quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Uma vida marginal


Dentro da farofada que virou a categoria de "Melhor Filme" do Oscar, com dez candidatos ao título, uma pequena pérola independente se destaca. Com atuações de tirar o fôlego, roteiro correto e direção segura para um cinesta praticamente estreante, "Preciosa" é um filme poderoso. A história da garota negra, pobre e obesa, que é maltratada pela mãe e abusada pelo pai, tendo dois filhos frutos deste incesto, tinha tudo para virar um dramalhão daqueles. Mas muito por conta da boa condução do diretor Lee Daniels, que segura um tom um pouco mais seco e encontrou soluções narrativas que dão algum fôlego a trágica vida de Precious, o filme passa longe de um escorregão sentimentalista. Ainda assim, não há como não sentir pena da personagem interpretada com brilho pela novata Gabourey Sidibe. Ela não percebe com precisão o absurdo que é sua vida e acaba levando tudo como parte de sua rotina. E é isso que causa mais comoção em quem assiste ao filme.

Se Gabourey Sidibe dá um show imprimindo verdade à uma Precious jogada à marginalidade, a apresentadora de tevê e atriz Mo´Nique não fica para trás. Como Mary, mãe da protagonista, ela encarna a principal vilã do filme, tratando a filha com violência e desprezo. Amarga e sem um pingo de afeição por qualquer pessoa que esteja ao seu redor, ela não tem chance alguma de sair do mundo asqueroso em que se meteu. Em uma das últimas cenas do filme, ao lado de Precious e da assistende social interpretada pela cantora Mariah Carey, a personagem tenta justificar todos os horreres que cometeu. Só esse momento já valeria o Oscar de atriz coadjuvante que vem sendo dado como certo para Mo´Nique. Por sinal, outra que não faz feio é a própria Mariah Carey. Se como cantora, a garota é um enjôo em pessoa, como atriz ela mostra talento, desprovida de toda a produção que geralmente a rodeia. Fica até difícil reconhecê-la. Do mundo da música, quem aparece também no filme é Lenny Kravitz, num papel pouco importante, mas sem comprometer.

Filme denso e que até passa uma ponta de esperança, "Preciosa" dificilmente levará as estatuetas de melhor filme e melhor diretor do Oscar. Pequeno demais para os padrões da Academia, ele já saiu ganhando pelas merecidas seis indicações ao prêmio. E deverá sair laureado pelo menos com o troféu de atriz coadjuvante. A torcida desse blog, entretanto, é para que o filme saia com pelo menos mais um prêmio: o de melhor atriz para Gabourey Sidibe, a simpática novata que se tornou uma estrela do cinema mesmo estando totalmente fora dos padrões hollywoodianos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A mulata deles


Tenho plena noção do risco que estou correndo. Minha "fama" de roqueiro, meu livre andar pelas ruas do Rio Vermelho baiano e pela Rua Augusta em Sampa, a relativa credibilidade dos tempos em que era jornalista de cultura - tudo isso pode ficar na berlinda, pelo menos para alguns. Mas não há como negar que minha obrigação de (ex-) repórter de Cultura é escrever com sinceridade. No sábado passado, fui ao show de Beyoncé no estádio do Morumbi, em São Paulo. Não criei muita expectativa, coisa que geralmente não consigo fazer. Quanto mais um evento se aproxima, mais ansioso eu costumo ficar. Pois bem, não é que a morenaça americana fez um show de primeira, um verdadeiro espetáculo? Com a segurança de quem hoje é uma das maiores vendedoras de discos do mundo, Beyoncé demonstrou ter completo domínio do público e hipnotizou os presentes. No exato momento em que ela entrou no palco, todos esqueceram que ali estivera a cantora mais famosa do Brasil, Ivete Sangalo. A partir dali, era só Beyonce que importava.

O primeiro impacto do show veio com o telão impressionante cobrindo todo o fundo do palco. De fato merecedor do título de alta-definição, o aparato visual da turnê "I am..." é assustador e traz uma Beyoncé gigantesca para os fãs. Não importa em que ponto do estádio você está, ela vai te dominar. O bom som, alto e límpido (diferentemente do show de Ivete), colaborou ainda mais para a plena fruição do público.

Entendo perfeitamente aqueles que não gostam da música da artista americana, mas não curtir o espetáculo desta noite em questão parecia algo improvável para quem admira os grandes eventos. Bonita, sensual, ótima cantora e excelente dançarina, Beyoncé ainda montou uma banda só de mulheres, instrumentistas de qualidade. Duas baterias e um jogo de percussão colaboraram ainda mais para a potência do espetáculo, que durou cronometradas duas horas. Após todos os sucessos tocados, a simpatia esbanjada, as brincadeiras com a platéia, a emoção que não conseguiu disfarçar frente as mais de 60 mil pessoas, Beyoncé provou que hoje é uma estrela de escala mundial. Só uma pergunta persiste: o que diabos ela viu no rapper bad boy Jay Z?!?!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Detetive repaginado


Que me perdoem os puristas, mas o novo "Sherlock Holmes" é uma das coisas mais bacanas entre os filmes de ação que estrearam nos últimos meses. Longe da naftalina, ele aparece no novo trabalho do diretor Guy Ritchie encarnado pelo sempre ótimo Robert Downey Jr. e na companhia de um esperto Dr. Watson, papel de Jude Law. Com a velocidade e edição recortada que é caractéristica nos filmes anteriores do ex-marido de Madonna, a exemplo de "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" e "Snatch", "Sherlock Holmes" não tem medo de modernizar o personagem, mantendo algumas caracteríticas que permitem a identificação do personagem clássico, mas inovando em outras tantas. O detetive inglês não impressiona apenas pelos seus atributos intelectuais, aqui ele é ágil, sai na porrada e também leva alguns socos e chutes. Sherlock é um tanto quanto paranóico e dependente de medicações, além de não ter muito talento para manter suas relações pessoais. Ao lado dele, mais que um Robin em versão vitoriana, Dr. Watson é uma grata surpresa, peça fundamental para o sucesso do seu parceiro mais famoso.

Os fãs mais antigos podem até reclamar do fato do filme se aproximar mais da ação do que de um suspense mais intelectual que o personagem também pode inspirar. Mas é inegável que "Sherlock Holmes"é um bom entretenimento, tem roteiro amarradinho, com boa reconstituição de época e atuações acima da média. quem se sobressai é de fato o ator principal Roberto Downey Jr. Depois de visitar o inferno e se manter por um bom tempo no purgatório, o novaiorquinho está de novo por cima da carne seca. Ele surgiu como uma grata revelação do cinema americano, mas durante a década de 90 passou das páginas de cultura para a seção de polícia dos jornais, num martírio entre as clínicas de reabilitação de drogas e as delegacias. Não por acaso, sua carreira foi entrando em decadência, com filmes ruins e atuações apagadas. Já na década de 2000, ele se recuperou e passou a colecionar uma série de atuações destacadas, como em "Zodíaco", "Trovão Tropical", "O Solista" e, principalmente, "Homem de Ferro". Longa vida, pois, ao renovado e talentoso Bob Downey.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os discos nacionais da década

Confesso que escuto muito mais música internacional que música brasileira. Isso não significa, entretanto, que o que é feito no nosso país não tenha qualidade. Tem muita, mas minha discografia pende mais para o exterior, por gosto, afinidade, influência, costume; não sei bem ao certo. Do que melhor se faz por essas terras, curto muito o rock alternativo baiano e brasileiro, alguns artistas chegados ao mainstream (Los Hermanos, Nação Zumbi, Vanessa da Mata, Pato Fu, etc), medalhões (lista extensa, que vai de Jobim a Caetano, passando por Chico, Ben Jor, Bethânia...) e por aí vai. Nesta década, 15 artistas fizeram minha cabeça - aqui vão eles, com seus respectivos discos:

Arnaldo Antunes - Iê Iê Iê (2009)



Arnaldo geralmente não decepciona com seus álbuns de estúdio e com os sempre bem elaborados shows que apresenta. Em 2009, porém, ele surpreendeu com o melhor álbum desde que saiu do Titãs. Iê Iê Iê, como o nome entrega, é para cima, traz ótimos rocks e renova o interesse pelo trabalho do artista paulista.

Caetano Veloso - Cê (2006)



Fazendo jus à fama de que nunca pára quieto e que sempre se renova, Caetano se juntou a três garotos e entregou um álbum que tem alma indie, mas ainda assim não perde a cara do baiano. Com cheiro de sexo e suor, "Cê" é polêmico e colocou Caê numa nova rota, bem mais jovial.

Carlinhos Brown - A Gente Ainda Não Sonhou (2007)



Exímio percussionista, letrista inventivo e criador da Timbalada, Carlinhos Brown também leva uma carreira solo das mais interessantes. Na década de 90, lançou dois ótimos discos, "Alfagamabetizado" (1996) e "Omelete Man" (1998), e nos anos 2000, lançou o vibrante "A Gente Ainda Não Sonhou", que traz a mistura de ritmos que lhe é peculiar, com muita percussão.

Cascadura - Bogary (2006)



A guinada que o Cascadura deu a partir do ótimo "Vivendo em Grande Estilo" (2004), deixando o rock setentista um pouco de lado e incorporando influências mais contemporâneas como Muse e Queens of The Stone Age, colocou o grupo na linha de frente do rock baiano. Com a porrada de "Bogary", o Casca apresenta o que o rock baiano tem de melhor.
** Menção honrosa da mesma banda: Vivendo em Grande Estilo (2004).

Cidadão Instigado - Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências (2005)



Não é de se surpreender quando alguém classifica a banda de Fernando Catatau como estranha. É de fato bem esquisita, original e surpreendente. Juntando brega, psicodelia, guitarras inventivas e indie rock, o Cidadão Instigado lançou alguns bons discos nesse década, o melhor deles sendo "O Método Tufo de Experiências".
** Menção honrosa da mesma banda: Uhuuu (2009).

Little Joy - Little Joy (2008)



Alguns podem até discutir se esse é um disco brasileiro ou não, mas quem viu algum show do Little Joy sabe que o protagonista deste projeto é mesmo Rodrigo Amarante, (ex?)-Los Hermanos. Com uma sonoridade, digamos, mais californiana, a estréia do grupo que tem ainda Fabrizio Moretti (do Strokes) como integrante, é uma grata (e solar) surpresa.

Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho (2001)



Disco responsável pela conquista de uma legião de fãs fiéis, o "Bloco do Eu Sozinho" se afasta completamente da estréia do Los Hermanos, que trazia o maior hit da banda até hoje, a batida "Anna Júlia". O "Bloco" é maduro, traz excelentes letras da dupla Camelo-Amarente, um primoroso trabalho de sopro e grandes canções como "A Flor", "Retrato pra Iaiá" e "Sentimental".
** Menção honrosa da mesma banda: Ventura (2003).

Marcelo D2 - À Procura da Batida Perfeita (2003)



Nunca fui grande fã do Planet Hemp, mas devo confessar que Marcelo D2 acerto em cheio com "À Procura da Batida Perfeita", disco que marcou o ano de 2003. Misturando hip hop com rock e samba, D2 quase encontra a tal batida perfeita. Pena que nos discos seguintes tenha desgastado demais a fórmula.

Mombojó - Nadadenovo (2004)



Alcançando um interessante grau de lirismo, os pernambucanos do Mombojó estreiaram com um disco redondinho, bem tocado, com letras interessantes e de fácil assimilação. E melhor: fugiram do mangue beat, mostrando que Pernambuco também tem bandas boas que não rezam a cartilha de Chico Science.

Mutantes - Mutantes Ao Vivo - Brabican theater, Lindres 2006 (2006)



Foi por um fugaz momento, mas os irmãos Baptista se reuniram e despejaram magia em Londres em um CD/DVD que fez jus à trajetória brilhante do talvez melhor grupo de rock que o Brasil já teve. Rolaram mais alguns shows, mas logo Arnaldo largou a banda, levando consigo a convidada Zélia Duncan. Sérgio Dias, desde então, mantém o Mutantes na ativa.

Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007)



Depois da morte de Chico Science, a Nação Zumbi demorou um pouco para encontrar seu rumo. Se "Futura" (2005) os colocou novamente na rota, foi "Fome de Tudo" que fez os fãs enterrarem de vez o antigo vocalista. Jorge du Peixe enfim achou o tom correto, Lúcio Maia continuou destruindo na guitarra e a percussão voltou a explodir como nos bons tempos.
** Menção honrosa da mesma banda: Futura (2005).

Retrofoguetes - Chachachá (2009)



Não há dúvida que a banda baiana Retrofoguetes destrói mesmo é no palco, com performances matadoras de Morotó (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria). Difícil batê-los. Mas em disco, os caras também mandam bem, como no recente "Chachachá", que vai do tango a valsa, passando pela surf music. Bem mais coeso que a estréia, "Chachachá" é uma aula da boa música instrumental.
** Menção honrosa da mesma banda: Ativar Retrofoguetes! (2003).

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - Frascos Comprimidos Compressas (2009)



Difícil escolher entre o primeiro e o segundo álbum do grupo Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta. Não menos que excelentes, os discos equilibram o inventivo instrumental dos Ladrões com a poesia e entrega do vocalista e letrista Ronei Jorge. Melhor produzido que o primeiro, "Frascos Comprimidos Compressas" leva o título por ser ainda mais "brasileiro" que o début.
** Menção honrosa da mesma banda: Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta (2005).

Vanessa da Mata - Sim (2007)



Depois de trabalhos apenas razoáveis e um tanto quanto irregulares, Vanessa da Mata acertou em cheio com "Sim". Para além da propalada parceria com Ben Harper em "Boa Sorte/Good Luck", o disco tem uma levada deliciosa, com boas baladas e algumas ótimas canções mais chegadas ao reggae, fruto da colaboração com os jamaicanos Sly e Robbie.

Zeferina Bomba - Noisecoregroovecocoenvenenado (2006)



Porrada sonora dos paraibanos da Zefirina Bomba, "Noisecoregroovecocoenvenenado" é um disco curto, direto. Punk nordestino da melhor estirpe, o disco é levado por uma viola caipira distorcida, o que imprime uma aura ainda mais garageira ao grupo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os discos internacionais da década

Essa lista é das mais difícies. Comecei com uma relação de 10, aumentei para 15 e por fim cheguei aos 20. Ainda faltam vários discos, confesso, mas acabei optando mais uma vez por aqueles que me emocionaram. Algumas bandas mereciam encaixar ao menos dois discos, mas continua valendo a regra de um álbum por artista (e da aprresentação deles em ordem alfabética). Dois trabalhos recém-lançados ficaram de fora por ainda não terem sido maturados como deviam: "Horehound" (The Dead Weather) e o début homônimo do Them Crooked Vultures (a banda mais excitante que surgiu em 2009, com Josh Homme, John Paul Jones e Dave Ghrol). Mesmo pouco ouvidos, os dois discos pegaram de jeito esse que vos fala. Porém, pesou a indecisão e os novatos acabaram ficando de fora. Coisa que só uma futura revisão pode consertar.

Amy Winehouse - Back to Black (2006)



Muito se falou sobre Amy Winehouse desde que a inglesa estorou pelo mundo. Infelizmente, os maiores destaques foram para assuntos extra-música, de uma cantora um tanto desequilibrada e atolada em drogas. "Back to Black", entretanto, é sim um excelente álbum, com vigor soul, voz impressionante e hits que grudam. Resta agora esperar por um sucessor classe A - se é que ele virá.

Arcade Fire - Funeral (2004)



Big band das mais inusitadas, o Arcade Fire ficou conhecido pelos shows vibrantes, com troca de instrumentos e catarse sonora. O disco "Funeral" prova que eles são bons também em estúdio. Faixas como "Rebellion (Lies)" equilibram bons arranjos com emoção, numa sonoridade repleta de camadas. É um disco que cresce após seguidas execuções.

Coldplay - A Rush of Blood To The Head (2002)



Obra-prima do Coldplay, esse segundo lançamento colocou o grupo entre os maiores do mundo. Os discos seguintes ainda não repetiram a excelência e inventividade do "A Rush...". Sem guitarras e com um dos pianos mais bem colocados do pop/rock mundial, o Coldplay não soa chato em nenhum momento e não exagera na emoção - como fez em alguns momentos posteriores.

Damien Marley - Welcome to Jamrock (2005)



Mesmo não sendo o mais conhecido dos filhos de Bob Marley, é de Damien o melhor disco de reggae da década. Misturando o ritmo jamaicano com outros gêneros, principalmente o rap, ele saiu da mesmice e apresentou uma música vibrante e solar.

Flaming Lips - Yoshimi Battles The Pink Robots (2002)



Sensível e viajante disco da banda liderada pelo louco Wayne Coyne, "Yoshimi Battles..." é praticamente um disco conceitual, sem a chatice que essa palavra muitas vezes carrega. Investindo nos barulinhos e dosando bem as esquisitices, o grupo cometeu o seu melhor trabalho dos anos 2000. Foi a base do ótimo show que eles fizeram no Claro que é Rock, em São Paulo e no Rio.

Franz Ferdinand - You Could Have It So mUch Better (2005)



O rock dançante da banda escocesa já impressionou no primeiro e homônimo disco de estúdio, conquistando de cara uma horda de fãs (eu entre eles). Neste segundo trabalho, Alex Kapranos e cia apuraram ainda mais a sonoridade, numa produção mais madura e recheada de hits como "Do You Want To" e "Walk Away".
** Menção honrosa da mesma banda: Franz Ferdinand (2004).

Gnarls Barkley - St Elsewhere (2006)



Álbum que traz uma das melhores músicas da década, "Crazy", "St Elsewhere" é uma pérola da música negra. A parceria do produtor e DJ Danger Mouse com a bela voz de Cee-Lo fez a festa dos que curtem soul com toques da eletrônica e do rap.

Johnny Cash - American IV - The Man Comes Around (2002)



Já no finalzinho de sua vida, o grande Johnny Cash entregou mais um disco da série American Recordings. Com uma voz ainda hipnotizante, o veterano gravou um disco que pode levar o ouvinte às lágrimas. Destaque para a já clássica versão de "Hurt", do Nine Inch Nails.

Kings of Leon - Aha Shake Heartbreak (2004)



Já fugindo um pouco do tom sulista do primeiro álbum, o Kings of Leon se aproxima mais do rock´n´roll para entregar o seu disco mais equilibrado. Hoje um dos principais grupos do mundo, aqui eles consolidaram a carreira com músicas fortes como "Pistol of Fire" e "The Bucket".
** Menção honrosa da mesma banda: Youth and Young Manhood (2003).

Lily Allen - It´s Not Me, It´s You (2009)



Esse disco foi o responsável por derrubar preconceitos em relação à jovem cantora inglesa. Se na apresentação que fez no festival Planeta Terra, em 2007, a garota decepcionou, no ano passado, no Via Funchal, ela mandou muito bem. Bom do início ao fim, "It´s Not Me, It´s You" é um disco pop que beira a perfeição.

Morrissey - You Are The Quarry (2004)



Melhor trabalho de Morrissey desde "Viva Hate" (1988), "You Are The Quarry" traz as letras ferinas e o rockinho bacana que este inglês apresenta desde os tempos do The Smiths. São vários os destaques aqui, mas dá para apontar "Irish Blood, English Heart", "I Have Forgiven Jesus", "The World is Full of Crashing Bores" e "Let Me Kiss You" como as principais.

Muse - Absolution (2003)



Esse disco é para ouvir com o volume no talo. Foi a partir dele que o Muse se tornou verdadeiramente grande e passou a fazer shows excepcionais. É a obra dos ingleses que melhor equilibra o bom rock com a megalomania de Matthew Bellamy.
** Menção honrosa da mesma banda: Black Holes and Revelations (2006).

Queens of The Stone Age - Songs for The Deaf (2002)



Porrada sonora de uma das melhores bandas da atualidade, "Songs for The Deaf" traz a formação campeã do Queens of The Stone Age, liderada por Josh Homme, com Nick Oliveri no baixo e Dave Ghrol fazendo um trabalho primoroso na bateria. São diversas as boas faixas, mas "No One Knows" talvez seja a mais redonda de todas.
** Menção honrosa da mesma banda: Era Vulgaris (2007).

Radiohead - In Rainbows (2007)



Depois do incomparável "OK Computer" (1997), a trupe de Thom Yorke fez alguns discos difícies (e chatos) como "Kid A" (2000) e "Amnesiac" (2001), e uma obra mais acessível e apenas boazinha, o "Hail to The Thief" (2003). Dez anos depois, veio "In Rainbows" para mostrar que eles ainda têm muito a oferecer. Disco redondinho, com ótimas canções que crescem ainda mais ao vivo, como eles mostraram ano passado no Brasil.

The Killers - Hot Fuss (2004)



O melhor disco do The Killers continua sendo o début "Hot Fuss". Saudades dos tempos que os caras não eram assim tão megalomaníacos e não sonhavam em ser o novo U2. Aqui, está uma das sequências mais matadoras de abertura de disco, com as faixas "Jenny Was a Friend of Mine", "Mr. Brightside", "Smile Like You Mean It" e "All These Things That I´ve Done".

The Strokes - Is This It (2001)



Até hoje impactante, por ter influenciado um grande número de bandas na década, o incessado "Is This It" tocou demais, porém entra fácil na lista dos melhores dos anos 2000. Puxado pelo hit "Last Nite", é um bom disco de garagem, com um desleixo calculado e melodias que grudam.

The White Stripes - Elephant (2003)



Disco que traz o maior hit da dupla Jack e Meg White, "Seven Nation Army", "Elephant" ganha dos outros ótimos álbuns do grupo pelo conjunto da obra e por trazer uma guitarra ligada no volume 10. Um dos grandes protagonistas dos anos 2000, Jack White destrói mesmo carregando o peso morto que é Meg na bateria.
** Menção honrosa da mesma banda: De Stijl (2000).

Vampire Weekend - Vampire Weekend (2008)



Disco deliciosamente esquisito, "Vampire Weekend" chama a atenção desde a primeira audição e cresce a cada nova. Indie até o talo, traz influências do pop africano precisamente dosadas. Além de tudo, é discretamente dançante, como atestam as faixas "Mansard Roof" e "Oxford Comma". O futuro é promissor para esse caçula dos anos 2000.

Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)



Uma das bandas mais completas da atualidade, o Wilco lançou uma série de bons discos nos anos 2000, mas o melhor deles foi sem dúvida "Yankee Hotel Foxtrot". Responsável por uma guinada sonora que levou o Wilco para mais perto do folk e do experimental, o disco é denso, mas fez relativo sucesso comercial. É daqueles trabalhos que não cansamos de ouvir e de descobrir novas nuances.
** Menção honrosa da mesma banda: Sky Blue Sky (2006).

Yeah Yeah Yeahs - Show Your Bones (2006)



Se a estréia "Fever to Tell" (2003) trazia uma ensandecida Karen O numa atmosfera punk, "Show Your Bones" é um pouco mais comedido e traz, inclusive, algumas ótimas baladas. O mais bacana do YYYs é justamente isso: cada disco traz uma identidade própria bem definida. Aqui, as melhores notas vão para "Gold Lion", "Way Out" e "Cheated Hearts".
** Menção honrosa da mesma banda: Fever to Tell (2003).

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os filmes da década

Mesmo com muitos gritos pela Internet, bradando que a década não acabou e só se encerra de fato quando findar o ano de 2010, pululam na rede as famigeradas listas de melhores da década. Sempre tive medo de cometer injustiças, mas esse ano vou arriscar. Para mim, o período vai mesmo de 2000 ao final de 2009, vou seguir o senso comum. Do mesmo modo que nunca engoli o início da semana como domingo. Início de semana é segunda-feira, ora bolas. E início de década é número redondo, ponto final.

Bom ressaltar que as três listas que apresentarei aos poucos por aqui não seguem ordem de preferência e sim a simplória ordem alfabética. Desculpem, mas "rankear" ia ser demais para o meu fígado. Outro detalhe: não pretendo dizer que tal filme e tal disco são superiores a outros que deixei de fora. Eles simplesmente me acompanharam de um modo mais próximo nesses dez anos, me tocaram mais. E o que importa é isso, o resto é balela. Até porque não vi metade dos filmes e não conheço todos os bons artistas da música.

Por fim, criei uma regra: não posso repetir o artista (no caso dos discos) ou o diretor (no caso dos filmes), cada um só pode ter um representante, com, no máximo, mais uma menção honrosa. Abaixo, pois, os meus 20 filmes preferidos da decada.

Avatar (2009)



Recém-chegado aos cinemas, o petardo de James Cameron impressiona pela técnica e populariza de vez o 3-D. A história em si é até banal, mas foi construída de tal modo que prende e não nos deixa sentir que se passaram quase três horas de projeção.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança (2004)



Filme que concedeu respeito a Jim Carrey como ator, "Brilho Eterno..." é uma sensível parceria dos inventivos Michel Gondry e Charlie Kaufman. Com um roteiro repleto de desconstruções e soluções narrativas interessantes, traz Carrey em perfeita harmonia com a sempre boa Kate Winslet.

Cidade de Deus (2002)



Melhor filme brasileiro da década, "Cidade de Deus" apresentou Fernando Meirelles para o mundo e mostrou que no Brasil também se faz filmes ágeis, com ótimos roteiros e preparação de elenco primorosa. A montagem e a fotografia indicadas ao Oscar são inesquecíveis.
** Menção honrosa do mesmo diretor: O Jardineiro Fiel (2005).

Cidade dos Sonhos (2001)



David Lynch é um dos caras mais loucos do cinema mundial e este seu filme é motivo de infindáveis discussões e interpretações. Não segue uma lógica, exige que o espectador preencha os espaços vazios e deixa você preso na poltrona por alguns minutos após a projeção.

Cidade Baixa (2005)



Além de ser o filme que melhor mostrou a Bahia contemporânea para o mundo, "Cidade Baixa" apresenta um triângulo amoroso dos mais inspirados, formado por Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga. Além disso, tem um sotaque no ponto certo e um folclore que foge do estereótipo.

Dançando no Escuro (2000)



Tristíssimo filme de Lars Von Trier, com a cantora Björk dando um show no papel principal. É um musical completamente fora dos padrões e tem algumas das sequências mais agoniantes da década. Esse é para chorar - mesmo.
** Menção Honrosa do mesmo diretor: Dogville (2003).

Fale com Ela (2002)



O universo colorido e exagerado de Almodóvar não poderia ficar de fora. Com diálogos inteligentes e o pertubador enfermeiro interpretado por Javier Cámara no centro da trama, "Fale com Ela" traz ainda a voz de Elis Regina numa belíssima cena e Caetano Veloso em carne e osso.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Volver (2006).

Kill Bill - Vol. 1 e Vol. 2 (2003 e 2004)



Mesmo não trazendo a verborragia de filmes como "Pulp Fiction", a série "Kill Bill" marca pela estética pop e por apresentar Uma Thurman em estado de graça. Se você mergulha de cabeça nesse universo, passa a entender perfeitamente a louca mente de Quentin Tarantino.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Bastardos Inglórios (2009).

Mar Adentro (2004)



O cineasta Alejandro Amenabár conta a história real do galego Ramón Sampredo com uma delicadeza ímpar. Javier Bardem, com esse papel, se colocou entre os maiores atores da atualidade. Um dos filmes mais tristes e belos da década.

Marcas da Violência (2005)



O diretor David Cronenberg sempre entregou filmes que mexem com o público, com imagens fortes e roteiros redondinhos. As ótimas interpretações de Viggo Mortensen, Ed Harris e William Hurt dão um caldo ainda mais saboroso a esta produção.

Menina de Ouro (2004)



Com o triunvirato Clint Eastwood, Hillary Swank e Morgan Freeman não podia sair algo menos que espetacular. Grande obra do melhor cineasta desta década, "Menina de Ouro" emociona na medida certa, fugindo da pieguice.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Gran Torino (2008)

O Cheiro do Ralo (2007)



Com um inspirado Selton Mello no papel principal, o filme de Heitor Dhalia é esquisito, engraçado e faz jus à louca obra de Lourenço Mutarelli. É cult, sem ser chato.

O Labirinto do Fauno (2006)



O mexicano Guillermo del Toro criou uma fábula com imagens espetaculares, mas também amparada em um roteiro consistente. Um filme talvez um pouco dark para as crianças, mas nem um pouco infantil para os adultos.

O Pianista (2002)



Um dos melhores filmes de guerra já feitos, a obra de Roman Polansky é emocionante e traz uma grande interpretação de Adrien Brody, premiado pelo Oscar. Bom ressaltar que não é fácil renovar o olhar sobre um tema tão batido como a 2a Guerra Mundial.

O Senhor dos Anéis - Trilogia (2001, 2002 e 2003)



Uma das melhores trilogias de todos os tempos, a saga dirigida por Peter Jackson conseguiu fazer jus aos ótimos livros de J.R.R. Tolkien. A reprodução deste mundo fantástico, com riqueza de detalhes, agradou aos fãs dos livros e conquistou muitos não-iniciados neste universo.

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)



Ótimas interpretações, história forte e violência a serviço da narrativa. O filme dos geniais Irmãos Coen surpreende também por não parecer tanto um filme dos Irmãos Coen. Prova de como esses americanos são versáteis.

Pequena Miss Sunshine (2006)



Filme mais fofo da década, "Pequena Miss Sunshine" é daquelas pequenas obras-primas que merecem ser vistas e revistas. O elenco dá um show e o roteiro é sagaz, com diálogos cortantes.

Sangue Negro (2007)



O filme já entraria na lista só pela interpretação hipnotizante de Daniel Day Lewis, mas tem outros méritos como uma trilha sonora pertubadora, uma narrativa épica e boa reconstituição de época.

Três Enterros (2005)



Possivelmente o filme menos conhecido desta lista, "Três Enterros" se destaca pela direção e interpretação de Tommy Lee Jones. Com um humor negro cortante, se ampara no ótimo roteiro de Guillermo Arriaga (o mesmo de "Babel" e "21 Gramas").

Vôo United 93 (2006)



Filme que apresenta de forma quase didática o que aconteceu no vôo que supostamente deveria atingir o Capitólio, no fatídico 11 de setembro de 2001, "Vôo United 93" é tensão pura. Mesmo quando exagera nos termos técnicos, o diretor Paul Greengrass não deixa o espectador tirar os olhos da tela.