quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os discos nacionais da década

Confesso que escuto muito mais música internacional que música brasileira. Isso não significa, entretanto, que o que é feito no nosso país não tenha qualidade. Tem muita, mas minha discografia pende mais para o exterior, por gosto, afinidade, influência, costume; não sei bem ao certo. Do que melhor se faz por essas terras, curto muito o rock alternativo baiano e brasileiro, alguns artistas chegados ao mainstream (Los Hermanos, Nação Zumbi, Vanessa da Mata, Pato Fu, etc), medalhões (lista extensa, que vai de Jobim a Caetano, passando por Chico, Ben Jor, Bethânia...) e por aí vai. Nesta década, 15 artistas fizeram minha cabeça - aqui vão eles, com seus respectivos discos:

Arnaldo Antunes - Iê Iê Iê (2009)



Arnaldo geralmente não decepciona com seus álbuns de estúdio e com os sempre bem elaborados shows que apresenta. Em 2009, porém, ele surpreendeu com o melhor álbum desde que saiu do Titãs. Iê Iê Iê, como o nome entrega, é para cima, traz ótimos rocks e renova o interesse pelo trabalho do artista paulista.

Caetano Veloso - Cê (2006)



Fazendo jus à fama de que nunca pára quieto e que sempre se renova, Caetano se juntou a três garotos e entregou um álbum que tem alma indie, mas ainda assim não perde a cara do baiano. Com cheiro de sexo e suor, "Cê" é polêmico e colocou Caê numa nova rota, bem mais jovial.

Carlinhos Brown - A Gente Ainda Não Sonhou (2007)



Exímio percussionista, letrista inventivo e criador da Timbalada, Carlinhos Brown também leva uma carreira solo das mais interessantes. Na década de 90, lançou dois ótimos discos, "Alfagamabetizado" (1996) e "Omelete Man" (1998), e nos anos 2000, lançou o vibrante "A Gente Ainda Não Sonhou", que traz a mistura de ritmos que lhe é peculiar, com muita percussão.

Cascadura - Bogary (2006)



A guinada que o Cascadura deu a partir do ótimo "Vivendo em Grande Estilo" (2004), deixando o rock setentista um pouco de lado e incorporando influências mais contemporâneas como Muse e Queens of The Stone Age, colocou o grupo na linha de frente do rock baiano. Com a porrada de "Bogary", o Casca apresenta o que o rock baiano tem de melhor.
** Menção honrosa da mesma banda: Vivendo em Grande Estilo (2004).

Cidadão Instigado - Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências (2005)



Não é de se surpreender quando alguém classifica a banda de Fernando Catatau como estranha. É de fato bem esquisita, original e surpreendente. Juntando brega, psicodelia, guitarras inventivas e indie rock, o Cidadão Instigado lançou alguns bons discos nesse década, o melhor deles sendo "O Método Tufo de Experiências".
** Menção honrosa da mesma banda: Uhuuu (2009).

Little Joy - Little Joy (2008)



Alguns podem até discutir se esse é um disco brasileiro ou não, mas quem viu algum show do Little Joy sabe que o protagonista deste projeto é mesmo Rodrigo Amarante, (ex?)-Los Hermanos. Com uma sonoridade, digamos, mais californiana, a estréia do grupo que tem ainda Fabrizio Moretti (do Strokes) como integrante, é uma grata (e solar) surpresa.

Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho (2001)



Disco responsável pela conquista de uma legião de fãs fiéis, o "Bloco do Eu Sozinho" se afasta completamente da estréia do Los Hermanos, que trazia o maior hit da banda até hoje, a batida "Anna Júlia". O "Bloco" é maduro, traz excelentes letras da dupla Camelo-Amarente, um primoroso trabalho de sopro e grandes canções como "A Flor", "Retrato pra Iaiá" e "Sentimental".
** Menção honrosa da mesma banda: Ventura (2003).

Marcelo D2 - À Procura da Batida Perfeita (2003)



Nunca fui grande fã do Planet Hemp, mas devo confessar que Marcelo D2 acerto em cheio com "À Procura da Batida Perfeita", disco que marcou o ano de 2003. Misturando hip hop com rock e samba, D2 quase encontra a tal batida perfeita. Pena que nos discos seguintes tenha desgastado demais a fórmula.

Mombojó - Nadadenovo (2004)



Alcançando um interessante grau de lirismo, os pernambucanos do Mombojó estreiaram com um disco redondinho, bem tocado, com letras interessantes e de fácil assimilação. E melhor: fugiram do mangue beat, mostrando que Pernambuco também tem bandas boas que não rezam a cartilha de Chico Science.

Mutantes - Mutantes Ao Vivo - Brabican theater, Lindres 2006 (2006)



Foi por um fugaz momento, mas os irmãos Baptista se reuniram e despejaram magia em Londres em um CD/DVD que fez jus à trajetória brilhante do talvez melhor grupo de rock que o Brasil já teve. Rolaram mais alguns shows, mas logo Arnaldo largou a banda, levando consigo a convidada Zélia Duncan. Sérgio Dias, desde então, mantém o Mutantes na ativa.

Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007)



Depois da morte de Chico Science, a Nação Zumbi demorou um pouco para encontrar seu rumo. Se "Futura" (2005) os colocou novamente na rota, foi "Fome de Tudo" que fez os fãs enterrarem de vez o antigo vocalista. Jorge du Peixe enfim achou o tom correto, Lúcio Maia continuou destruindo na guitarra e a percussão voltou a explodir como nos bons tempos.
** Menção honrosa da mesma banda: Futura (2005).

Retrofoguetes - Chachachá (2009)



Não há dúvida que a banda baiana Retrofoguetes destrói mesmo é no palco, com performances matadoras de Morotó (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria). Difícil batê-los. Mas em disco, os caras também mandam bem, como no recente "Chachachá", que vai do tango a valsa, passando pela surf music. Bem mais coeso que a estréia, "Chachachá" é uma aula da boa música instrumental.
** Menção honrosa da mesma banda: Ativar Retrofoguetes! (2003).

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - Frascos Comprimidos Compressas (2009)



Difícil escolher entre o primeiro e o segundo álbum do grupo Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta. Não menos que excelentes, os discos equilibram o inventivo instrumental dos Ladrões com a poesia e entrega do vocalista e letrista Ronei Jorge. Melhor produzido que o primeiro, "Frascos Comprimidos Compressas" leva o título por ser ainda mais "brasileiro" que o début.
** Menção honrosa da mesma banda: Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta (2005).

Vanessa da Mata - Sim (2007)



Depois de trabalhos apenas razoáveis e um tanto quanto irregulares, Vanessa da Mata acertou em cheio com "Sim". Para além da propalada parceria com Ben Harper em "Boa Sorte/Good Luck", o disco tem uma levada deliciosa, com boas baladas e algumas ótimas canções mais chegadas ao reggae, fruto da colaboração com os jamaicanos Sly e Robbie.

Zeferina Bomba - Noisecoregroovecocoenvenenado (2006)



Porrada sonora dos paraibanos da Zefirina Bomba, "Noisecoregroovecocoenvenenado" é um disco curto, direto. Punk nordestino da melhor estirpe, o disco é levado por uma viola caipira distorcida, o que imprime uma aura ainda mais garageira ao grupo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Os discos internacionais da década

Essa lista é das mais difícies. Comecei com uma relação de 10, aumentei para 15 e por fim cheguei aos 20. Ainda faltam vários discos, confesso, mas acabei optando mais uma vez por aqueles que me emocionaram. Algumas bandas mereciam encaixar ao menos dois discos, mas continua valendo a regra de um álbum por artista (e da aprresentação deles em ordem alfabética). Dois trabalhos recém-lançados ficaram de fora por ainda não terem sido maturados como deviam: "Horehound" (The Dead Weather) e o début homônimo do Them Crooked Vultures (a banda mais excitante que surgiu em 2009, com Josh Homme, John Paul Jones e Dave Ghrol). Mesmo pouco ouvidos, os dois discos pegaram de jeito esse que vos fala. Porém, pesou a indecisão e os novatos acabaram ficando de fora. Coisa que só uma futura revisão pode consertar.

Amy Winehouse - Back to Black (2006)



Muito se falou sobre Amy Winehouse desde que a inglesa estorou pelo mundo. Infelizmente, os maiores destaques foram para assuntos extra-música, de uma cantora um tanto desequilibrada e atolada em drogas. "Back to Black", entretanto, é sim um excelente álbum, com vigor soul, voz impressionante e hits que grudam. Resta agora esperar por um sucessor classe A - se é que ele virá.

Arcade Fire - Funeral (2004)



Big band das mais inusitadas, o Arcade Fire ficou conhecido pelos shows vibrantes, com troca de instrumentos e catarse sonora. O disco "Funeral" prova que eles são bons também em estúdio. Faixas como "Rebellion (Lies)" equilibram bons arranjos com emoção, numa sonoridade repleta de camadas. É um disco que cresce após seguidas execuções.

Coldplay - A Rush of Blood To The Head (2002)



Obra-prima do Coldplay, esse segundo lançamento colocou o grupo entre os maiores do mundo. Os discos seguintes ainda não repetiram a excelência e inventividade do "A Rush...". Sem guitarras e com um dos pianos mais bem colocados do pop/rock mundial, o Coldplay não soa chato em nenhum momento e não exagera na emoção - como fez em alguns momentos posteriores.

Damien Marley - Welcome to Jamrock (2005)



Mesmo não sendo o mais conhecido dos filhos de Bob Marley, é de Damien o melhor disco de reggae da década. Misturando o ritmo jamaicano com outros gêneros, principalmente o rap, ele saiu da mesmice e apresentou uma música vibrante e solar.

Flaming Lips - Yoshimi Battles The Pink Robots (2002)



Sensível e viajante disco da banda liderada pelo louco Wayne Coyne, "Yoshimi Battles..." é praticamente um disco conceitual, sem a chatice que essa palavra muitas vezes carrega. Investindo nos barulinhos e dosando bem as esquisitices, o grupo cometeu o seu melhor trabalho dos anos 2000. Foi a base do ótimo show que eles fizeram no Claro que é Rock, em São Paulo e no Rio.

Franz Ferdinand - You Could Have It So mUch Better (2005)



O rock dançante da banda escocesa já impressionou no primeiro e homônimo disco de estúdio, conquistando de cara uma horda de fãs (eu entre eles). Neste segundo trabalho, Alex Kapranos e cia apuraram ainda mais a sonoridade, numa produção mais madura e recheada de hits como "Do You Want To" e "Walk Away".
** Menção honrosa da mesma banda: Franz Ferdinand (2004).

Gnarls Barkley - St Elsewhere (2006)



Álbum que traz uma das melhores músicas da década, "Crazy", "St Elsewhere" é uma pérola da música negra. A parceria do produtor e DJ Danger Mouse com a bela voz de Cee-Lo fez a festa dos que curtem soul com toques da eletrônica e do rap.

Johnny Cash - American IV - The Man Comes Around (2002)



Já no finalzinho de sua vida, o grande Johnny Cash entregou mais um disco da série American Recordings. Com uma voz ainda hipnotizante, o veterano gravou um disco que pode levar o ouvinte às lágrimas. Destaque para a já clássica versão de "Hurt", do Nine Inch Nails.

Kings of Leon - Aha Shake Heartbreak (2004)



Já fugindo um pouco do tom sulista do primeiro álbum, o Kings of Leon se aproxima mais do rock´n´roll para entregar o seu disco mais equilibrado. Hoje um dos principais grupos do mundo, aqui eles consolidaram a carreira com músicas fortes como "Pistol of Fire" e "The Bucket".
** Menção honrosa da mesma banda: Youth and Young Manhood (2003).

Lily Allen - It´s Not Me, It´s You (2009)



Esse disco foi o responsável por derrubar preconceitos em relação à jovem cantora inglesa. Se na apresentação que fez no festival Planeta Terra, em 2007, a garota decepcionou, no ano passado, no Via Funchal, ela mandou muito bem. Bom do início ao fim, "It´s Not Me, It´s You" é um disco pop que beira a perfeição.

Morrissey - You Are The Quarry (2004)



Melhor trabalho de Morrissey desde "Viva Hate" (1988), "You Are The Quarry" traz as letras ferinas e o rockinho bacana que este inglês apresenta desde os tempos do The Smiths. São vários os destaques aqui, mas dá para apontar "Irish Blood, English Heart", "I Have Forgiven Jesus", "The World is Full of Crashing Bores" e "Let Me Kiss You" como as principais.

Muse - Absolution (2003)



Esse disco é para ouvir com o volume no talo. Foi a partir dele que o Muse se tornou verdadeiramente grande e passou a fazer shows excepcionais. É a obra dos ingleses que melhor equilibra o bom rock com a megalomania de Matthew Bellamy.
** Menção honrosa da mesma banda: Black Holes and Revelations (2006).

Queens of The Stone Age - Songs for The Deaf (2002)



Porrada sonora de uma das melhores bandas da atualidade, "Songs for The Deaf" traz a formação campeã do Queens of The Stone Age, liderada por Josh Homme, com Nick Oliveri no baixo e Dave Ghrol fazendo um trabalho primoroso na bateria. São diversas as boas faixas, mas "No One Knows" talvez seja a mais redonda de todas.
** Menção honrosa da mesma banda: Era Vulgaris (2007).

Radiohead - In Rainbows (2007)



Depois do incomparável "OK Computer" (1997), a trupe de Thom Yorke fez alguns discos difícies (e chatos) como "Kid A" (2000) e "Amnesiac" (2001), e uma obra mais acessível e apenas boazinha, o "Hail to The Thief" (2003). Dez anos depois, veio "In Rainbows" para mostrar que eles ainda têm muito a oferecer. Disco redondinho, com ótimas canções que crescem ainda mais ao vivo, como eles mostraram ano passado no Brasil.

The Killers - Hot Fuss (2004)



O melhor disco do The Killers continua sendo o début "Hot Fuss". Saudades dos tempos que os caras não eram assim tão megalomaníacos e não sonhavam em ser o novo U2. Aqui, está uma das sequências mais matadoras de abertura de disco, com as faixas "Jenny Was a Friend of Mine", "Mr. Brightside", "Smile Like You Mean It" e "All These Things That I´ve Done".

The Strokes - Is This It (2001)



Até hoje impactante, por ter influenciado um grande número de bandas na década, o incessado "Is This It" tocou demais, porém entra fácil na lista dos melhores dos anos 2000. Puxado pelo hit "Last Nite", é um bom disco de garagem, com um desleixo calculado e melodias que grudam.

The White Stripes - Elephant (2003)



Disco que traz o maior hit da dupla Jack e Meg White, "Seven Nation Army", "Elephant" ganha dos outros ótimos álbuns do grupo pelo conjunto da obra e por trazer uma guitarra ligada no volume 10. Um dos grandes protagonistas dos anos 2000, Jack White destrói mesmo carregando o peso morto que é Meg na bateria.
** Menção honrosa da mesma banda: De Stijl (2000).

Vampire Weekend - Vampire Weekend (2008)



Disco deliciosamente esquisito, "Vampire Weekend" chama a atenção desde a primeira audição e cresce a cada nova. Indie até o talo, traz influências do pop africano precisamente dosadas. Além de tudo, é discretamente dançante, como atestam as faixas "Mansard Roof" e "Oxford Comma". O futuro é promissor para esse caçula dos anos 2000.

Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)



Uma das bandas mais completas da atualidade, o Wilco lançou uma série de bons discos nos anos 2000, mas o melhor deles foi sem dúvida "Yankee Hotel Foxtrot". Responsável por uma guinada sonora que levou o Wilco para mais perto do folk e do experimental, o disco é denso, mas fez relativo sucesso comercial. É daqueles trabalhos que não cansamos de ouvir e de descobrir novas nuances.
** Menção honrosa da mesma banda: Sky Blue Sky (2006).

Yeah Yeah Yeahs - Show Your Bones (2006)



Se a estréia "Fever to Tell" (2003) trazia uma ensandecida Karen O numa atmosfera punk, "Show Your Bones" é um pouco mais comedido e traz, inclusive, algumas ótimas baladas. O mais bacana do YYYs é justamente isso: cada disco traz uma identidade própria bem definida. Aqui, as melhores notas vão para "Gold Lion", "Way Out" e "Cheated Hearts".
** Menção honrosa da mesma banda: Fever to Tell (2003).

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os filmes da década

Mesmo com muitos gritos pela Internet, bradando que a década não acabou e só se encerra de fato quando findar o ano de 2010, pululam na rede as famigeradas listas de melhores da década. Sempre tive medo de cometer injustiças, mas esse ano vou arriscar. Para mim, o período vai mesmo de 2000 ao final de 2009, vou seguir o senso comum. Do mesmo modo que nunca engoli o início da semana como domingo. Início de semana é segunda-feira, ora bolas. E início de década é número redondo, ponto final.

Bom ressaltar que as três listas que apresentarei aos poucos por aqui não seguem ordem de preferência e sim a simplória ordem alfabética. Desculpem, mas "rankear" ia ser demais para o meu fígado. Outro detalhe: não pretendo dizer que tal filme e tal disco são superiores a outros que deixei de fora. Eles simplesmente me acompanharam de um modo mais próximo nesses dez anos, me tocaram mais. E o que importa é isso, o resto é balela. Até porque não vi metade dos filmes e não conheço todos os bons artistas da música.

Por fim, criei uma regra: não posso repetir o artista (no caso dos discos) ou o diretor (no caso dos filmes), cada um só pode ter um representante, com, no máximo, mais uma menção honrosa. Abaixo, pois, os meus 20 filmes preferidos da decada.

Avatar (2009)



Recém-chegado aos cinemas, o petardo de James Cameron impressiona pela técnica e populariza de vez o 3-D. A história em si é até banal, mas foi construída de tal modo que prende e não nos deixa sentir que se passaram quase três horas de projeção.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança (2004)



Filme que concedeu respeito a Jim Carrey como ator, "Brilho Eterno..." é uma sensível parceria dos inventivos Michel Gondry e Charlie Kaufman. Com um roteiro repleto de desconstruções e soluções narrativas interessantes, traz Carrey em perfeita harmonia com a sempre boa Kate Winslet.

Cidade de Deus (2002)



Melhor filme brasileiro da década, "Cidade de Deus" apresentou Fernando Meirelles para o mundo e mostrou que no Brasil também se faz filmes ágeis, com ótimos roteiros e preparação de elenco primorosa. A montagem e a fotografia indicadas ao Oscar são inesquecíveis.
** Menção honrosa do mesmo diretor: O Jardineiro Fiel (2005).

Cidade dos Sonhos (2001)



David Lynch é um dos caras mais loucos do cinema mundial e este seu filme é motivo de infindáveis discussões e interpretações. Não segue uma lógica, exige que o espectador preencha os espaços vazios e deixa você preso na poltrona por alguns minutos após a projeção.

Cidade Baixa (2005)



Além de ser o filme que melhor mostrou a Bahia contemporânea para o mundo, "Cidade Baixa" apresenta um triângulo amoroso dos mais inspirados, formado por Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga. Além disso, tem um sotaque no ponto certo e um folclore que foge do estereótipo.

Dançando no Escuro (2000)



Tristíssimo filme de Lars Von Trier, com a cantora Björk dando um show no papel principal. É um musical completamente fora dos padrões e tem algumas das sequências mais agoniantes da década. Esse é para chorar - mesmo.
** Menção Honrosa do mesmo diretor: Dogville (2003).

Fale com Ela (2002)



O universo colorido e exagerado de Almodóvar não poderia ficar de fora. Com diálogos inteligentes e o pertubador enfermeiro interpretado por Javier Cámara no centro da trama, "Fale com Ela" traz ainda a voz de Elis Regina numa belíssima cena e Caetano Veloso em carne e osso.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Volver (2006).

Kill Bill - Vol. 1 e Vol. 2 (2003 e 2004)



Mesmo não trazendo a verborragia de filmes como "Pulp Fiction", a série "Kill Bill" marca pela estética pop e por apresentar Uma Thurman em estado de graça. Se você mergulha de cabeça nesse universo, passa a entender perfeitamente a louca mente de Quentin Tarantino.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Bastardos Inglórios (2009).

Mar Adentro (2004)



O cineasta Alejandro Amenabár conta a história real do galego Ramón Sampredo com uma delicadeza ímpar. Javier Bardem, com esse papel, se colocou entre os maiores atores da atualidade. Um dos filmes mais tristes e belos da década.

Marcas da Violência (2005)



O diretor David Cronenberg sempre entregou filmes que mexem com o público, com imagens fortes e roteiros redondinhos. As ótimas interpretações de Viggo Mortensen, Ed Harris e William Hurt dão um caldo ainda mais saboroso a esta produção.

Menina de Ouro (2004)



Com o triunvirato Clint Eastwood, Hillary Swank e Morgan Freeman não podia sair algo menos que espetacular. Grande obra do melhor cineasta desta década, "Menina de Ouro" emociona na medida certa, fugindo da pieguice.
** Menção honrosa do mesmo diretor: Gran Torino (2008)

O Cheiro do Ralo (2007)



Com um inspirado Selton Mello no papel principal, o filme de Heitor Dhalia é esquisito, engraçado e faz jus à louca obra de Lourenço Mutarelli. É cult, sem ser chato.

O Labirinto do Fauno (2006)



O mexicano Guillermo del Toro criou uma fábula com imagens espetaculares, mas também amparada em um roteiro consistente. Um filme talvez um pouco dark para as crianças, mas nem um pouco infantil para os adultos.

O Pianista (2002)



Um dos melhores filmes de guerra já feitos, a obra de Roman Polansky é emocionante e traz uma grande interpretação de Adrien Brody, premiado pelo Oscar. Bom ressaltar que não é fácil renovar o olhar sobre um tema tão batido como a 2a Guerra Mundial.

O Senhor dos Anéis - Trilogia (2001, 2002 e 2003)



Uma das melhores trilogias de todos os tempos, a saga dirigida por Peter Jackson conseguiu fazer jus aos ótimos livros de J.R.R. Tolkien. A reprodução deste mundo fantástico, com riqueza de detalhes, agradou aos fãs dos livros e conquistou muitos não-iniciados neste universo.

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)



Ótimas interpretações, história forte e violência a serviço da narrativa. O filme dos geniais Irmãos Coen surpreende também por não parecer tanto um filme dos Irmãos Coen. Prova de como esses americanos são versáteis.

Pequena Miss Sunshine (2006)



Filme mais fofo da década, "Pequena Miss Sunshine" é daquelas pequenas obras-primas que merecem ser vistas e revistas. O elenco dá um show e o roteiro é sagaz, com diálogos cortantes.

Sangue Negro (2007)



O filme já entraria na lista só pela interpretação hipnotizante de Daniel Day Lewis, mas tem outros méritos como uma trilha sonora pertubadora, uma narrativa épica e boa reconstituição de época.

Três Enterros (2005)



Possivelmente o filme menos conhecido desta lista, "Três Enterros" se destaca pela direção e interpretação de Tommy Lee Jones. Com um humor negro cortante, se ampara no ótimo roteiro de Guillermo Arriaga (o mesmo de "Babel" e "21 Gramas").

Vôo United 93 (2006)



Filme que apresenta de forma quase didática o que aconteceu no vôo que supostamente deveria atingir o Capitólio, no fatídico 11 de setembro de 2001, "Vôo United 93" é tensão pura. Mesmo quando exagera nos termos técnicos, o diretor Paul Greengrass não deixa o espectador tirar os olhos da tela.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A saudade



Não compreendo direito a morte. A ficha demora uma eternidade para cair. Na realidade, não fui acostumado a ela e acabo sendo surpreendido quando chega a hora. Sou de uma família grande que até o ano passado só havia sofrido com mortes naturais, de entes mais velhos. Não são falecimentos menos sofridos e saudosos, mas são simplesmente naturais. Nos últimos seis meses, dois tios meus se foram, o último deles nesta semana. Pessoa doce, padrinho por escolha e membro da família há mais de 30 anos, ele sucumbiu ao mal do século (passado, ainda não resolvido no atual: o câncer). Em pleno dezembro festivo, a ausência de dois familiares só nos deixa com o silêncio. Que estejam bem aonde for. Aqui, ficamos com a saudade.

* Esse texto é dedicado ao saudoso Dindo Humberto

sábado, 5 de dezembro de 2009

Intercambiando experiências


Tive a sorte de fazer dois intercâmbios de um ano cada, nos Estados Unidos e na Europa. Experiências únicas, bem diferentes entre si, que colaboraram muito para meu crescimento e conquista da independência. Se hoje me adapto bem onde quer que eu viva, sem grandes sofrimentos e encucações, é muito por conta do que vivi no exterior. Por esse motivo, sou partidário radical destas experiências no momento em que o jovem está em fase de formação. Seja no final do Ensino Médio (sem direito a medos e receios em relação ao Vestibular), seja no período da universidade - aproveitando convênios que algumas instituições como a Universidade Federal da Bahia (Ufba) têm. Se você é pai e pode oferecer um intercâmbio a seu filho, não seja egoísta, deixe a saudade de lado e incentive-o. E, por favor, não vá visitá-lo no meio do ano, nada pode ser mais desestabilizador. Aprenda, por mais duro que isso seja: você não faz parte do mundo que seu filho irá contruir fora do país. Simples assim.

O meu primeiro intercâmbio, nos Estados Unidos, pelo tradicional AFS, foi excitante pelo ineditismo, engrandecedor nas alegrias e tristezas que vivi e determinante em algumas das decisões que tomei nos anos que se seguiram. Com 17 anos, vivi pela primeira vez numa pequena cidade, Saint Joseph, em Missouri, numa surreal constatação de que todos os habitantes (70 mil) de lá cabem no estádio da Fonte Nova (na época a Fonte ainda existia e abrigava até 100 mil pessoas). Conheci gente de todo o mundo, dei uma de esportista praticando futebol e tênis (bem fraco nas duas modalidades), aprendi inglês e me diverti muito. Sofri um tanto também, com uma mãe americana das mais instáveis, numa relação de amor e ódio que quase me fez mudar de família. Preferi não dar esse passo, mesmo hoje percebendo que talvez teria sido melhor. Quem compensava era o pai americano e todos os tios e primos que me adotaram como parte da vida deles. As lembranças da desequilibrada Deborah Rathburn até hoje me trazem alguns calafrios. Mas todo o resto foi tão bom, que valeu mais do que a pena. E mais: cresci, como cresci...

A minha segunda experiência foi durante a metade final da graduação em Comunicação. Segui com um grupo de amigos da Ufba para Santiago de Compostola, inesquecível cidade espanhola, perto da fronteira com Portugal. Posso dizer que até hoje sinto saudade dos seis meses que passei por lá, uma vida paralela que precisava ter data marcada para acabar. Os estudos, naturalmente, tiveram uma fração de colaboração nessa experiência - especialmente no que tange ao aprendizado da língua espanhola -, mas não posso mentir ao ponto de dizer que essa fração foi grande. Com um curso de Comunicação não tão bom quanto eu esperava, fui deixando a Universidad de Santiago de Compostela um pouco de lado e mergulhei fundo na cultura - e na farra.

Para quem viveu a maior parte da vida em Salvador, cidade onde tudo acaba às 2h da manhã, Santiago de Compostela era um parque de diversões. Sair de casa perto da 1h da manhã, já turbinado de cerveja, e iniciar uma peregrinação por quatro ou cinco bares até 8 da manhã era nada menos que incrível. Como uma cidade universitária e turística, Compostela reunia um turbilhão de gringos, muito deles brasileiros. Curtir uma verdadeira Torre de Babel e me sentir independente (administrando meu dinheiro, cozinhando - simplesmente sendo dono exclusivo do meu nariz) foram coisas que eu não tinha como comprar na esquina mais próxima. Além do mais, Santiago de Compostela é uma cidade belíssima, vibrante e com uma carga histórica notável. Experimente entrar na Plaza del Obradoiro distraído... Foi assim que eu sai de uma pequena ruela e dei de cara com aquela Catedral gigantesca, de tirar o fôlego. Naquele momento - lembro como se fosse hoje - agradeci imensamente por aquele intercâmbio que se iniciava. Vivi a Espanha intensamente, não só Santiago, mas as outras espetaculares cidades que conheci. Não a tôa, considero-a a nação européia que oferece o melhor turismo, em virtude da diferença que há entre uma região e outra, da estrutura que oferece ao turista, das belezas naturais e dos sítios históricos.

O fato é que, ao final de seis meses, a grana já estava ficando curta e as oportunidades de trabalho não surgiam. Os restaurantes e as lojas botavam a culpa no inverno e eu simplesmente não podia esperar o verão das oportunidades chegar. A convite de amigos do Brasil, me mudei para Coimbra, em Portugal. Também milenar, Coimbra não tem metade dos encantos de Santiago de Compostela, mas lá eu vivi outros tantos momentos inesquecíveis. Trabalhei vendendo TV a cabo de porta em porta, fui o "apanha-copos" de uma boate e fiz as vezes de barman num estabelecimento ligado à universidade. Acabei me divertindo muito em cada um desses trabalhos e juntei a grana necessária para me manter mais seis meses na Europa e para passar um desses meses, inteirinho, correndo a Inglaterra, Holanda, Bélgica, França, Itália e Sul da Espanha. Outras tantas farras e amizades especiais foram feitas em terras portuguesas. O sobrado em que morei, mais conhecido como a Casa da Dona Rosa, e o apartamento dos baianos que era nosso quartel-general são lembranças saborosas de um dos melhores anos de minha vida. Vivido no momento certo, como deve ser.