhou uma atriz para a sua novelinha Malhação. Fingimento é com ela mesmo. Se bem que ela tem mais a pegada de novela da Band ou de alguma mexicana. Tem gente que gosta, não tem jeito, caso contrário Lia não teria enganado meio Brasil em vários paredões.

Quem deveria ganhar? Difícil dizer, mas o que tenho certeza é que entre os últimos da minha lista estariam Lia e Dourado. No grupo dos favoritos do público, os dois gays se mostraram fracos em levantar discussões interessantes e serviram mais como entretenimento. Boas risadas eles renderam, é bem verdade, mas não mais que isso. Fernanda, que começou o jogo muito mal, mudou de atitude e teve o seu auge nas últimas semanas. Poderia ter ganhado como recompensa pelas lideranças que conquistou com muita garra e por ter falado menos bobagem que os outros. Mas ainda assim foi pouco. Já Cadu era bonzinho demais, mas acabou se juntando com a corja de Dourado de Lia. Ou seja, por mais que esse passo tenha permitido que ele pegasse emprestada a popularidade da dupla, chegando à final, o meu voto ele não teria nunca. No frigir dos ovos, ninguém merecia 1,5 milhão de reais. Melhor seria acumular como na Mega Sena, esperando que na próxima edição algum merecedor de fato surgisse. Ah, mas deixa para lá, afinal eu prometi que a próxima edição eu não vejo mesmo...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Um thriller sueco


Ser jornalista e trabalhar com vários outros da mesma classe permite um intercâmbio de dicas de todo o tipo, especialmente as culturais (no meu caso). Lógico, existem pessoas das mais diversas formações que são interessantes fornecedoras, mas os jornalistas têm necessidade latente de indicar objetos culturais. Essa é uma das coisas que mais sinto falta dos tempos da redação de jornal. Por trabalhar em um caderno de cultura, alimentava essa minha ânsia em descobrir coisas novas com grandes jornalistas da área. Músicas, filmes, livros e quadrinhos aos borbotões. No meu novo trabalho, porém, fui surpreendido com outras cabeças pensantes e o troca-troca de dicas culturais não foi tão prejudicado. Adoro apresentar coisas novas para quem de fato se interessa e tenho imenso prazer em receber indicações de quem confio.

Uma das mais recentes foi a série Millenium, do sueco Stieg Larsson. Mesmo carregando a pecha de best-seller, o que acende o radar da desconfiança, a trilogia foge de soluções fáceis e oferece um emaranhado que mistura jornalismo, crime, suspense e mundo financeiro. Comprei a caixa completa, mas até o momento só li "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", o primeiro deles. Na realidade, devorei. As mais de 522 páginas foram consumidas em apenas quatro dias, muito por conta de uma longa viagem de avião - momento ideal para ler um bom livro. Com um personagem principal fortíssimo, o atormentado jornalista Mikael Blomkvist, e uma figura feminina das mais inusitadas, a esquisita investigadora e hacker Lisbeth Salander, "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" tem ritmo vertiginoso e vários personagens complexos e misteriosos.

Ambientado na Suécia do autor Stieg Larsson, a obra aproveita com precisão o clima frio e o bucolismo do interior escandinavo para criar um clima noir bem propício ao thriller. Condenado a prisão por suposta difamação a um marajá sueco - difamação esta realizada por meio de sua revista investigativa Millenium - Blomkvist é contratado por outro grande empresário para resolver um enigma. Ele deve descobrir o que aconteceu com a desaparecida Harriet Vanger, sobrinha do seu novo patrão Henrik. Para disfarçar o trabalho aparentemente absurdo (40 anos se passaram), ele deve escrever a biografia da endiabrada família Vanger. Partindo de mala e cuia para a inóspita ilha onde os Vanger vivem, Blomkvist vai passar pelas mais bizarras situações. Um livro forte, daqueles que prendem a atenção e nos deixam com um gosto de quero mais. Bom, terei esse gostinho com os outros dois livros da série, mas, infelizmente, não passará disso, pois o autor morreu logo depois de completar a trilogia. Ironicamente, sem recolher os louros de sua famosa obra.

* Em tempo: "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" ganhou uma versão para o cinema, na sua terra natal. A indústria de Hollywood, entretanto, já prometeu lançar a versão deles.

sábado, 20 de março de 2010

Invasão internacional

O Brasil está na moda; o dólar está relativamente baixo; o poder aquisitivo do brasileiro aumentou. Esses e outros argumentos podem ser utilizados para explicar a revoada de shows internacionais que o Brasil vem recebendo desde que 2010 começou. Uma tendência que já era anunciada nos últimos anos, a inclusão do Brasil (e dos seus vizinhos na América do Sul) na rota de alguns dos artistas que hoje importam no mundo da música já é realidade. Desde janeiro, já passaram por essas plagas Coldplay, Metallica, Guns N´Roses, Beyoncé, The Cranberries, B.B. King, Akon, Eagle Eye-Cherry, NOFX, A-Ha, entre outros grupos "menores". É bem verdade que nem todos eles ainda são relevantes, mas há para todos os gostos. Até maio, já existe outra leva de shows com ingressos à venda. Só em abril, são cinco: Moby, Placebo, Megadeth, Korn e Simply Red. Franz Ferdinand e Nelly Furtado tocam ainda em março e Aerosmith aporta por aqui em maio. Desta longa lista, este blog acompanhou Coldplay, Beyoncé e Metallica e também já colocou na agenda Franz Ferdinand, Moby, Placebo e Aerosmith (todos com ingressos garantidos). Se os rumores se confirmarem, mais uma graninha será gasta com Black Eyed Peas e Lady Gaga, cogitados para junho.

Aproveitando o gancho, este autor que vos fala fez um levantamento dos shows internacionais que já viu, desde a estréia em 2001 (em grande estilo, comparecendo a cinco dos sete dias do Rock in Rio 3). Foram 85 shows de 78 bandas gringas diferentes. Num exercício que demandou um pouco de paciência, levantei os 15 melhores que assisti. Vale lembrar que alguns dos que serão citados aqui não estão entre meus artistas favoritos, mas me surpreenderam ao vivo. E bandas que eu admiro nem sempre atendem as expectativas, muitas vezes por conta das condições do show. Foi o caso, por exemplo, do Red Hot Chilli Peppers (apresentação morna, no final da turnê, em 2001), Queens of The Stone Age (também no Rock in Rio, quando a banda ainda era pouco conhecida), Coldplay (som ridicularmente baixo, no recente show do Morumbi) e a dobradinha Arctic Monkeys e The Killers (prejudicados na caótica edição do Tim Festival de 2007, em São Paulo). Abaixo a lista, em ordem alfabética, pois arrumá-la em ordem de preferência já seria demais para mim...

Beyoncé - Morumbi/São Paulo - 2010



Essa história de colocar em ordem alfabética, tem também suas armadilhas. Beyoncé está longe do topo entre meus artistas favoritos, mas calhou de ser a primeira a aparecer por aqui. Mesmo com essa ressalva, devo confessar que a popstar americana me arrebatou com um verdadeiro espetáculo. Longe de ser uma cantora minuciosamente fabricada, Beyoncé canta e dança bem, sabe comandar uma platéia como poucos e se fez acompanhar de uma ótima banda formada só por mulheres. E o telão? Bom, só ele já seria motivo suficiente para colocar este show na lista dos 15 melhores.

The Breeders - Festival Planeta Terra/São Paulo - 2008



Kim Deal, também baixista do Pixies, é a garota mais encantadora do rock mundial. O sorriso dela, potencializado pela presença da irmã Kelley no Breeders, levanta o clima de qualquer ambiente. No Planeta Terra, enquanto o Bloc Party decepcionava em outro palco, as irmãs Deal fizeram um ótimo show. Mesmo não tão longo quanto eu queria, a apresentação trouxe clássicos como "Cannonball", "Divine Hammer" e a matadora versão de "Happyness Is a Warm Gun", dos Beatles.

The Flaming Lips - Festival Claro q é Rock/São Paulo - 2005



Wayne Coyne é um dos caras mais loucos e inventivos do rock. Figuraça, o vocalista do Flaming Lips transformou a Chácara do Jockey em um parque de diversões, colocando várias pessoas vestidas de bicho de pelúcia no palco, utilizando instrumentos pouco convencionais, armando um grande karaokê para o público cantar "Bohemian Rapsody" do Queen e andando por cima dos fãs dentro de uma bolha inflável. Tudo isso sem cair no ridículo. Acreditem, foi genial.

Franz Ferdinand - The Week/São Paulo - 2009



Na próxima terça (23/03), verei um show do Franz Ferdinand pela terceira vez. Provocado pelas ótimas apresentações anteriores, não pude perder mais uma. Em 2006, no Motomix, eles mandaram muito bem, mas foi na The Week, ano passado, que tive uma oportunidade única. Com poucos ingressos vendidos e uma quantidade relativamente pequena de convidados do patrocinador, os escoceses tocaram no esquema de pequeno club. Rara oportunidade no Brasil, ainda mais para bandas internacionais no auge. Energia e entrega a toda prova.

Guns N´Roses - Rock in Rio 3/Rio de Janeiro - 2001



Em 2001, o Guns N´Roses já parecia um dinossauro retalhado, depois de anos de brigas de Axl Rose com os outros integrantes. Em 2010, eles retornaram ao Brasil e, mesmo assim, continuaram enchendo arenas. Ultrapassado ou ainda importante no mundo da música? Não importa, o fato é que quando Axl Rose sobe no palco e despeja os antigos sucessos, não tem como ficar imune. A emoção corria solta em um dos shows mais esperados do terceiro Rock in Rio e, pelo menos naquelas quase duas horas, o Guns N´Roses importava sim.

Interpol - Via Funchal/São Paulo - 2008



O Via Funchal é um dos melhores espaços de show do Brasil, talvez o mais bacana de São Paulo. Nem sempre o show funciona à perfeição, mas na noite em que os novaiorquinos do Interpol tocaram, o som estava límpido como o estilo soturno da banda exige. A potente voz de Paul Banks, o instrumental preciso da banda e o repertório bem escolhido completou o cenário de um show que surpreendeu.

Muse - HSBC Brasil/São Paulo - 2008



Os ingleses do Muse têm uma grandiloqüência que pode soar exagerada para alguns, mas que me conquista há vários discos. Ao vivo, não poderia esperar menos da trupe liderada por Matthew Bellamy, que se alterna com competência entre a guitarra e o piano. Com um show virtuoso e o público em completa catarse, dava para atestar que ao vivo eles estão entre os melhores.

Neil Young - Rock in Rio 3/Rio de Janeiro - 2001



Pouco conhecia Neil Young quando ele me arrebatou em plena Cidade de Rock. Vestido com um surrado jeans e levando na cabeça o clássico chapéu de caubói, esse veterano canadense se fez acompanhar de outras três figuras do mesmo naipe, que atendem pelo nome de Crazy Horse, para um show do mais puro rock and roll. Sem qualquer cenário ou artefato para desviar atenção, os quatro preencheram aquele gigantesco palco somente com o talento a serviço de uma ótima música.

Pixies - Curitiba Pop Festival/Curitiba - 2004



O Pixies perde apenas para o Led Zeppelin entre as minhas bandas favoritas. Vê-los em carne e osso anos após a separação do grupo parecia algo bem próximo do impossível. Mas aconteceu na fria Curitiba, em um show recheado de canções do melhor do indie rock norte-americano. Estampando o mesmo sorriso bobo que os fãs não escondiam na platéia, Black Francis, Kim Deal, Joey Santiago e David Lovering mostraram que não perderam o entrosamento que fizeram deles uma das bandas mais cultuadas do mercado alternativo.

The Police - Maranã/Rio De Janeiro - 2007



Ainda que a estrutura ruim montada para o show deixasse a dever, no palco o the Police fez o que o grande público ali presente queria. Destilou os maiores sucessos dos anos 80 sem muita enrolação, deixando a platéia cantandoem uníssono canções que estão presas no imaginário de quem curte pop e rock. Tudo em clima de nostalgia e senso de oportunidade, afinal um novo retorno do Police é algo improvável.

Radiohead - Just a Fest/São Paulo - 2009



Sempre ouvi que o Radiohead era dono do melhor show do mundo. Depois de muitos anos de boatos, no ano passado pude enfim atestar que o título é mais do que merecido. Com som em volume e clareza impecáveis - coisa rara, ainda mais em ambientes amplos como a Chácara do Jockey -, Thom Yorke e seus parceiros mostraram uma competência notável. Um show emocionante de uma das bandas mais inventivas do mundo; obrigatório para todos que gostam de música.

R.E.M. - Rock in Rio 3/Rio de Janeiro - 2001




Tive sérias dúvidas na escolha entre esse primeiro show no Rock in Rio e a apresentação em 2008, no mais aconchegante Via Funchal. Ambos foram shows equilibrados em qualidade, com a sempre competente perfomance de Michal Stipe e cia. O ineditismo da experiência no Rio e a grandiosidade da Cidade do Rock, bem aproveitada por uma banda experiente, acabaram influenciando na decisão. Mesclando hits inesquecíveis com novas músicas, R.E.M. sempre manda bem.

Sonic Youth - Festival Planeta Terra/São Paulo - 2009



Na primeira vez que assisti ao Sonic Youth, no Claro q é Rock, achei a apresentação fria e longe do virtuosismo que esperava do grupo americano. Eles não deviam estar num bom dia, porque no Planeta Terra do ano passado, a história foi outra. Mesmo com um repertório que praticamente não incluiu as músicas mais conhecidas, o Sonic Youth mostrou como se faz um rock sujo e bem tocado.

System of a Down - Festival Super Bock Super Rock/Lisboa (Portugal) - 2005



Pouco antes do hiato que já vem durando tempo demais, o System of a Down foi um dos headliners do festival promovido pela cervejaria portuguesa Super Bock. Com o volume no talo, a polêmica banda norte-americana fez um showzaço. Ainda mais pesado que nos discos, o grupo liderado por Serj Tankian e Daron Malakian não deu tempo para o público respirar.

The White Stripes - Tim Festival/Rio de Janeiro - 2003



Em cada projeto que se envolve, Jack White dá um show. Mas é justamente no primeiro deles, o White Stripes, que o cantor e guitarrista se sobressai mais. Fazendo o seu trabalho de maneira genial, Jack faz até com que se esqueça como Meg White é ruim na bateria. Tirando solos incríveis do seu instrumento e cantando com alma, Jack White acaba suprindo a necessidade de uma banda completa, tomando conta de todo o palco.

domingo, 7 de março de 2010

Improvável cubana



Adoro viajar de avião. É bem verdade que é um programinha um tanto cansativo, em trajetos longos como a ida a Cuba. Aproveito o tempo teoricamente ocioso para ler um bom livro, adiantar a pilha de revistas que acumulo e tirar o atraso do sono. Não sou do tipo que curto um bate-papo interminável com o desconhecido da poltrona ao lado, prefiro curtir a temporária solidão em paz. Mas, de vez em quando, umas figuras especialmente interessantes desviam minha intenção. Na segunda perna da ida a Havana, no trecho entre a Cidade do Panamá e a capital cubana, sentou-se ao meu lado uma loira entupida de apetrechos dourados, vestida toda de branco (incluindo botas da mesma cor, de cano longo) e segurando uma maleta vermelho sangue - toda decorada com as garotas superpoderosas. Uma figura que não passa desapercebida nem no Carnaval da Bahia. Fiquei imaginando de onde saíra aquela mulher e aproveitei para bisbilhotar enqaunto ela preenchia o cartão da imigração. Não acreditei quando a vi colocando Cuba como país de nascimento. De fato, a imagem das senhoras elegantes e discretas do Buena Vista Social Club influenciaram nessa minha surpresa.

De repente, para completar, a loira começou a cantar baixinho alguma música típica de Cuba, numa afinação surpreendente. Cantava lindamente, mostrando que ali nas veias circulava sim algum sangue caribenho. Nada como algo improvável para quebrar um preconceito descabido. Em busca de alguma interação, ela me perguntou coisas triviais, como se o molho do frango era picante e se a sobremeda era boa. Bom, não estava muito a fim desse bate-papo de elevador, mas ela acabou se mostrando uma ótima narradora do caos que se passava fora da eronave. Logo antes da aterrissagem, uma turbulência que deixou apreensivo até quem não tem medo de avião (como eu), deu um pouco de emoção aos minutos finais do vôo. O branco absoluto na janela, o balanço interminável do avião, tudo culminou no pior pouso que já presenciei. O alívio era tanto que até as irritantes palmas no final fizeram algum sentido. Como saldo final foi, de fato, um trajeto bem interessante, com o brinde da descoberta de que também existem cubanas no estilo Miami Beach, ainda morando na Ilha.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ilha dos símbolos



Existe uma natural curiosidade do estrangeiro em conhecer Cuba, país que há anos sofre um forte embargo dos Estados Unidos e que ficou conhecido no mundo inteiro pelo socialismo implantado pelo ditador Fidel Castro. Seja por sua música, suas bebidas típicas, suas praias, seus charutos ou sua fama de nação que parou na década de 60, Cuba tornou-se um destino desejado. Há muito de mística nisso tudo, mas de fato Havana é uma cidade das mais simpáticas. Apoiando ou não o regime dos irmãos Castro, há muito o que se ver e há muita cultura para admirar nessa pequena ilha do Caribe. É bem verdade que pouco tempo tive para andar nas ruas de Havana Vieja e que não fui às famosas praias de Varadero e Cayo Largo, mas as impressões iniciais não costumam falhar.

Primeira constatação: nunca, sob nenhuma hipótese nas próximas cinco gerações, será possível implantar uma lei antifumo em Cuba, nos moldes da que vem sendo disseminada no Brasil. Instituição nacional e dono de uma fumaça frondosa, o charuto cubano é visto por todas as partes. Logo no aeroporto, ao entrar num minúsculo elevador com outras quatro pessoas, vi um senhor fumava seu "puro" sem qualquer cerimônia. A fumaça, claro, inundava o ambiente. Nas ruas, representantes do mercado negro oferecem caixas de 25 unidades por preços bem mais acessíveis que nas lojas, de marcas famosas como Cohiba, Partagas e Montecristo. Mesmo comprando nos pontos, digamos, oficiais, uma caixa de um bom charuto cubano sai por muito menos que em qualquer lugar fora da ilha.

Nas ruas de Havana, circula outro símbolo: o carrão antigo. Por conta do embargo, grandes automóveis americanos dos anos 50 ainda existem em grande quantidade na cidade - uns em bom estado, outros caindo aos pedaços. Andar em um deles - algo bem possível, afinal muitos são táxis - virou programa turístico. Só é necessário fugir de uma praga, os carros russos da Lada, que sumiram do Brasil, mas ainda infestam Havana. Mas engana-se quem acha que os automóveis antigos reinam sozinhos. Carros modernos japoneses, europeus, latino-americanos, ou seja, quaisquer menos os norte-americanos, já existem aos montes na capital. Em quantidade bem maior do que eu imaginava, devo confessar. A rejeição a produtos americanos, como é de se imaginar, não se restringe aos carros novos, mas também a todos os outros produtos da cadeia de consumo. Inclusive, ao fazer o câmbio, utilize o euro, pois o pouco querido dólar sofre uma taxação maior que as outras moedas. A princípio você pode até achar que a Coca-Cola encontrada nos bares e restaurantes é uma exceção, mas os cubanos justificam que aquela Cola é fabricada no México. Bom, é verdade, mas acho que nessa Fidel falhou, não é mesmo?

Andar em Havana Vieja é de fato uma experiência única. Nos muros, frases como "El sistema socialista es intocable" e ilustrações de ícones como Che Guevara e Simón Bolívar dão o clima apropriado. Construções anteriores ao regime socialista, como o imponente Capitólio, o Castelo de San Salvador de La Punta e belas igrejas, dividem espaço com sobrados caindo aos pedaços. Não há miséria aparente nas ruas, mesmo que a pobreza moderada seja constante, mas sempre há pessoas que buscam um dinheirinho a mais (a famosa propina) para compensar o pouco salário que recebem do governo. Ser brasileiro, nesse caso, é vantagem, pois a admiração deles por nós é nítida e é mais fácil levá-los na simpatia. Infraestrutura é um problema, principalmente quando se fala em grandes obras (que não acontecem há mais de 50 anos) e em novas tecnologias, como a Internet (lentíssima em todo canto).

Entre os programas imperdíveis, não há como deixar de lado o delicioso mojito e o daikiri, drinks que descem redondos feitos de outro clássico cubano, o rum. Se o programa etílico for acompanhado de música típica, como no Bodeguita del Medio - onde Ernest Hemingway tomava os seus porres -, melhor ainda. Afinal, não podemos esquecer que Cuba é a terra do Buena Vista Social Club e de muitos outros grandes músicos, que praticam uma música que transborda em latinidade e emoção.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Uma vida marginal


Dentro da farofada que virou a categoria de "Melhor Filme" do Oscar, com dez candidatos ao título, uma pequena pérola independente se destaca. Com atuações de tirar o fôlego, roteiro correto e direção segura para um cinesta praticamente estreante, "Preciosa" é um filme poderoso. A história da garota negra, pobre e obesa, que é maltratada pela mãe e abusada pelo pai, tendo dois filhos frutos deste incesto, tinha tudo para virar um dramalhão daqueles. Mas muito por conta da boa condução do diretor Lee Daniels, que segura um tom um pouco mais seco e encontrou soluções narrativas que dão algum fôlego a trágica vida de Precious, o filme passa longe de um escorregão sentimentalista. Ainda assim, não há como não sentir pena da personagem interpretada com brilho pela novata Gabourey Sidibe. Ela não percebe com precisão o absurdo que é sua vida e acaba levando tudo como parte de sua rotina. E é isso que causa mais comoção em quem assiste ao filme.

Se Gabourey Sidibe dá um show imprimindo verdade à uma Precious jogada à marginalidade, a apresentadora de tevê e atriz Mo´Nique não fica para trás. Como Mary, mãe da protagonista, ela encarna a principal vilã do filme, tratando a filha com violência e desprezo. Amarga e sem um pingo de afeição por qualquer pessoa que esteja ao seu redor, ela não tem chance alguma de sair do mundo asqueroso em que se meteu. Em uma das últimas cenas do filme, ao lado de Precious e da assistende social interpretada pela cantora Mariah Carey, a personagem tenta justificar todos os horreres que cometeu. Só esse momento já valeria o Oscar de atriz coadjuvante que vem sendo dado como certo para Mo´Nique. Por sinal, outra que não faz feio é a própria Mariah Carey. Se como cantora, a garota é um enjôo em pessoa, como atriz ela mostra talento, desprovida de toda a produção que geralmente a rodeia. Fica até difícil reconhecê-la. Do mundo da música, quem aparece também no filme é Lenny Kravitz, num papel pouco importante, mas sem comprometer.

Filme denso e que até passa uma ponta de esperança, "Preciosa" dificilmente levará as estatuetas de melhor filme e melhor diretor do Oscar. Pequeno demais para os padrões da Academia, ele já saiu ganhando pelas merecidas seis indicações ao prêmio. E deverá sair laureado pelo menos com o troféu de atriz coadjuvante. A torcida desse blog, entretanto, é para que o filme saia com pelo menos mais um prêmio: o de melhor atriz para Gabourey Sidibe, a simpática novata que se tornou uma estrela do cinema mesmo estando totalmente fora dos padrões hollywoodianos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A mulata deles


Tenho plena noção do risco que estou correndo. Minha "fama" de roqueiro, meu livre andar pelas ruas do Rio Vermelho baiano e pela Rua Augusta em Sampa, a relativa credibilidade dos tempos em que era jornalista de cultura - tudo isso pode ficar na berlinda, pelo menos para alguns. Mas não há como negar que minha obrigação de (ex-) repórter de Cultura é escrever com sinceridade. No sábado passado, fui ao show de Beyoncé no estádio do Morumbi, em São Paulo. Não criei muita expectativa, coisa que geralmente não consigo fazer. Quanto mais um evento se aproxima, mais ansioso eu costumo ficar. Pois bem, não é que a morenaça americana fez um show de primeira, um verdadeiro espetáculo? Com a segurança de quem hoje é uma das maiores vendedoras de discos do mundo, Beyoncé demonstrou ter completo domínio do público e hipnotizou os presentes. No exato momento em que ela entrou no palco, todos esqueceram que ali estivera a cantora mais famosa do Brasil, Ivete Sangalo. A partir dali, era só Beyonce que importava.

O primeiro impacto do show veio com o telão impressionante cobrindo todo o fundo do palco. De fato merecedor do título de alta-definição, o aparato visual da turnê "I am..." é assustador e traz uma Beyoncé gigantesca para os fãs. Não importa em que ponto do estádio você está, ela vai te dominar. O bom som, alto e límpido (diferentemente do show de Ivete), colaborou ainda mais para a plena fruição do público.

Entendo perfeitamente aqueles que não gostam da música da artista americana, mas não curtir o espetáculo desta noite em questão parecia algo improvável para quem admira os grandes eventos. Bonita, sensual, ótima cantora e excelente dançarina, Beyoncé ainda montou uma banda só de mulheres, instrumentistas de qualidade. Duas baterias e um jogo de percussão colaboraram ainda mais para a potência do espetáculo, que durou cronometradas duas horas. Após todos os sucessos tocados, a simpatia esbanjada, as brincadeiras com a platéia, a emoção que não conseguiu disfarçar frente as mais de 60 mil pessoas, Beyoncé provou que hoje é uma estrela de escala mundial. Só uma pergunta persiste: o que diabos ela viu no rapper bad boy Jay Z?!?!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Detetive repaginado


Que me perdoem os puristas, mas o novo "Sherlock Holmes" é uma das coisas mais bacanas entre os filmes de ação que estrearam nos últimos meses. Longe da naftalina, ele aparece no novo trabalho do diretor Guy Ritchie encarnado pelo sempre ótimo Robert Downey Jr. e na companhia de um esperto Dr. Watson, papel de Jude Law. Com a velocidade e edição recortada que é caractéristica nos filmes anteriores do ex-marido de Madonna, a exemplo de "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" e "Snatch", "Sherlock Holmes" não tem medo de modernizar o personagem, mantendo algumas caracteríticas que permitem a identificação do personagem clássico, mas inovando em outras tantas. O detetive inglês não impressiona apenas pelos seus atributos intelectuais, aqui ele é ágil, sai na porrada e também leva alguns socos e chutes. Sherlock é um tanto quanto paranóico e dependente de medicações, além de não ter muito talento para manter suas relações pessoais. Ao lado dele, mais que um Robin em versão vitoriana, Dr. Watson é uma grata surpresa, peça fundamental para o sucesso do seu parceiro mais famoso.

Os fãs mais antigos podem até reclamar do fato do filme se aproximar mais da ação do que de um suspense mais intelectual que o personagem também pode inspirar. Mas é inegável que "Sherlock Holmes"é um bom entretenimento, tem roteiro amarradinho, com boa reconstituição de época e atuações acima da média. quem se sobressai é de fato o ator principal Roberto Downey Jr. Depois de visitar o inferno e se manter por um bom tempo no purgatório, o novaiorquinho está de novo por cima da carne seca. Ele surgiu como uma grata revelação do cinema americano, mas durante a década de 90 passou das páginas de cultura para a seção de polícia dos jornais, num martírio entre as clínicas de reabilitação de drogas e as delegacias. Não por acaso, sua carreira foi entrando em decadência, com filmes ruins e atuações apagadas. Já na década de 2000, ele se recuperou e passou a colecionar uma série de atuações destacadas, como em "Zodíaco", "Trovão Tropical", "O Solista" e, principalmente, "Homem de Ferro". Longa vida, pois, ao renovado e talentoso Bob Downey.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os discos nacionais da década

Confesso que escuto muito mais música internacional que música brasileira. Isso não significa, entretanto, que o que é feito no nosso país não tenha qualidade. Tem muita, mas minha discografia pende mais para o exterior, por gosto, afinidade, influência, costume; não sei bem ao certo. Do que melhor se faz por essas terras, curto muito o rock alternativo baiano e brasileiro, alguns artistas chegados ao mainstream (Los Hermanos, Nação Zumbi, Vanessa da Mata, Pato Fu, etc), medalhões (lista extensa, que vai de Jobim a Caetano, passando por Chico, Ben Jor, Bethânia...) e por aí vai. Nesta década, 15 artistas fizeram minha cabeça - aqui vão eles, com seus respectivos discos:

Arnaldo Antunes - Iê Iê Iê (2009)



Arnaldo geralmente não decepciona com seus álbuns de estúdio e com os sempre bem elaborados shows que apresenta. Em 2009, porém, ele surpreendeu com o melhor álbum desde que saiu do Titãs. Iê Iê Iê, como o nome entrega, é para cima, traz ótimos rocks e renova o interesse pelo trabalho do artista paulista.

Caetano Veloso - Cê (2006)



Fazendo jus à fama de que nunca pára quieto e que sempre se renova, Caetano se juntou a três garotos e entregou um álbum que tem alma indie, mas ainda assim não perde a cara do baiano. Com cheiro de sexo e suor, "Cê" é polêmico e colocou Caê numa nova rota, bem mais jovial.

Carlinhos Brown - A Gente Ainda Não Sonhou (2007)



Exímio percussionista, letrista inventivo e criador da Timbalada, Carlinhos Brown também leva uma carreira solo das mais interessantes. Na década de 90, lançou dois ótimos discos, "Alfagamabetizado" (1996) e "Omelete Man" (1998), e nos anos 2000, lançou o vibrante "A Gente Ainda Não Sonhou", que traz a mistura de ritmos que lhe é peculiar, com muita percussão.

Cascadura - Bogary (2006)



A guinada que o Cascadura deu a partir do ótimo "Vivendo em Grande Estilo" (2004), deixando o rock setentista um pouco de lado e incorporando influências mais contemporâneas como Muse e Queens of The Stone Age, colocou o grupo na linha de frente do rock baiano. Com a porrada de "Bogary", o Casca apresenta o que o rock baiano tem de melhor.
** Menção honrosa da mesma banda: Vivendo em Grande Estilo (2004).

Cidadão Instigado - Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências (2005)



Não é de se surpreender quando alguém classifica a banda de Fernando Catatau como estranha. É de fato bem esquisita, original e surpreendente. Juntando brega, psicodelia, guitarras inventivas e indie rock, o Cidadão Instigado lançou alguns bons discos nesse década, o melhor deles sendo "O Método Tufo de Experiências".
** Menção honrosa da mesma banda: Uhuuu (2009).

Little Joy - Little Joy (2008)



Alguns podem até discutir se esse é um disco brasileiro ou não, mas quem viu algum show do Little Joy sabe que o protagonista deste projeto é mesmo Rodrigo Amarante, (ex?)-Los Hermanos. Com uma sonoridade, digamos, mais californiana, a estréia do grupo que tem ainda Fabrizio Moretti (do Strokes) como integrante, é uma grata (e solar) surpresa.

Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho (2001)



Disco responsável pela conquista de uma legião de fãs fiéis, o "Bloco do Eu Sozinho" se afasta completamente da estréia do Los Hermanos, que trazia o maior hit da banda até hoje, a batida "Anna Júlia". O "Bloco" é maduro, traz excelentes letras da dupla Camelo-Amarente, um primoroso trabalho de sopro e grandes canções como "A Flor", "Retrato pra Iaiá" e "Sentimental".
** Menção honrosa da mesma banda: Ventura (2003).

Marcelo D2 - À Procura da Batida Perfeita (2003)



Nunca fui grande fã do Planet Hemp, mas devo confessar que Marcelo D2 acerto em cheio com "À Procura da Batida Perfeita", disco que marcou o ano de 2003. Misturando hip hop com rock e samba, D2 quase encontra a tal batida perfeita. Pena que nos discos seguintes tenha desgastado demais a fórmula.

Mombojó - Nadadenovo (2004)



Alcançando um interessante grau de lirismo, os pernambucanos do Mombojó estreiaram com um disco redondinho, bem tocado, com letras interessantes e de fácil assimilação. E melhor: fugiram do mangue beat, mostrando que Pernambuco também tem bandas boas que não rezam a cartilha de Chico Science.

Mutantes - Mutantes Ao Vivo - Brabican theater, Lindres 2006 (2006)



Foi por um fugaz momento, mas os irmãos Baptista se reuniram e despejaram magia em Londres em um CD/DVD que fez jus à trajetória brilhante do talvez melhor grupo de rock que o Brasil já teve. Rolaram mais alguns shows, mas logo Arnaldo largou a banda, levando consigo a convidada Zélia Duncan. Sérgio Dias, desde então, mantém o Mutantes na ativa.

Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007)



Depois da morte de Chico Science, a Nação Zumbi demorou um pouco para encontrar seu rumo. Se "Futura" (2005) os colocou novamente na rota, foi "Fome de Tudo" que fez os fãs enterrarem de vez o antigo vocalista. Jorge du Peixe enfim achou o tom correto, Lúcio Maia continuou destruindo na guitarra e a percussão voltou a explodir como nos bons tempos.
** Menção honrosa da mesma banda: Futura (2005).

Retrofoguetes - Chachachá (2009)



Não há dúvida que a banda baiana Retrofoguetes destrói mesmo é no palco, com performances matadoras de Morotó (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria). Difícil batê-los. Mas em disco, os caras também mandam bem, como no recente "Chachachá", que vai do tango a valsa, passando pela surf music. Bem mais coeso que a estréia, "Chachachá" é uma aula da boa música instrumental.
** Menção honrosa da mesma banda: Ativar Retrofoguetes! (2003).

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - Frascos Comprimidos Compressas (2009)



Difícil escolher entre o primeiro e o segundo álbum do grupo Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta. Não menos que excelentes, os discos equilibram o inventivo instrumental dos Ladrões com a poesia e entrega do vocalista e letrista Ronei Jorge. Melhor produzido que o primeiro, "Frascos Comprimidos Compressas" leva o título por ser ainda mais "brasileiro" que o début.
** Menção honrosa da mesma banda: Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta (2005).

Vanessa da Mata - Sim (2007)



Depois de trabalhos apenas razoáveis e um tanto quanto irregulares, Vanessa da Mata acertou em cheio com "Sim". Para além da propalada parceria com Ben Harper em "Boa Sorte/Good Luck", o disco tem uma levada deliciosa, com boas baladas e algumas ótimas canções mais chegadas ao reggae, fruto da colaboração com os jamaicanos Sly e Robbie.

Zeferina Bomba - Noisecoregroovecocoenvenenado (2006)



Porrada sonora dos paraibanos da Zefirina Bomba, "Noisecoregroovecocoenvenenado" é um disco curto, direto. Punk nordestino da melhor estirpe, o disco é levado por uma viola caipira distorcida, o que imprime uma aura ainda mais garageira ao grupo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os discos internacionais da década

Essa lista é das mais difícies. Comecei com uma relação de 10, aumentei para 15 e por fim cheguei aos 20. Ainda faltam vários discos, confesso, mas acabei optando mais uma vez por aqueles que me emocionaram. Algumas bandas mereciam encaixar ao menos dois discos, mas continua valendo a regra de um álbum por artista (e da aprresentação deles em ordem alfabética). Dois trabalhos recém-lançados ficaram de fora por ainda não terem sido maturados como deviam: "Horehound" (The Dead Weather) e o début homônimo do Them Crooked Vultures (a banda mais excitante que surgiu em 2009, com Josh Homme, John Paul Jones e Dave Ghrol). Mesmo pouco ouvidos, os dois discos pegaram de jeito esse que vos fala. Porém, pesou a indecisão e os novatos acabaram ficando de fora. Coisa que só uma futura revisão pode consertar.

Amy Winehouse - Back to Black (2006)



Muito se falou sobre Amy Winehouse desde que a inglesa estorou pelo mundo. Infelizmente, os maiores destaques foram para assuntos extra-música, de uma cantora um tanto desequilibrada e atolada em drogas. "Back to Black", entretanto, é sim um excelente álbum, com vigor soul, voz impressionante e hits que grudam. Resta agora esperar por um sucessor classe A - se é que ele virá.

Arcade Fire - Funeral (2004)



Big band das mais inusitadas, o Arcade Fire ficou conhecido pelos shows vibrantes, com troca de instrumentos e catarse sonora. O disco "Funeral" prova que eles são bons também em estúdio. Faixas como "Rebellion (Lies)" equilibram bons arranjos com emoção, numa sonoridade repleta de camadas. É um disco que cresce após seguidas execuções.

Coldplay - A Rush of Blood To The Head (2002)



Obra-prima do Coldplay, esse segundo lançamento colocou o grupo entre os maiores do mundo. Os discos seguintes ainda não repetiram a excelência e inventividade do "A Rush...". Sem guitarras e com um dos pianos mais bem colocados do pop/rock mundial, o Coldplay não soa chato em nenhum momento e não exagera na emoção - como fez em alguns momentos posteriores.

Damien Marley - Welcome to Jamrock (2005)



Mesmo não sendo o mais conhecido dos filhos de Bob Marley, é de Damien o melhor disco de reggae da década. Misturando o ritmo jamaicano com outros gêneros, principalmente o rap, ele saiu da mesmice e apresentou uma música vibrante e solar.

Flaming Lips - Yoshimi Battles The Pink Robots (2002)



Sensível e viajante disco da banda liderada pelo louco Wayne Coyne, "Yoshimi Battles..." é praticamente um disco conceitual, sem a chatice que essa palavra muitas vezes carrega. Investindo nos barulinhos e dosando bem as esquisitices, o grupo cometeu o seu melhor trabalho dos anos 2000. Foi a base do ótimo show que eles fizeram no Claro que é Rock, em São Paulo e no Rio.

Franz Ferdinand - You Could Have It So mUch Better (2005)



O rock dançante da banda escocesa já impressionou no primeiro e homônimo disco de estúdio, conquistando de cara uma horda de fãs (eu entre eles). Neste segundo trabalho, Alex Kapranos e cia apuraram ainda mais a sonoridade, numa produção mais madura e recheada de hits como "Do You Want To" e "Walk Away".
** Menção honrosa da mesma banda: Franz Ferdinand (2004).

Gnarls Barkley - St Elsewhere (2006)



Álbum que traz uma das melhores músicas da década, "Crazy", "St Elsewhere" é uma pérola da música negra. A parceria do produtor e DJ Danger Mouse com a bela voz de Cee-Lo fez a festa dos que curtem soul com toques da eletrônica e do rap.

Johnny Cash - American IV - The Man Comes Around (2002)



Já no finalzinho de sua vida, o grande Johnny Cash entregou mais um disco da série American Recordings. Com uma voz ainda hipnotizante, o veterano gravou um disco que pode levar o ouvinte às lágrimas. Destaque para a já clássica versão de "Hurt", do Nine Inch Nails.

Kings of Leon - Aha Shake Heartbreak (2004)



Já fugindo um pouco do tom sulista do primeiro álbum, o Kings of Leon se aproxima mais do rock´n´roll para entregar o seu disco mais equilibrado. Hoje um dos principais grupos do mundo, aqui eles consolidaram a carreira com músicas fortes como "Pistol of Fire" e "The Bucket".
** Menção honrosa da mesma banda: Youth and Young Manhood (2003).

Lily Allen - It´s Not Me, It´s You (2009)



Esse disco foi o responsável por derrubar preconceitos em relação à jovem cantora inglesa. Se na apresentação que fez no festival Planeta Terra, em 2007, a garota decepcionou, no ano passado, no Via Funchal, ela mandou muito bem. Bom do início ao fim, "It´s Not Me, It´s You" é um disco pop que beira a perfeição.

Morrissey - You Are The Quarry (2004)



Melhor trabalho de Morrissey desde "Viva Hate" (1988), "You Are The Quarry" traz as letras ferinas e o rockinho bacana que este inglês apresenta desde os tempos do The Smiths. São vários os destaques aqui, mas dá para apontar "Irish Blood, English Heart", "I Have Forgiven Jesus", "The World is Full of Crashing Bores" e "Let Me Kiss You" como as principais.

Muse - Absolution (2003)



Esse disco é para ouvir com o volume no talo. Foi a partir dele que o Muse se tornou verdadeiramente grande e passou a fazer shows excepcionais. É a obra dos ingleses que melhor equilibra o bom rock com a megalomania de Matthew Bellamy.
** Menção honrosa da mesma banda: Black Holes and Revelations (2006).

Queens of The Stone Age - Songs for The Deaf (2002)



Porrada sonora de uma das melhores bandas da atualidade, "Songs for The Deaf" traz a formação campeã do Queens of The Stone Age, liderada por Josh Homme, com Nick Oliveri no baixo e Dave Ghrol fazendo um trabalho primoroso na bateria. São diversas as boas faixas, mas "No One Knows" talvez seja a mais redonda de todas.
** Menção honrosa da mesma banda: Era Vulgaris (2007).

Radiohead - In Rainbows (2007)



Depois do incomparável "OK Computer" (1997), a trupe de Thom Yorke fez alguns discos difícies (e chatos) como "Kid A" (2000) e "Amnesiac" (2001), e uma obra mais acessível e apenas boazinha, o "Hail to The Thief" (2003). Dez anos depois, veio "In Rainbows" para mostrar que eles ainda têm muito a oferecer. Disco redondinho, com ótimas canções que crescem ainda mais ao vivo, como eles mostraram ano passado no Brasil.

The Killers - Hot Fuss (2004)



O melhor disco do The Killers continua sendo o début "Hot Fuss". Saudades dos tempos que os caras não eram assim tão megalomaníacos e não sonhavam em ser o novo U2. Aqui, está uma das sequências mais matadoras de abertura de disco, com as faixas "Jenny Was a Friend of Mine", "Mr. Brightside", "Smile Like You Mean It" e "All These Things That I´ve Done".

The Strokes - Is This It (2001)



Até hoje impactante, por ter influenciado um grande número de bandas na década, o incessado "Is This It" tocou demais, porém entra fácil na lista dos melhores dos anos 2000. Puxado pelo hit "Last Nite", é um bom disco de garagem, com um desleixo calculado e melodias que grudam.

The White Stripes - Elephant (2003)



Disco que traz o maior hit da dupla Jack e Meg White, "Seven Nation Army", "Elephant" ganha dos outros ótimos álbuns do grupo pelo conjunto da obra e por trazer uma guitarra ligada no volume 10. Um dos grandes protagonistas dos anos 2000, Jack White destrói mesmo carregando o peso morto que é Meg na bateria.
** Menção honrosa da mesma banda: De Stijl (2000).

Vampire Weekend - Vampire Weekend (2008)



Disco deliciosamente esquisito, "Vampire Weekend" chama a atenção desde a primeira audição e cresce a cada nova. Indie até o talo, traz influências do pop africano precisamente dosadas. Além de tudo, é discretamente dançante, como atestam as faixas "Mansard Roof" e "Oxford Comma". O futuro é promissor para esse caçula dos anos 2000.

Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)



Uma das bandas mais completas da atualidade, o Wilco lançou uma série de bons discos nos anos 2000, mas o melhor deles foi sem dúvida "Yankee Hotel Foxtrot". Responsável por uma guinada sonora que levou o Wilco para mais perto do folk e do experimental, o disco é denso, mas fez relativo sucesso comercial. É daqueles trabalhos que não cansamos de ouvir e de descobrir novas nuances.
** Menção honrosa da mesma banda: Sky Blue Sky (2006).

Yeah Yeah Yeahs - Show Your Bones (2006)



Se a estréia "Fever to Tell" (2003) trazia uma ensandecida Karen O numa atmosfera punk, "Show Your Bones" é um pouco mais comedido e traz, inclusive, algumas ótimas baladas. O mais bacana do YYYs é justamente isso: cada disco traz uma identidade própria bem definida. Aqui, as melhores notas vão para "Gold Lion", "Way Out" e "Cheated Hearts".
** Menção honrosa da mesma banda: Fever to Tell (2003).